Por Fernando Kallas
EAST RUTHERFORD, Nova Jersey, 5 de julho (Reuters) - O Brasil passou três anos atrás de Carlo Ancelotti, como se o italiano tivesse a chave de ouro para destravar o seu sexto título da Copa do Mundo. Neste domingo, após uma derrota por 2 x 1 para a Noruega no calor de Nova Jersey, os pentacampeões mundiais descobriram que nem mesmo um dos grandes técnicos do futebol de clubes consegue fazer milagres com uma equipe construída em cima de esperança, nostalgia e pernas cansadas.
O declínio da Itália há muito tempo serve de alerta de que, se um país não cuidar do seu futebol, pode ficar para trás a uma velocidade alarmante. O Brasil agora tem seu próprio e incômodo caso de estudo.
A longa busca por Ancelotti enquanto ele estava no Real Madrid deixou a seleção à deriva sob o comando de três técnicos diferentes e, quando ele chegou, já não havia como escapar facilmente da areia movediça. Um ano nunca seria tempo suficiente para reparar três anos de negligência.
Ancelotti pode estar entre os treinadores mais condecorados que o futebol já conheceu, mas esta Copa do Mundo mostrou que ele é apenas humano.
Várias de suas principais decisões acabaram se voltando contra ele, e nenhuma de forma mais dolorosa do que a de confiar em jogadores envelhecidos que pareciam longe dos seus melhores momentos.
Casemiro, Danilo e Neymar eram nomes de peso e com muita rodagem. Contra a Noruega, isso ficou evidente.
Os dois gols da Noruega surgiram pela lateral esquerda, onde Andreas Schjelderup atacou saindo do banco de reservas com o tipo de energia que tanto faltava ao Brasil. Danilo, de 34 anos, foi escalado como lateral-direito, uma posição que não exercia regularmente há anos, tendo sido utilizado mais recentemente como zagueiro reserva no Flamengo.
Acabou sendo um encaixe brutal. Schjelderup avançou contra ele com determinação. Danilo parecia perdido.
PERNAS PESADAS
Casemiro também disputou o torneio com pernas pesadas. Teve dificuldades com a velocidade dos adversários, errou passes e, neste domingo, sob o calor sufocante de Nova Jersey, parecia um caminhão enferrujado subindo uma estrada estreita com dificuldade.
Então entrou Neymar, chamado no final da partida, quando o placar estava empatado em zero a zero e o Brasil precisava de inspiração. Ele marcou de pênalti nos acréscimos, mas foi mais um consolo do que uma salvação.
O problema foi o que aconteceu antes. Neymar, que chegou ao torneio lesionado, ofereceu pouco arranque, poucas surpresas e pouco daquela explosão de velocidade devastadora que já o tornou um dos atacantes mais temidos do futebol.
Lento, previsível e com movimentos lânguidos, ele passou uma imagem triste em comparação com o jogador brilhante que costumava ser.
Se o plano era realmente preparar uma nova geração para a Copa do Mundo de 2030, as escolhas do Brasil parecem ainda mais difíceis de explicar.
Com um ciclo completo começando mais cedo do que o esperado e pouca pressão sobre essa seleção para conquistar o mundo imediatamente, Ancelotti poderia ter deixado a velha guarda em casa e dado aos jogadores mais jovens uma experiência dura, mas valiosa.
Em vez disso, o Brasil tentou conciliar o passado e o futuro e acabou ficando preso entre os dois.
O resultado é uma espera de pelo menos 28 anos pelo sexto título da Copa do Mundo, um jejum inimaginável para um país que construiu sua identidade futebolística com base na criatividade, na ousadia e na superioridade.
Durante grande parte do torneio, o Brasil esteve quase irreconhecível. Apenas Vinicius Jr. ofereceu lampejos do brilho de antigamente, um lembrete de que o talento não desapareceu totalmente.
Mas, em torno dele, o Brasil parecia carecer de clareza e velocidade e, o que é mais grave, de si mesmo.
(Reportagem de Fernando Kallas)



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