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Mapa da violência: Portal do Holanda publica estatística sem checar dados

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Por Ana Celia Ossame
30/05/2026 10h04 — em Ombudsman

A divulgação de dados estatísticos pelo poder público, de qualquer área e em qualquer esfera, deve ser acompanhada de checagem das fontes e de preferência, o repórter deve buscar especialistas capazes de analisar os números e assim ajudar a ampliar a compreensão do leitor sobre o assunto.

Nesta semana, no dia 26, terça-feira, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-AM) divulgou, com certo tom de otimismo, noticiado pelo Portal, dados mostrando o que seria denominada de “queda histórica da criminalidade na capital”. No último mês de abril, houve apenas 22 homicídios, o menor nos últimos 21 anos. Nesse mês também, houve queda dos números de feminicídios.

A notícia passou uma ideia de que, finalmente, os amazonenses poderiam andar mais tranquilos. No texto, o secretário interino da SSP-AM, Anézio Paiva, destacou que o policiamento ostensivo e a eficiência investigativa são as estratégias para inibir a criminalidade e que respondem por esses resultados.

A queda no número de feminicídios de abril, segundo a delegada Marília Campello, titular do Núcleo de Combate ao Feminicídio (NCF), deve-se à mais agilidade nas investigações e responsabilização dos autores, fato que vem sendo feito no núcleo, criado em 2020.

No texto do Portal, não há outros números que permitam ao leitor fazer uma análise mais completa dos dados, como por exemplo, número de homicídios e feminicídios de janeiro, fevereiro e março deste ano e nem dos meses dos anos anteriores. De qualquer forma, a redução desses números é mais do que bem-vinda.

No dia seguinte, 27, no entanto, o Portal divulgou com destaque os números do mais recente relatório do Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Atlas da Violência deste 2026 é uma edição histórica que marca os 10 anos de trajetória desta publicação, destinada a revelar as violências invisibilizadas sofridas por grupos sociais minoritários no Brasil. Lançado em 2016, fruto da parceria entre o Ipea e o FBSP, o Atlas consolidou-se como um dos principais instrumentos de diagnóstico e análise da letalidade no país.

A reportagem aponta um dado trazido pelo Atlas que é grave, considerando-se que o Amazonas é o estado que detém o maior número de povos indígenas do país.

O Amazonas assumiu o 1º lugar no ranking nacional de violência contra povos originários. Em apenas um ano, os assassinatos de indígenas no estado duplicaram, saltando de 36 para 73 casos. Essa escalada fez a taxa de letalidade nessa população disparar 123,4%, atingindo a marca de 47,8 mortes por 100 mil indígenas.https://www.portaldoholanda.com.br/amazonas/amazonas-se-consolida-como-6o-estado-mais-violento-do-brasil-e-lidera-mortes-de-indigenas

No texto do Portal, é pontuado que, embora o estado tenha apresentado uma redução em números absolutos na criminalidade urbana, consolidou-se como a 6ª unidade federativa mais violenta do país e a 2ª da Região Norte.

A taxa de homicídios no Amazonas é de 32,2 homicídios por 100 mil habitantes — índice bem superior à média nacional, que é de 20,1.

Na opinião dos pesquisadores do Ipea, destacada no texto, essa taxa elevada de mortes dos indígenas é reflexo direto da interiorização do crime organizado. A presença de grandes facções criminosas na zona rural da Amazônia, invadindo territórios tradicionais com o objetivo de dominar rotas internacionais de narcotráfico e controlar economias ilegais, como o garimpo e o desmatamento, interiorizou a violência no Amazonas.

Há um destaque para o município de Barcelos (a 399 km de Manaus), que foi apontado como um dos lugares mais letais do mapa, registrando uma taxa estatística extrema de 171,8 mortes por 100 mil habitantes, impulsionada por disputas locais.

Um dado que foi considerado um alento para as principais zonas urbanas do Amazonas: um total de 229 assassinatos a menos em comparação com o período anterior. Sem dizer o número anterior, para o leitor comparar.

O problema central dessas coberturas é a falta de rastreabilidade dos dados. Sem séries históricas mínimas, sem o dado anterior ao qual o novo número se compara, e sem indicadores de base populacional (como taxas por 100 mil habitantes em vez de números absolutos), o leitor não tem condições de avaliar se uma queda é estrutural ou conjuntural, expressiva ou residual. Dados soltos no tempo não informam: apenas impressionam.

Aliás, no Atlas, há dezenas de outros dados interessantes ao leitor, como o da taxa de homicídios de mulheres ocorridos dentro das residências, usado pelos pesquisadores como uma medida indireta para avaliar a evolução dos feminicídios no Brasil. Esse tipo de crime “apresenta uma estabilidade histórica inaceitável, independente do cenário econômico do país, de como o tema vem sendo fortemente tratado na grande imprensa e mídias sociais, ou das políticas públicas em todos os níveis governamentais”.

Também a violência letal entre jovens no Brasil, “um fenômeno masculino, fortemente associado a fatores estruturais, entre os quais as normas de masculinidade que incentivam a exposição de homens jovens ao risco e a naturalização da agressividade como traço masculino”, está entre os temas detalhados no Atlas.

O Atlas traz ainda os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, revelando o registro em 2024 no o país de 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, dos quais 67.204 — isto é, 76,8% — foram classificados como estupro de vulnerável. E mais: há estimativas de que ocorrem no Brasil pelo menos 822 mil estupros por ano, dos quais apenas 8,5% chegam ao conhecimento da polícia e 4,2% entram nos sistemas de informação da saúde.

Violência demais, números de mais e falta de análises que podem facilitar a compreensão da violência e suas características. O Portal foi um dos poucos do estado a divulgar os resultados do Atlas, fato que merece aplausos. Mas faltou trazer analistas que vivem e conhecem essa realidade mais de perto, afinal, os pesquisadores trabalharam com os números, mas por trás deles há nomes, endereços, vidas e histórias que podem render boas reportagens.

Coberturas de segurança pública exigem rastreabilidade: série temporal, taxa por 100 mil habitantes e desagregação por território. Sem esses três elementos, qualquer dado isolado serve mais à narrativa de quem o divulga do que à compreensão de quem o lê.

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Ana Celia Ossame é amazonense de Manaus, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) (2015) e graduada em Comunicação Social - Jornalismo pela Ufam (1985). Tem Especialização em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 1997 e experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração e Assessoria de Imprensa. Trabalhou nos jornais amazonenses A Notícia, Jornal do Comércio e A Crítica, onde elaborou matérias sobre Educação, Saúde, Meio Ambiente e do Cotidiano. Durante mais de uma década, foi responsável pela edição e produção de uma página dedicada à Educação no Jornal A Crítica. Foi Assessora de Imprensa do Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (CRM-AM), Câmara Municipal de Manaus, Agência de Comunicação do Governo do Estado, Secretaria Estadual de Assistência Social (SEAS), Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SEMASDH), Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer (Semjel) e da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM). É detentora de prêmios jornalísticos como 6º. Prêmio Embratel de Jornalismo (2004), Grande Prêmio Ayrton Senna (2000), Governo do Estado do Amazonas (1997) e Sociedade Brasileira de Cardiologia. Em 1997, foi premiada como Jornalista Amiga da Criança (JAC) pela Agência de Notícias pelos Direitos da Infância (ANDI), vinculada à Unesco. É autora do Livro de Poesia “Imaginei Assim”, publicado em 1986, dos livros Infantis “O Planeta Azul” (2014) e Os Sapatos da Formiga (2024), publicados pela Editora Valer, este último contemplado pelo Prêmio Frauta de Barro. E-mail: [email protected].

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