Enquanto a guerra entre EUA, Israel e Irã é marcada por um frágil cessar-fogo e pela disputa pelo Estreito de Ormuz, o conflito também é travado em outro campo de batalha: o da propaganda. Bonecos Lego, Homem de Ferro, Top Gun, animações como Divertida Mente, jogos de videogame como Call of Duty e Nintendo Wii. Todas essas referências fazem parte dos memes de guerra que tomaram as redes sociais nas últimas semanas.
Especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que a batalha pela opinião pública, quase tão antiga quanto a guerra, hoje se expandiu para um sofisticado front digital, onde as armas são animações, memes e modelos de inteligência artificial (IA) treinados com dados da cultura pop ocidental.
Em um dos vídeos com mais engajamento usado como peça de propaganda pelo Irã, Donald Trump vira um boneco de Lego. Suando e nervoso, ele come um taco mexicano, em uma referência à expressão "Trump always chickens out", na sigla "Taco" (Trump sempre amarela, em tradução livre).
A animação foi produzida com inteligência artificial pelo grupo Explosive Media. O post teve mais de 215 mil visualizações no X e foi republicado por embaixadas iranianas ao redor do mundo.
Em resposta, a Casa Branca publicou outros memes. Entre os mais comentados, filmagens reais do campo de batalhas são misturadas com cortes de videogames como o popular Grand Theft Auto (GTA). O vídeo Justice in the American Way (Justiça na moda americana, na tradução livre), que também mescla cenas fictícias de filmes famosos com filmagens reais de ataques, teve 65 milhões de visualizações no X.
Neste contexto, o que chama a atenção dos especialistas não são os memes em si, mas a capacidade do Irã de utilizar referências ocidentais em sua estratégia de guerra comunicacional. Eles explicam que, há alguns anos, os iranianos nunca seriam capazes de produzir uma propaganda tão culturalmente específica. Agora, a IA faz isso automaticamente, porque foi treinada explorando os dados da cultura pop.
Estratégia
Desde o ataque dos EUA e Israel em 28 de fevereiro, o regime iraniano bloqueou o acesso à internet dentro do país. Segundo a organização NetBlocks, que mapeia segurança cibernética ao redor do mundo, os iranianos estão há mais de 50 dias sem acesso a fontes independentes de informação sobre a guerra ou sobre notícias globais. A medida, segundo relatório publicado pela organização em março, é sem precedentes em escala e duração para uma sociedade conectada.
Emma Briant, especialista em propaganda e guerra de informação da Universidade de Notre Dame, explica que, neste contexto, a estratégia informacional iraniana se volta para a comunidade internacional. "Esta é uma guerra sendo travada pelas mentes ocidentais. O regime iraniano percebe que a melhor forma de pressionar Trump é reduzir o apoio a ele, tanto internacional quanto domesticamente nos EUA", afirma.
Os temas são escolhidos para ressoar com o público ocidental: fazem referências musicais do estilo rap, animações no estilo Lego ou do filme Divertida Mente e até alusões ao caso Epstein. "Transformar tudo em desenhos animados é altamente estratégico", observa Briant. "O Irã não é um ator confiável internacionalmente. Eles precisam que não nos lembremos de quantas pessoas o regime já matou. A estética de cartum ajuda a apagar isso."
O grupo se descreve como um "coletivo de ativismo estudantil" independente. Uma investigação do jornal britânico Guardian e da Al-Jazeera revelou, porém, que o Explosive Media recebe encomendas diretas de autoridades iranianas.
Seus vídeos começaram como comentários políticos simples, em 2025 e, com a escalada do conflito, em fevereiro, migraram para animações em estilo Lego geradas por IA.
A explicação para o sucesso está na arquitetura dos modelos de linguagem. Treinados em dados ocidentais, textos, imagens, vídeos e referências culturais, esses sistemas permitem que qualquer pessoa, independentemente de seu país de origem, produza conteúdo que soa nativo para o consumidor americano ou europeu.
Outro ponto-chave para este tipo exploração de dados foi a desregulação da IA promovida pelo governo americano. Ao retornar à Casa Branca, Trump revogou diversos decretos do governo de Joe Biden, entre elas medidas rigorosas de supervisão de IA. Essa ação armou os adversários dos EUA com suas próprias ferramentas culturais. "A IA foi usada contra o Ocidente, utilizando os seus próprios dados e referências culturais", afirma.
Games
Do outro lado, a Casa Branca optou pelo que analistas chamam de "gamificação da guerra". Vídeos oficiais mesclaram imagens reais de explosões em instalações iranianas com cenas de Call of Duty, Top Gun, Gladiator, Iron Man, Braveheart e até Bob Esponja.
Mas Briant destaca que enquanto o Irã sustenta uma narrativa consistente em que se apresenta como vítima de agressão, em uma espécie de versão moderna de Davi contra Golias, os vídeos americanos parecem mais fragmentados. "Trump está se comunicando apenas com sua base, e não está tentando trazer o mundo inteiro para apoiar a guerra."
"Na guerra, a primeira coisa que morre é a verdade". Luli Radfahrer, professor da Universidade de São Paulo, lembra da famosa citação para explicar que a propaganda sempre esteve presente nos conflitos. Ele compara o uso dos memes e da IA ao mimeógrafo na 1.ª Guerra: uma ferramenta de produção em massa acessível que democratizou a capacidade de criar propaganda eficaz.
Segundo ele, o que estamos assistindo não é uma novidade histórica, nem a primeira vez que a Casa Branca recorre a memes. No início do ano, durante a ofensiva de Trump pela anexação da Groenlândia, o perfil oficial da Casa Branca no X publicou uma montagem que mostrava o presidente em uma paisagem ártica ao lado de um pinguim, que não é nativo do Ártico, rumo a uma bandeira dos EUA no gelo.
A imagem foi ridicularizada nas redes sociais, incluindo na Dinamarca, e o episódio tornou-se um caso exemplar de como a comunicação por meio de memes pode fragilizar a credibilidade institucional de um governo.
Para especialistas, a prática ainda representa uma faca de dois gumes: ganha engajamento e viraliza, mas perde credibilidade institucional. A professora Tine Munk, da Universidade de Nottingham Trent, pesquisadora de guerra memética desde o conflito na Ucrânia, em 2022, identifica três mecanismos centrais neste novo front.
Primeiro, a desumanização: ao transformar combatentes e civis em bonecos de Lego ou personagens de videogame, ambos os lados retiram a humanidade do adversário. Em segundo lugar, a normalização. Assim como moradores de cidades em conflito se acostumam ao som de explosões, o público que consome memes passa a encarar ataques a instalações civis como entretenimento.
Por fim, a erosão da confiança. Quando conteúdo verdadeiro e falso circulam indistintamente, o público não identifica mentiras e desconfia de tudo. "O problema dessa comunicação pulverizada e banalizada por memes é que faz com que o indivíduo respeite menos a comunicação de verdade", disse Radfahrer. "É um terrorismo informacional." Enquanto isso, a guerra memética se torna, cada vez mais, uma característica padrão do conflito moderno.



