Por Tassilo Hummel e David Gauthier-Villars
17 Set (Reuters) - A LVMH negou de forma categórica, em documento apresentado à Justiça em junho, ter tentado adquirir ações da rival Hermès pertencentes ao herdeiro da família fundadora Nicolas Puech, que afirma ter sido privado de sua participação de 6% na empresa, hoje avaliada em bilhões de dólares, por meio de esquemas envolvendo seu falecido gestor de patrimônio.
“O grupo nunca cogitou adquirir a participação de Nicolas Puech, muito menos contra sua vontade”, afirmou a LVMH no documento, em resposta a um processo aberto por Puech na França no ano passado.
No entanto, documentos judiciais examinados pela Reuters mostram que a LVMH assinou em 2002 um acordo para comprar as ações do herdeiro. O negócio foi estruturado por representantes da companhia em conjunto com o consultor financeiro de Puech, Eric Freymond, que morreu no ano passado.
Além disso, os documentos revelam que a LVMH e a holding da família de seu presidente pagaram ao menos US$20 milhões em comissões e honorários à empresa de gestão de patrimônio de Freymond entre 2001 e 2009, período em que o consultor ajudou a LVMH a construir secretamente uma grande participação na Hermès.
Tanto o acordo de 2002 envolvendo as ações de Puech quanto a dimensão dos pagamentos feitos a Freymond estão sendo divulgados pela primeira vez.
Em conjunto, os documentos mostram que a relação da LVMH com o gestor e homem de confiança de Puech era mais ampla do que se sabia anteriormente, levantando dúvidas sobre as recentes negativas da companhia de que tenha tentado comprar a participação do herdeiro na Hermès.
As revelações representam um novo capítulo na rivalidade corporativa entre as duas gigantes do luxo, que se arrasta há cerca de 25 anos, desde que a LVMH começou a acumular discretamente ações da Hermès.
A Hermès conseguiu barrar o que classificou como uma tentativa hostil de tomada de controle por parte do presidente e CEO da LVMH, Bernard Arnault, após o bilionário surpreender investidores ao revelar, em outubro de 2010, uma fatia de 17% na concorrente. A LVMH chegou a deter até 23% da Hermès antes de concordar em vender sua participação em um acordo firmado em 2014.
O mistério em torno da fortuna que o herdeiro da Hermès afirma ter desaparecido continua sendo discutido nos tribunais de Paris, levantando novas questões sobre se e como suas ações acabaram integrando a participação acumulada pela LVMH na fabricante de artigos de luxo.
Arnault construiu seu império por meio de aquisições, começando pela Christian Dior antes de assumir o controle da LVMH no fim da década de 1980, pouco depois da criação do grupo a partir da fusão entre Louis Vuitton e Moët Hennessy.
Hoje, a LVMH é a maior empresa de luxo do mundo, reunindo mais de 75 marcas que vendem produtos que vão de roupas e artigos de couro a champanhes e perfumes. Arnault figura entre as pessoas mais ricas da Europa.
A Hermès, controlada majoritariamente por membros da família fundadora, tornou-se uma das empresas listadas mais valiosas da França, ao lado da própria LVMH, graças ao foco em consumidores de altíssima renda e ao apelo duradouro de artigos como as bolsas Birkin e Kelly, que podem custar dezenas de milhares de dólares.
Puech afirma que só descobriu que suas ações haviam desaparecido em 2022, depois de romper relações com seu gestor patrimonial.
No ano passado, ele abriu uma ação judicial buscando 14 bilhões de euros em indenização de qualquer pessoa que venha a ser considerada culpada na investigação paralela conduzida por promotores sobre o desaparecimento de sua fortuna.
A investigação tem como alvos o já falecido Freymond e um advogado que assessorou a LVMH durante a acumulação secreta de ações da Hermès nos anos 2000.
Pelos preços atuais de mercado, a participação de 6% de Puech na Hermès valeria cerca de US$10 bilhões.
A ação movida por Puech cita como réus a LVMH, seu presidente bilionário e empresas ligadas a Freymond.
A LVMH argumentou no documento apresentado à Justiça em junho que comprar as ações de Puech não faria sentido porque, na época, sua estratégia seria justamente a oposta: convencer o herdeiro a integrar um bloco de acionistas capaz de influenciar a Hermès, algo que ele não poderia fazer sem manter sua participação acionária.
Entretanto, os documentos analisados pela Reuters mostram que a LVMH assinou o acordo de 2002 para comprar as ações de Puech por intermédio de Freymond pouco depois de iniciar sua estratégia de aquisição de participações na empresa.
Um porta-voz da LVMH se recusou a comentar o acordo ou os pagamentos feitos a Freymond.
Puech também não comentou o caso, citando a investigação criminal em andamento. A Hermès igualmente recusou comentar.
