Por Juliette Jabkhiro e Elizabeth Pineau e Corina Pons
BORDEAUX, França/MADRI, 31 Jul (Reuters) - Os enormes incêndios florestais que assolam as proximidades da cidade francesa de Bordeaux e a Espanha, do outro lado da fronteira, estão sobrecarregando os bombeiros que lutam na linha de frente, levantando questões sobre a forma como os serviços de combate a incêndios estão organizados.
Mais de três quartos dos bombeiros na França são voluntários que tiram uma folga do trabalho diário para atender a emergências, enquanto a Espanha conta com milhares de “bomberos forestales” (bombeiros florestais), muitos dos quais são contratados por autoridades regionais com contratos temporários sazonais.
Pierre-Hadrien Lusignan é um voluntário na região de Gironda, no oeste da França, que vem trabalhando desde a semana passada no incêndio que ameaça Bordeaux, uma área metropolitana que abriga cerca de 850 mil pessoas.
“As primeiras 24 a 48 horas foram difíceis. Logo no início, a intensidade do incêndio dificultou o controle”, disse Lusignan, que é voluntário há oito anos.
“O vento mudava de direção, e o incêndio se espalhava de forma imprevisível. Então chegaram os reforços – bombeiros de toda a França e da Europa.”
Quatro bombeiros morreram na França desde o início do verão, e os sindicatos estão alertando sobre a falta de pessoal e o esgotamento das equipes, com um recorde de 116 mil hectares queimados no país desde o início do ano.
Dois dos que perderam a vida neste mês estavam lotados em Saint-Médard-en-Jalles, onde Lusignan trabalha como diretor de um centro cultural comunitário.
“A morte desses dois colegas acrescentou uma profunda dimensão emocional e humana à situação”, disse ele.
'SÃO NECESSÁRIOS MAIS VOLUNTÁRIOS'
A Europa, o continente que está se aquecendo mais rapidamente, enfrenta um verão escaldante, com uma série de ondas de calor provocando incêndios mortais, o que tem gerado apelos por uma reformulação dos sistemas e recursos disponíveis para combatê-los.
De acordo com dados da defesa civil, a França conta com 256.400 bombeiros, dos quais cerca de 200.000 são voluntários, sendo o restante composto por profissionais em tempo integral e militares.
“Precisamos de mais 250.000 a 300.000 bombeiros voluntários”, disse Bruno Menard, secretário-geral do Sindicato Francês dos Bombeiros Voluntários. “Nos últimos 25 anos, profissionalizamos a força de voluntários; eles realizam o mesmo trabalho que os funcionários do setor público.”
Menard defende um aumento na remuneração dos voluntários, que varia de 8,70 euros (US$9,90) por hora para um bombeiro básico a 13,11 euros para um oficial, além de mais medidas para recontratar ex-voluntários.
O ministro do Interior da França, Laurent Nuñez, afirma que o orçamento da proteção civil da França quase dobrou desde que o presidente Emmanuel Macron assumiu o cargo em 2017, passando de 450 milhões de euros para 800 milhões de euros. O Ministério do Interior não respondeu a um pedido de comentário sobre as reivindicações específicas dos bombeiros.
TRABALHADORES SAZONAIS MOBILIZADOS NA ESPANHA
As preocupações na França encontram eco do outro lado da fronteira, na Espanha.
Devido a um sistema descentralizado, não há um número oficial de bombeiros de incêndios florestais empregados, já que cada região realiza o recrutamento de forma independente.
Os dois maiores sindicatos da Espanha, CCOO e UGT, estimam que haja cerca de 35 mil bombeiros florestais em todo o país, a maioria dos quais trabalha com contratos temporários de seis meses. O efetivo sobe para aproximadamente 40 mil durante o pico da temporada de incêndios no verão, quando equipes auxiliares são contratadas.
Jorge Nieto, representante da CCOO e coordenador dos agentes florestais e ambientais na região de Castela e Leão, ao norte de Madri, afirma que essa estrutura não é sustentável.
“Os bombeiros florestais desta região são os mais mal remunerados da Espanha. São pessoas que arriscam a vida por pouco mais do que o salário mínimo. A maioria ganha no máximo 1.400 euros por mês”, disse ele.
“O que é necessário é uma força de trabalho profissional com condições de trabalho dignas.”
Em Madri, cerca de 60 bombeiros do setor público estão em greve há mais de 1.170 dias, buscando o reconhecimento oficial de seu status e direitos como bombeiros de incêndios florestais.
Depois que as autoridades nacionais assumiram o comando das operações de combate a incêndios, eles foram formalmente mobilizados ao lado de outras equipes para enfrentar a onda de incêndios.
Bombeiros espanhóis e representantes sindicais argumentam que os trabalhadores deveriam ser empregados durante todo o ano, realizando trabalhos de gerenciamento florestal e prevenção durante o inverno, incluindo a limpeza da vegetação e a manutenção de faixas de proteção ao redor de cidades e fazendas em áreas rurais pouco povoadas, o que poderia ajudar a reduzir a escala e a intensidade dos incêndios florestais cada vez mais destrutivos.
“O trabalho de limpeza da vegetação e prevenção que poderia ser atribuído aos bombeiros florestais durante períodos de menor risco de incêndio simplesmente não está sendo realizado”, disse Carlos Cuenca, bombeiro em Madri e membro de uma unidade nacional especializada em emergências.
A ministra do Meio Ambiente da Espanha, Sara Aagesen, afirmou que mais recursos estão sendo disponibilizados.
“Entre 2024 e 2026, o governo aumentou o financiamento para incêndios florestais em 30% para a prevenção e em 34% para as operações de combate”, disse ela.
“Também reforçamos nossas brigadas especializadas em incêndios florestais, aumentando seu orçamento em 47% e melhorando suas condições de trabalho. Continuaremos nesse caminho.”
(Reportagem adicional de David Latona, Emma Pinedo, Michael Gore, Violeta Santos Moura e Antoine Demaison)



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