As discussões sobre desenvolvimento regional, dívida, incentivos fiscais e investimentos abriram caminho para que a disputa presidencial e a relação de Minas Gerais com Brasília dominassem a reta final do debate entre os candidatos ao governo mineiro promovido pela Globo Minas, entre a noite desta terça-feira, 29, e a madrugada desta quarta-feira, 30.
Mateus Simões (PSD) e Flávio Roscoe (PL) reafirmaram apoio a Flávio Bolsonaro (PL), Alexandre Kalil (PDT) defendeu um caminho sem o candidato do PL e sem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e Cleitinho Azevedo (Republicanos) pregou diálogo com o governo federal independentemente de quem vencer a eleição. Patrus Ananias (PT), por sua vez, voltou a associar sua proposta para Minas à própria vitória no Estado e à reeleição de Lula.
No terceiro bloco, dedicado às diferentes regiões mineiras, Cleitinho e Kalil abriram a discussão econômica pelo Sul de Minas. O candidato do Republicanos criticou contratos de concessão de rodovias, reclamou de pedágios que chegam, segundo ele, a R$ 15 e R$ 16 sem a correspondente duplicação das vias e prometeu "rever contrato por contrato". "No meu governo, isso vai acabar. Não vai ter mais benefício para as empresas, não. Quem tem que ser beneficiado é o povo", afirmou.
Kalil deslocou a discussão para os efeitos da reforma tributária sobre a região e defendeu a manutenção de incentivos para preservar empresas e empregos. Ao citar o IBS, afirmou que Minas precisará agir diante do novo modelo tributário. "O Sul de Minas precisa sim de isenção, porque a isenção ajuda o emprego", disse.
O candidato do PDT também defendeu que Minas deixe de se limitar à venda de matérias-primas e agregue valor à produção local. Usou o café como exemplo. "Não é vender a saca crua do café ... é vender a cápsula", afirmou, comparando a estratégia à discussão sobre o processamento de minerais estratégicos dentro do Estado.
A gestão de Romeu Zema (Novo) entrou no centro do confronto quando Kalil escolheu Simões para discutir as regiões central e metropolitana. O ex-prefeito de Belo Horizonte acusou o adversário de tentar se afastar do governo do qual participou. "Parece que você não participou do governo", afirmou, ao dizer que a região teria sido abandonada pelo Estado.
Simões respondeu atacando a administração de Kalil na capital, que classificou como a "pior" da história de Belo Horizonte, e criticou o Plano Diretor aprovado durante sua gestão. Também citou obras de metrô, irrigação e infraestrutura para defender o desempenho do atual governo.
Kalil rebateu recorrendo às urnas. "Você governou Minas oito anos e está em quinto ou sexto lugar, sei lá que lugar você está", disse, após lembrar a votação obtida em sua reeleição para prefeito. Simões respondeu dizendo que pretende chegar ao segundo turno contra Cleitinho e voltou a pedir votos para impedir que o PT avance na disputa.
Na Zona da Mata, o confronto entre Gabriel Azevedo (MDB) e Simões voltou às contas estaduais. Azevedo questionou o adversário sobre um déficit de R$ 7 bilhões que, segundo ele, estaria projetado para o próximo ano e defendeu um modelo de "cidade-esponja" para enfrentar os efeitos das chuvas, com recuperação de leitos de rios, arborização e intervenções em encostas. "Não é ficar concretando como se a gente vivesse nos anos 60, 70", afirmou. Simões respondeu enumerando investimentos do governo estadual em saúde e infraestrutura na região.
Azevedo também defendeu uma política de agregação de valor aos minerais críticos, enquanto Patrus pregou desenvolvimento regional combinado com proteção ambiental e participação do setor empresarial.
Foi ainda no terceiro bloco que a disputa presidencial começou a ganhar espaço mais explícito. Roscoe reafirmou seu alinhamento com Flávio Bolsonaro ao dizer que sua candidatura "segue com Flávio Bolsonaro até o fim". Cleitinho, por outro lado, defendeu atrair investimentos privados para o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha e pregou o fim da "guerra com o governo federal".
No quarto e último bloco, a disputa presidencial e a relação de Minas com o governo federal ganharam ainda mais espaço no debate.
Simões reiterou o apoio a Flávio Bolsonaro. "Espero que quem ganhe a eleição seja Flávio Bolsonaro, porque não é possível continuar com Lula no poder", afirmou. Também disse que Minas envia recursos demais a Brasília e recebe pouco de volta e defendeu que valores pagos em juros da dívida estadual sejam revertidos para investimentos em infraestrutura.
Kalil procurou se afastar dos dois principais polos da eleição presidencial. Ao falar de sua relação com Lula, afirmou que os dois "não combinaram" politicamente. "Eu quero um caminho livre, sem Flávio Bolsonaro e sem Lula", disse, citando sua experiência à frente da Prefeitura de Belo Horizonte como credencial para governar o Estado.
Cleitinho adotou outra linha e afirmou que pretende manter uma relação institucional com Brasília "com quem quer que seja o presidente". Segundo ele, "o primeiro passo para governar bem é acabar com a polarização com o governo federal". O candidato associou essa defesa a uma agenda de menor participação estatal na economia. "Vou dar liberdade para o empresário trabalhar, menos Estado e mais povo", afirmou.
Patrus manteve a aposta numa aproximação com o governo federal sob Lula. O petista afirmou que uma eventual gestão receberá um Estado "quebrado e mal governado nos últimos anos" e disse que não promete zerar imediatamente o déficit. Voltou a defender uma negociação da dívida estadual com Brasília e o fim de isenções fiscais que, segundo ele, beneficiam "empresários amigos".
Roscoe, por sua vez, levou a discussão nacional ao Judiciário e defendeu acabar com o que classificou como "absurdos do STF". O candidato ressaltou ainda que o próximo presidente da República fará indicações para o Supremo Tribunal Federal.
O tamanho e o uso do Estado também separaram os candidatos. Em confronto com Patrus, Cleitinho afirmou que o combate a desvios liberaria recursos públicos. "Se não roubar já sobra dinheiro, acabar com isso é o mais importante", disse. Mais tarde, resumiu sua crítica à gestão estadual: "O Estado nunca esteve quebrado, ele só esteve roubado".
A disputa por uma vaga no segundo turno também apareceu diretamente. Simões pediu votos para enfrentar Cleitinho e impedir o avanço do PT. Cleitinho rebateu defendendo que a eleição fosse resolvida já no primeiro turno e afirmou que, independentemente do resultado, as divergências da campanha não deveriam impedir uma futura cooperação entre os dois. Ele lembrou ainda que permanecerá no Senado caso não seja eleito governador.
Patrus também pediu votos para seguir na disputa. Novamente questionado sobre a administração de Fernando Pimentel (PT), evitou assumir a defesa do ex-governador. "Eu não sou advogado do Pimentel, o candidato é Patrus Ananias", afirmou, embora tenha lembrado que Pimentel foi seu secretário da Fazenda na Prefeitura de Belo Horizonte e dito que os dois "fizeram história".
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