Freymond morreu em julho de 2025 após ser atingido por um trem na Suíça, enquanto promotores franceses investigavam se ele havia se apropriado indevidamente das ações de Puech.
Autoridades suíças concluíram que se tratou de suicídio. Antes de morrer, Freymond negava qualquer irregularidade.
AÇÕES DESAPARECIDAS
O que ocorreu exatamente com as ações da Hermès pertencentes ao herdeiro e com eventuais recursos pagos por sua compra continua incerto.
A LVMH nunca informou se adquiriu ações da Hermès pertencentes a Puech. No processo apresentado em junho, reconheceu ter trabalhado com Freymond para acumular ações da companhia, mas afirmou que qualquer compra das ações do herdeiro teria ocorrido sem intenção.
Em um processo na Suíça de 2017, não divulgado anteriormente, a LVMH afirmou que o acordo de 2002 nunca chegou a ser executado e que não conseguiu verificar se Puech havia autorizado Freymond a vender os papéis.
Em maio, promotores disseram à Reuters que investigam se o advogado suíço Alexandre Montavon “participou da apropriação indevida das ações da Hermès pertencentes a Nicolas Puech em benefício da LVMH”.
Até o momento, não foram apresentadas acusações criminais contra Montavon.
Segundo transcrição de depoimento obtida pela Reuters, Montavon afirmou aos promotores franceses em maio que assessorou a LVMH na elaboração do acordo de 2002.
Ao mesmo tempo, o advogado também trabalhava próximo a Freymond, integrando o conselho da empresa de gestão patrimonial do consultor financeiro.
Montavon disse aos investigadores que o acordo previa a compra, pela LVMH, de milhões de ações da Hermès pertencentes a Puech e a outros herdeiros da família.
Seu advogado afirmou que o cliente nega qualquer irregularidade e nunca foi informado, à época dos fatos, de que a LVMH teria adquirido ações pertencentes a Puech.
ACORDO SECRETO
A relação entre Freymond e a LVMH está no centro tanto da ação movida por Puech quanto da investigação criminal francesa.
Segundo o depoimento de Montavon e documentos judiciais suíços, a relação começou em 2001, quando o advogado apresentou Freymond a Pierre Godé, braço direito de longa data de Arnault e um dos principais estrategistas da LVMH. Godé morreu em 2018.
A LVMH afirmou em documentos judiciais que Freymond dizia ter contato com acionistas da família Hermès interessados em vender suas participações, mas sem revelar suas identidades.
De acordo com o depoimento de Montavon, Freymond propôs criar uma espécie de intermediário para as operações, utilizando as contas de Puech como canal de passagem para ações da Hermès pertencentes a outros investidores.
O objetivo seria ocultar que a verdadeira compradora era a LVMH, já que alguns herdeiros da Hermès poderiam se recusar a vender suas ações para uma empresa rival.
“Freymond nos sugeriu realizar essas operações por meio de Nicolas Puech, financiadas pela LVMH, e foi isso o que aconteceu”, afirmou Montavon, segundo a transcrição do depoimento.
A LVMH não respondeu aos questionamentos da Reuters sobre o suposto uso das contas de Puech para comprar ações da Hermès em 2001.
A companhia afirmou em documento judicial de 2017 que, com a ajuda de Freymond, já havia acumulado 4,9% da Hermès até 2002.
Mas a empresa queria ampliar sua participação. Em 12 de novembro de 2002, Godé e Freymond assinaram um acordo prevendo a compra de milhões de ações adicionais da Hermès pertencentes a Puech e outros herdeiros.
O contrato estabelecia que as aquisições começariam após a esperada saída do então CEO da Hermès, Jean-Louis Dumas, que acabou se aposentando apenas em 2006.
No processo suíço de 2017, a LVMH afirmou que o acordo foi posteriormente suspenso até que fosse confirmada a autoridade de Freymond para agir em nome de Puech.
A companhia afirmou ainda que Godé não conseguiu verificar as “verdadeiras intenções” do herdeiro em relação às ações.
Segundo a LVMH, o acordo jamais foi executado e o documento acabou destruído no fim de 2010, ano em que o grupo revelou sua grande participação na Hermès.
Montavon declarou aos promotores que “absolutamente nunca” perguntou diretamente a Puech sobre o acordo de 2002.
Quando questionado sobre por que não consultou o herdeiro diretamente, respondeu que Puech “tinha um representante”, referindo-se a Freymond, “a quem concedeu todos os poderes”.
A LVMH não respondeu às perguntas da Reuters sobre se alguma vez discutiu o acordo diretamente com Puech nem sobre o motivo da destruição do documento.
(Reportagem de Tassilo Hummel, em Paris, e David Gauthier-Villars, em Istambul)
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