Por Joe Cash
PEQUIM, 16 Jun (Reuters) - O novo governo do Nepal deve aproveitar o conhecimento tecnológico da China e convencer os investidores de que o país himalaio está aberto aos negócios e cumprirá as promessas de campanha, afirmou nesta terça-feira à Reuters o ministro das Relações Exteriores, Shishir Khanal.
O Partido Rastriya Swatantra, fundado há três anos, conquistou 182 das 275 cadeiras parlamentares em março, com uma campanha que prometia restaurar a estabilidade política, impulsionar a economia e combater a corrupção. A eleição ocorreu após protestos liderados pela Geração Z contra o governo anterior em setembro, que deixaram 76 mortos.
“Nossa prioridade é ver a economia do Nepal crescer rapidamente”, disse Khanal em sua primeira viagem à superpotência vizinha. “Queremos exportar mais, mas, ao mesmo tempo, também queremos criar empregos em nosso país. Por isso, esperamos ver alguns investimentos no Nepal para substituir as importações e gerar empregos aqui.”
“O Nepal enfrenta um enorme déficit comercial com a China”, disse ele, acrescentando que os comerciantes nepaleses ainda não conseguiram aproveitar a concessão de Pequim de acesso isento de tarifas à sua economia de US$20 trilhões para mais de 8.000 produtos. Ele também citou a instabilidade política que resultou em 32 mudanças de governo nos últimos 35 anos.
Khanal disse ter discutido a cooperação nos setores de agricultura, saúde e turismo do Nepal, bem como na pesquisa científica e tecnológica, em reuniões com o principal diplomata da China, Wang Yi, e com a autoridade de alto escalão do Partido Comunista, Wang Huning.
O novo governo, liderado pelo primeiro-ministro Balen Shah, um ex-rapper de 36 anos, não escondeu seu empenho em buscar aproximação. O Nepal recebeu pelo menos três autoridades norte-americanas desde abril, e o fato de a primeira viagem internacional de Khanal ter sido à Índia pode fazer Pequim refletir, segundo analistas.
Khanal afirmou que o Nepal “valorizará seu relacionamento com cada país à sua maneira”. Ele destacou a Índia como um mercado potencial de exportação de energia e a China como uma fonte importante de turistas.
Além disso, Khanal confirmou que o governo está em “discussões ativas” com a Starlink, do trilionário Elon Musk, e com a chinesa Huawei sobre a prestação de serviços de internet, observando que ainda não foi tomada nenhuma decisão e que seriam necessárias mudanças legais e regulatórias. Ele não deu mais detalhes.
Pequim não havia manifestado preocupações quanto à implantação do sistema de Musk além da fronteira chinesa, acrescentou Khanal, apesar de ter apresentado reclamações sobre o sistema na Organização das Nações Unidas (ONU).
APOIO À INFRAESTRUTURA DO NEPAL
“A China sempre colocou o Nepal na vanguarda de sua ‘diplomacia de vizinhança’”, disse o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, a Khanal durante uma reunião na segunda-feira, de acordo com um comunicado do Ministério das Relações Exteriores.
Ele reiterou o compromisso de Pequim com o desenvolvimento da infraestrutura do Nepal, destacando a cooperação nas áreas de geração de energia, rodovias, portos e aviação, embora divergências sobre financiamento já tenham, anteriormente, atrasado a execução de projetos de infraestrutura previstos como parte da iniciativa “Cinturão e Rota”.
“Wang Yi quer garantir que o Nepal não se incline demais nem para a Índia nem para os EUA”, disse Eric Olander, cofundador do China-Global South Project, uma organização de mídia e pesquisa, acrescentando que Pequim pode ter ficado desagradavelmente surpresa com o resultado das eleições no Nepal.
“Pequim não gosta de mudanças que a afetem diretamente”, disse ele. “Mudanças que sejam potencialmente hostis ou que desafiem seus interesses são o que chamam a atenção deles.”
“Meu palpite é que eles não previram isso no Nepal e não gostam quando movimentos populares derrubam governos em exercício.”
(Reportagem de Joe Cash)



Aviso