Por Vivian Sequera e Mayela Armas e Anthony Esposito
CARACAS, 25 Set (Reuters) - A tão esperada votação na Venezuela pode não ocorrer por um ano ou mais devido às reformas previstas nos tribunais e nas autoridades eleitorais, disseram cinco fontes políticas e analistas, apesar da promessa da presidente interina Delcy Rodríguez de uma transição para a “democracia plena”.
Rodríguez, que assumiu o poder após uma operação dos Estados Unidos capturar o então presidente Nicolás Maduro em janeiro, disse à Assembleia Geral da ONU na quarta-feira que as instituições do Estado estavam se preparando para as eleições. Segundo ela, o governo havia iniciado negociações com a oposição e garantiria a participação plena, mas não apresentou um cronograma.
Cinco fontes, incluindo representantes de partidos próximos ao governo e à oposição, assim como analistas, afirmaram que ainda existem grandes obstáculos, como reformas institucionais complexas e pouca urgência aparente por parte de Washington para a realização de uma votação imediata.
Duas das fontes disseram à Reuters que é improvável que haja eleições antes do final do próximo ano.
REFORMAS COMPLEXAS
No centro do atraso está a previsão de substituição de todos os 32 juízes da Suprema Corte e dos cinco diretores do Conselho Nacional Eleitoral, órgão eleitoral máximo. Grupos da oposição e observadores internacionais de direitos humanos vêm afirmando que os dois órgãos carecem de independência e que as reeleições de Maduro em 2018 e 2024 foram fraudulentas.
A reforma institucional está sendo discutida em negociações apoiadas pelos EUA entre o governo interino de Rodríguez e uma facção da oposição.
Mas mesmo após a posse de um novo conselho eleitoral, as autoridades ainda precisariam atualizar os cadernos eleitorais, garantir que todos os partidos possam concorrer e resolver questões operacionais básicas, como se a votação seria manual ou eletrônica, disse Oswaldo Martínez, da consultoria ORC, com sede em Caracas.
Esse processo, por si só, poderia levar até um ano, segundo duas fontes próximas às negociações.
ESTABILIDADE
Autoridades norte-americanas também afirmaram que qualquer transição política deve ser acompanhada de estabilidade econômica e social, o que levanta mais questões potenciais sobre o cronograma eleitoral.
“O que ameaçaria uma república duradoura na Venezuela seria alguém ser eleito e herdar uma catástrofe total, econômica e social, colocando assim todo o projeto em risco”, afirmou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, nesta semana.
Alguns críticos dessa posição afirmam que Washington colocou de lado a oposição do país e reduziu a urgência por eleições livres em favor de acordos envolvendo petróleo e investimentos com o governo interino.
No mês passado, o presidente Donald Trump anunciou uma iniciativa sem precedentes dos EUA para assumir o controle de um quinto das vastas reservas de petróleo da Venezuela.
“O governo Trump está, atualmente, priorizando a estabilidade econômica e acordos relacionados ao petróleo sob o governo de Delcy, com pouca urgência aparente para avançar em direção a uma nova votação”, disse Risa Grais-Targow, diretora para a América Latina da consultoria de risco político Eurasia Group.
“Isso, somado a algumas das mudanças institucionais necessárias, sugere que novas eleições não serão realizadas antes do final de 2027, no mínimo, com a possibilidade de que demorem ainda mais.”
PRIORIDADES CONFLITANTES
María Corina Machado, a líder da oposição mais conhecida da Venezuela e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz que vive no exílio, tem estado notavelmente ausente das negociações com o governo interino, já que seus esforços para retornar ao país têm enfrentado obstáculos.
Alguns parlamentares dos EUA têm clamado por eleições e afirmam que Washington não obteve concessões democráticas significativas do governo de Rodríguez.
“A estabilidade e a normalização econômica, fortemente centradas na participação comercial dos EUA, continuam sendo as prioridades”, disse Nicholas Watson, da consultoria Teneo, acrescentando que Washington e Caracas estão tratando a necessidade de transição política como um processo de “longo prazo” e “sem prazo definido”.
“Nenhum dos dois está tomando medidas decisivas rumo a um processo eleitoral”, disse Watson.
(Reportagem de Vivian Sequera e Mayela Armas, em Caracas, e Anthony Esposito, em Nova York)
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