Por John Irish e Jonathan Saul
30 Jul (Reuters) - O Irã deve receber nas próximas semanas um primeiro lote de até 400 lança-mísseis portáteis de defesa aérea fabricados na China, segundo informaram à Reuters três fontes a par do acordo, enquanto o país reconstrói suas defesas em meio à guerra com os Estados Unidos.
A compra, avaliada em US$60 milhões a US$70 milhões, é uma das maiores iniciativas conhecidas de Teerã para fortalecer suas defesas aéreas de curto alcance desde o início da guerra com os EUA e Israel, que expôs lacunas na capacidade do Irã de proteger instalações militares e infraestrutura estratégica.
O contrato abrange a compra de entre 300 e 400 sistemas portáteis de defesa aérea, incluindo mísseis QW-12 e FN-16 de fabricação chinesa, segundo as fontes.
O acordo foi assinado com a Zhongqing Baoshang International Investment, uma empresa sediada em Hong Kong que, segundo as fontes, atuou como intermediária entre a parte iraniana e o fornecedor chinês.
IRÃ PRECISA SE REARMAR APÓS MESES DE GUERRA
As fontes falaram sob condição de anonimato devido à delicadeza do assunto. O Ministério das Relações Exteriores do Irã não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou: “As notícias em questão são totalmente infundadas. A China tem desempenhado consistentemente um papel na promoção da paz e no fim do conflito.”
Questionado sobre o acordo em uma coletiva de imprensa de rotina em Pequim na quinta-feira, o porta-voz do Ministério da Defesa chinês, Jiang Bin, disse que “não estava a par da situação em questão”.
O Zhong Qing Bao Shang Group, com sede em Pequim, empresa controladora da Zhongqing Baoshang International Investment, não respondeu imediatamente a um pedido de comentário enviado por email na terça-feira.
O Irã precisa se rearmar após meses de combates nos quais os EUA e Israel atacaram instalações ligadas aos seus programas de mísseis, drones e defesa aérea, e Teerã respondeu com disparos de mísseis balísticos e drones.
O conflito destacou o desafio de defender instalações militares e estratégicas fixas contra aeronaves avançadas e armas guiadas com precisão.
Washington suspendeu abruptamente, no sábado, duas semanas de bombardeios, mas o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que os ataques seriam retomados caso as negociações não conseguissem pôr fim ao conflito, que já dura cinco meses e que, em teoria, está em estado de cessar-fogo desde abril.
Em resposta a esta reportagem, Trump disse que seria surpreendente que o Irã recebesse tal equipamento da China, considerando o que ele descreveu como garantias do presidente chinês, Xi Jinping, de não se envolver na guerra em favor do Irã.
“Quero dizer, coisas assim acontecem, mas isso seria surpreendente. Ele (Xi) me disse com muita veemência que não participaria, mas sabe que eu ficaria bastante decepcionado”, disse Trump na quarta-feira, em resposta a uma pergunta sobre essa reportagem.
A entrega de centenas de lança-mísseis portáteis ampliaria significativamente o estoque de armas de defesa aérea de curto alcance do Irã e ressaltaria como os laços militares com a China estão se aprofundando.
As fontes alertaram que, embora o acordo tenha sido assinado, os cronogramas de entrega, as quantidades e outros detalhes de implementação ainda podem sofrer alterações.
De acordo com um plano acordado pelas partes, as entregas serão inicialmente feitas por via aérea a partir de Urumqi, no oeste da China, e depois transitarão pelo Paquistão até o Irã, segundo as fontes, que não esclareceram se as transferências ocorreriam por via aérea ou rodoviária.
O ISPR, órgão de relações públicas das Forças Armadas do Paquistão, afirmou: “As especulações de que o Paquistão estaria envolvido no fornecimento de armas de defesa aérea da China ao Irã são totalmente inventadas e falsas.” Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Paquistão não respondeu aos pedidos de comentário.
CHINA E IRÃ EXPLORAM ROTAS TERRESTRES PARA ENTREGA, AFIRMAM FONTES
Embora o Irã tenha investido pesadamente nas últimas duas décadas em mísseis, drones e radares, especialistas militares afirmam que os sistemas portáteis de defesa aérea são importantes porque podem ser dispersados rapidamente, operados por pequenas equipes e realocados com frequência, tornando-os menos vulneráveis do que as baterias fixas de defesa aérea.
Uma fonte de segurança europeia afirmou que as autoridades de seu país estavam cientes de vários contratos em discussão envolvendo a possível venda de MANPADS da série QW ao Irã, incluindo os sistemas QW-12, QW-18 e QW-19.
Uma segunda fonte de segurança, no Oriente Médio, afirmou que o Irã vinha buscando adquirir mísseis QW-12 e QW-18, mas que não tinha conhecimento de que um acordo já havia sido fechado.
O QW-12 e o FN-16 são sistemas de mísseis terra-ar lançados do ombro e guiados por infravermelho, projetados para atingir aeronaves voando a baixa altitude, helicópteros e drones. Sua mobilidade permite que sejam rapidamente posicionados em torno de instalações militares, infraestrutura energética e outros locais sensíveis.
Analistas de defesa consideram o QW-12 menos capaz do que as variantes mais recentes do QW, incluindo o QW-18 e o QW-19, mas afirmam que os sistemas ainda podem oferecer uma camada eficaz de proteção de curto alcance contra drones e alvos que voam a baixa altitude.
Duas fontes de inteligência ocidentais e uma autoridade iraniana afirmaram que Teerã também havia explorado o uso de rotas terrestres para transportar suprimentos militares chineses e componentes de dupla utilização de forma mais discreta e reduzir o risco de interrupções.
A aquisição destaca a dependência contínua da República Islâmica de uma combinação de produção nacional de armas e fornecedores estrangeiros, apesar de anos de sanções e restrições às importações relacionadas à defesa.
A Reuters havia noticiado anteriormente que o Irã estava prestes a fechar um acordo separado com a China para adquirir mísseis de cruzeiro antinavio, de acordo com pessoas a par dessas negociações. A Reuters não conseguiu determinar se o acordo foi concretizado.
(Reportagem adicional de Liz Lee em Pequim, Clare Jim e Greg Torode em Hong Kong e Rick Noack em Islamabad)



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