Por Lori Ewing
MANCHESTER, Inglaterra, 5 Ago (Reuters) - Enquanto o presidente da Fifa, Gianni Infantino, enfrenta o maior desafio de sua década no poder, duas das vozes mais proeminentes na revolta contra ele são de mulheres.
Laura McAllister, do País de Gales, e Lise Klaveness, da Noruega — as únicas mulheres no comitê executivo da Uefa — surgiram como críticas ferrenhas a Infantino durante uma crise desencadeada por sua tentativa fracassada de aprovar uma iniciativa apoiada por fundos de private equity conhecido como FIFA Football Enterprises (FFE).
A reação negativa acendeu o debate sobre se o futebol, há muito dominado por dirigentes homens, estaria pronto para que uma mulher liderasse o esporte mundial.
“Seria maravilhoso ver uma mulher eleita presidente da Fifa”, disse McAllister, vice-presidente da Uefa, em entrevista à Reuters. “Mas é muito mais complexo do que isso."
“Gostaria de acreditar que não estamos longe de ter uma presidente mulher, mas temo que estejamos, pois acho que o esporte precisa se atualizar em relação ao resto da sociedade.”
O debate ganhou força depois que o ex-presidente da Fifa Joseph Blatter elogiou publicamente Klaveness na terça-feira, dizendo que era hora de uma mulher liderar o órgão que rege o esporte.
No entanto, McAllister disse que o cenário político global da Fifa continua sendo um grande obstáculo.
“Não é tão simples quanto simplesmente indicar uma mulher”, declarou ela. “Ela pode muito bem ser a melhor candidata para o cargo. Mas não vamos fingir que se trata de uma meritocracia simples aqui. Não é.”
Os comentários foram feitos depois que o plano de Infantino para a FFE fracassou em meio à forte oposição da Uefa e de outras entidades regionais.
O País de Gales foi a primeira de várias federações nacionais a retirar o apoio à reeleição dele, e a dissidência se espalhou rapidamente dentro das próprias fileiras da Fifa.
Infantino realizaria uma reunião de emergência nesta quarta-feira no Marrocos.
McAllister, cuja proposta de boicote aos eventos da Fifa recebeu apoio unânime durante a reunião de emergência da Uefa na semana passada, disse que a turbulência reflete problemas mais profundos de governança na entidade.
“Há sinais de que essa é uma questão que está chegando a um ponto crítico, se é que já não está”, afirmou.
Ela apontou uma série de controvérsias que minaram a confiança na liderança de Infantino, incluindo as ligações da Fifa ao fracassado projeto da Superliga Europeia, questões políticas em torno da Copa do Mundo e a decisão da Fifa de anular um cartão vermelho mostrado ao atacante norte-americano Folarin Balogun durante o torneio, depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, pediu a Infantino que revisasse a decisão.
“Tudo isso me diz que há problemas profundos na governança da Fifa”, disse ela.
Para McAllister, o impasse também diz respeito à proteção do que ela considera os valores fundamentais do futebol.
Ela disse que ela e Klaveness foram motivadas por princípios desenvolvidos ao longo de suas carreiras no futebol feminino antes de ingressarem na governança do esporte.
“Nós duas fomos jogadoras da seleção do País de Gales e da Noruega e, depois, desenvolvemos nossas próprias carreiras profissionais. Lise é advogada e eu sou cientista política. Mas também somos pessoas muito orientadas por valores”, disse McAllister. “Para nós, se o futebol perder seus valores, perderá sua essência e, portanto, a crise existencial é muito real. Por isso, era importante para nós que nossas vozes fossem ouvidas."
“Acho que, às vezes, as mulheres ficam menos presas aos aspectos comerciais do futebol e mais focadas no que o esporte realmente é”, acrescentou ela. “O esporte existe para todos, desde as categorias de base até a elite. É tanto para meninas quanto para meninos. Deve chegar a todos os cantos do mundo, tanto nos países mais pobres quanto naqueles que são bem-sucedidos globalmente. Não deve ser comprado por capital privado, nem deve haver qualquer interferência política na forma como administramos o esporte.”
Das 211 federações membros da Fifa, apenas 10 são lideradas por presidentes mulheres, incluindo Klaveness.



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