Por Richard Cowan e David Hood-Nuño
WASHINGTON, 8 Set (Reuters) - O vice-presidente dos Estados Unidos, o republicano JD Vance chamou Abdul El-Sayed, um muçulmano e democrata candidato ao Senado dos EUA por Michigan, de “muito, muito maléfico” em um comício na semana passada, acusando-o de defender o terrorismo devido a comentários feitos após um ataque ocorrido em março a uma sinagoga nos subúrbios de Detroit.
No Texas, o governador republicano Greg Abbott, em uma disputa acirrada por mais um mandato, atacou um projeto de empreendimento liderado por muçulmanos e pediu uma investigação sobre o que descreveu como esforços para criar “tribunais da sharia”, alegação contestada por incorporadores e por grupos de direitos civis.
No Alabama, onde os muçulmanos representam menos de meio por cento da população, o senador dos EUA Tommy Tuberville, republicano que concorre ao cargo de governador, alertou que “o inimigo está dentro dos portões”, referindo-se ao que chamou de islamismo radical.
Os comentários refletem um esforço para incluir os muçulmanos e o Islã no debate eleitoral antes das eleições de meio de mandato, em 3 de novembro, que determinarão se os democratas conseguirão tirar o controle do Congresso do Partido Republicano do presidente Donald Trump.
Críticos apontam que a retórica ataca injustamente os muçulmanos, enquanto os republicanos dizem que levantam preocupações legítimas sobre segurança, extremismo e o papel da religião na vida pública.
O porta-voz da campanha de Abbott, Eduardo Leal, disse que as medidas do governador do Texas em relação ao empreendimento visavam condutas supostamente ilegais, e não crenças religiosas.
Os muçulmanos somam cerca de 5,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos, um aumento em relação aos 2,4 milhões registrados em 2007, de acordo com o Pew Research Center. Eles representam cerca de 1,6% da população do país.
Essa parcela alcançou uma série de marcos políticos nos últimos anos, com a eleição de muçulmanos para a Câmara dos Deputados dos EUA. A cidade de Nova York elegeu seu primeiro prefeito muçulmano, Zohran Mamdani, no ano passado, enquanto El-Sayed pode se tornar o primeiro muçulmano eleito para o Senado dos EUA. Na Virgínia, Ghazala Hashmi tornou-se a primeira mulher muçulmana eleita para um cargo estadual ao vencer a disputa para vice-governadora.
Mas a retórica também se espalhou para as disputas pela Câmara.
Os deputados republicanos Keith Self e Chip Roy, ambos do Texas, organizaram um “Grupo pela América Livre da Sharia”, e o deputado republicano Randy Fine, da Flórida, apresentou um projeto de lei que, segundo ele, irá “combater o aumento” da aplicação da sharia nos Estados Unidos.
Assessores de Fine não responderam aos pedidos de comentário.
NO CENTRO DO DEBATE
El-Sayed, nascido nos Estados Unidos, tem sido o foco da retórica anti-islâmica em todo o país.
As críticas de Vance concentraram-se nos comentários de El-Sayed feitos após um homem jogar um veículo contra uma sinagoga nos subúrbios de Detroit, em março, enquanto havia crianças no prédio. El-Sayed condenou o ataque, mas também disse que “pessoas feridas ferem outras pessoas”, em referência ao agressor, apontando que alguns parentes do homem no Líbano haviam sido mortos recentemente em um ataque aéreo israelense.
Posteriormente, El-Sayed afirmou que as declarações podem ter sido mal interpretadas e pediu desculpas.
Em resposta ao ataque de Vance, El-Sayed disse no mês passado: “O mal é tirar o acesso à saúde das pessoas trabalhadoras em troca de isenções fiscais para bilionários. O mal é fazer as pessoas pagarem mais por mantimentos e combustível enquanto se promove guerras comerciais e guerras reais. O mal é dividir as pessoas para seu próprio ganho.”
El-Sayed tem enfrentado críticas dos republicanos por se associar a Hasan Piker, um influenciador de esquerda nas redes sociais que afirmou que os Estados Unidos mereceram os ataques de 11 de setembro de 2001.
Em uma entrevista em um podcast, El-Sayed discutiu o sentimento de isolamento que alguns norte-americanos experimentam, o qual ele atribuiu aos celulares e às redes sociais, e contrastou isso com o senso de comunidade que seus parentes no Egito desfrutam.
Em resposta, Tuberville postou no X: “Se você odeia tanto os Estados Unidos, vá morar no Egito.”
Assessores da campanha de Tuberville não responderam a pedidos de comentário.
ATAQUES A MINORIAS
O público tem dúvidas sobre Trump, cujo índice de aprovação está estagnado em cerca de 33%. Suas principais preocupações: o alto custo de vida, a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã e as tarifas de Trump sobre produtos estrangeiros.
A atitude do público em relação a Israel mudou, especialmente entre os democratas, com pesquisas mostrando crescente simpatia pelos palestinos e oposição cada vez maior à ajuda militar dos EUA.
Aaron Hughes, professor de estudos religiosos da Universidade de Rochester e especialista em islamismo e judaísmo, disse que o aumento do foco nos muçulmanos ocorre no momento em que os republicanos lutam para ganhar força política em questões como o custo de vida, a guerra contra o Irã e a imigração.
“Se você consegue se envolver na bandeira e criticar os muçulmanos e o islamismo, isso significa que não precisa realmente lidar com as questões”, disse ele em uma entrevista por telefone, chamando isso de “alarmismo”.
“Você está pegando essa caracterização grosseira de uma comunidade e estabelecendo conexões com o Hamas, com o Irã... Acho extremamente chocante que haja essa confusão”, disse ele.
Os ataques retóricos ocorrem, observou Hughes, apesar de muitos muçulmanos terem crenças conservadoras que se alinham com a ortodoxia republicana, como a oposição a alguns procedimentos de aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Há um histórico nos Estados Unidos de ataques a minorias em campanhas políticas, mas a retórica se tornou mais agressiva, segundo especialistas.
Há exatamente dois anos, alguns republicanos que concorriam a cargos públicos, incluindo Trump, espalharam a alegação falsa de que imigrantes haitianos que viviam na pequena cidade de Springfield, em Ohio, estavam comendo animais de estimação.
“Eles estão comendo os cachorros! As pessoas que chegaram. Estão comendo os gatos! Estão comendo... os animais de estimação das pessoas que moram lá”, disse Trump em um debate presidencial de 2024.
Embora Trump não esteja na disputa, o baixo apoio do público ao seu desempenho pode ser um empecilho para seus colegas republicanos.
Ashik Siddique, copresidente dos Socialistas Democráticos da América, não considera correto atribuir a islamofobia a apenas um partido político. “Infelizmente, às vezes, os democratas na liderança também alimentaram essa” retórica anti-islâmica, afirmou ele.
Ele se referia a uma entrevista de rádio que Andrew Cuomo concedeu em outubro passado, quando concorria como candidato independente à prefeitura de Nova York, antes de ser derrotado por Mamdani.
“Você consegue imaginar Mamdani no cargo” durante o ataque de 11 de setembro de 2001?", questionou Cuomo ao apresentador do programa.
(Reportagem de Richard Cowan e David Hood-Nuño)




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