Por Olivia Le Poidevin
GENEBRA, 29 Set (Reuters) - Uma crise de financiamento cada vez mais grave pode deixar quase 8,3 milhões de refugiados e pessoas deslocadas à força sem acesso à assistência este ano e levar os sistemas de proteção em alguns países à beira do colapso, alertou nesta terça-feira a agência das Nações Unidas para os refugiados.
O Acnur enfrenta uma das piores crises de financiamento de sua história, após cortes na ajuda por parte dos Estados Unidos e de outros países. A agência enfrenta um déficit de US$5,789 bilhões, de acordo com um novo relatório da agência, depois que os recursos disponíveis caíram 24% entre 2024 e 2025.
Até julho, o Acnur havia recebido apenas 32% dos US$8,505 bilhões de que precisava em 2026, enquanto o número de pessoas deslocadas à força e apátridas em todo o mundo permanece próximo a níveis recordes.
O Acnur prevê que a população sob seu mandato chegue a 131,2 milhões até o final do ano, ante 129,4 milhões no final do ano passado.
“Abaixo de um certo limite, o sistema não se reduz, ele entra em colapso”, afirmou a agência no relatório de 26 páginas que descreve o impacto dos cortes orçamentários no registro de refugiados, nos programas de proteção à criança e nos serviços para sobreviventes de violência de gênero.
O relatório destacou consequências graves em países que acolhem grandes populações deslocadas. No Chade, para onde refugiados fugiram do conflito no vizinho Sudão, 319 mil pessoas enfrentam atrasos no registro, enquanto 200 mil mulheres e meninas podem perder o acesso a espaços seguros e programas de prevenção.
No Sudão — que a ONU considera a pior crise de deslocamento do mundo devido à guerra civil que entrou em seu quarto ano em abril — cerca de 140 mil refugiados e requerentes de asilo continuavam sem registro até meados do ano, após a suspensão das atividades de registro nos primeiros cinco meses de 2026.
No Afeganistão, os subsídios do Acnur concedidos às pessoas que retornam ao país foram reduzidos de US$375 para US$170 por pessoa, enquanto o país recebeu mais de um milhão de pessoas somente neste ano, devido a retornos forçados ou voluntários de países vizinhos, incluindo o Irã e o Paquistão.
O Acnur afirmou que novas medidas de redução de custos não poderiam compensar o déficit de financiamento, após já ter reduzido sua força de trabalho em 33% em 2025, fechado escritórios em 140 locais e descontinuado operações em 15 países em comparação com 2024.
A agência também afirmou que uma parcela crescente dos recursos dos doadores é estritamente destinada a fins específicos, passando de 19% há cinco anos para 51% em 2026, o que limita sua capacidade de redirecionar recursos para as prioridades mais urgentes.
O Acnur alertou que a redução do financiamento está gradualmente prejudicando o sistema de proteção, aumentando o risco de que refugiados permaneçam sem documentação e de que sobreviventes de violência de gênero fiquem sem o apoio de que precisam.
(Reportagem de Olivia Le Poidevin)
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