Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 22 Mai (Reuters) - A rotatividade de presidentes-executivos das empresas do agronegócio do Brasil deu um salto em 2024/2025, com 25% das 100 maiores registrando ao menos uma troca de CEO no biênio, em um ambiente de negócios mais desafiador para o setor, que tem buscado lideranças com maior capacidade de execução, de acordo com pesquisa da consultoria Flow Executive Finders.
O dado representa um salto em relação a uma pesquisa anterior, que havia apontado uma taxa de renovação de 12% em 2022/2023, segundo levantamento encaminhado à Reuters pela empresa especializada na seleção dos mais altos executivos.
Segundo a consultoria, as trocas de CEOs foram impulsionadas em momento em que as empresas do agronegócio -- um dos setores mais expostos a volatilidades -- buscam profissionais com perfis capazes de equilibrar eficiência operacional e financeira e visão estratégica de longo prazo.
Alguns segmentos, como o de soja e milho, têm lidado com margens mais baixas, inadimplência mais elevada e uma onda de recuperações judiciais, enquanto outros foram afetados mais recentemente pelo tarifaço dos EUA.
"O que chama atenção não é apenas o volume, mas o contexto: as empresas estão mais exigentes em relação ao perfil de liderança, buscando executivos com maior capacidade de execução, disciplina financeira e leitura estratégica", disse Saulo Ferreira, sócio da Flow.
Juntas, as 100 companhias incluídas no levantamento somam cerca de R$2 trilhões em receita líquida, segundo a empresa.
Ferreira observou ainda que, apesar do crescimento da rotatividade, a taxa de 25% de mudança de CEOs está em linha com o observado em outros mercados.
Mas a pesquisa mostrou ainda que, no agronegócio, houve casos com mais de uma mudança de liderança no período, o que tende a indicar contextos "mais profundos" de transformação -- seja na estratégia, no modelo operacional ou na própria governança das companhias.
"A troca de CEO mais de uma vez em um curto intervalo costuma indicar desafios mais estruturais, muitas vezes relacionados à redefinição de prioridades do negócio", avaliou Igor Schultz, sócio da Flow.
"O que vemos é uma evolução do mandato: saímos de um ciclo mais orientado a crescimento e expansão para um contexto que exige maior disciplina na execução, gestão de risco e alocação de capital", concluiu.
Sobre o perfil das empresas, das 25 analisadas, 48% são de capital fechado, 24% de capital aberto, 20% subsidiárias de multinacionais e 8% cooperativas.
Além disso, 60% possuem gestão familiar.
"Em empresas familiares ou de capital fechado, a troca de CEO envolve não apenas desempenho e estratégia, mas também cultura, legado e dinâmica entre acionistas. O que observamos é uma evolução dos modelos de gestão, com maior abertura para executivos de mercado", acrescentou Schultz.
Para ele, esse movimento também está associado à maior sofisticação das companhias do setor em sua relação com o mercado de capitais. Elas buscam maior governança, disciplina financeira e previsibilidade de resultados, especialmente em um ambiente de menor liquidez, comentou o sócio da Flow.
(Por Roberto Samora; edição de Letícia Fucuchima)




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