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Espaço Crítico

Privilégio da singularidade

Espaço Crítico
Por Flávio Lauria
09/07/2026 15h31 — em Espaço Crítico

Caros leitores, sou um privilegiado, completo nessa sexta, dia dez de julho, mais um ano de existência, e aproveito esse espaço para enaltecer a singularidade de pertencer a uma geração que pode visualizar, talvez, pela primeira vez, na história da humanidade, uma ampla paisagem cronológica, em três momentos distintos, mas complementares.

Enxerga, com instigante nitidez o tempo passado, os princípios de tudo e o desenrolar da História, desde a incompreensível criação cósmica do big-bang. Assiste, em tempo real, quase sem subterfúgios, os causos e eventos do presente, tristes, ou alegres, perto ou distantes.

É capaz de prospectar o futuro, para construir cenários e avaliar - não sem temor e nostalgia - que haverá, aqui, um fim, mas outros começos e outras Terras. Assim, septuagenários diferentemente dos raros longevos, de outras existências - enganados pelos conhecimentos limitados, preconceituosos e obscurantistas, de suas épocas - tem uma visão clara e consciente do seu momento: concatenada, fundamentada e dinâmica.

De igual forma, mesmo no ambiente temporal mais curto da genealogia de sua estirpe, o septuagenário, espiando para trás, identifica, com alguma intimidade, seus ancestrais, desde bisavós, ou tetravós, enquanto, voltando-se para a frente, encontra a descendência de netos. Acumula, de relance, uma memória familiar de quatro a cinco gerações.

Esse rico e buliçoso ambiente de tantas dimensões do tempo, captado e compreendido, criticamente, pelos longevos, vem moldando os novos velhos, homens e mulheres. Isso é novo e se soma a tantas outras revoluções segmentadas, eu mexem com a cabeça de todo mundo... O simbolismo do idoso, ou de melhor idade, na figura estilizada do simpático ancião alquebrado, apoiado na bengala, além do desenho preconceituoso, está na contramão de uma moderna visão da velhice.

Não minimizo a velhice. É a benfazeja condição do laborioso processo de viver e constitui uma atividade de alto risco..., Mas, por ignorância, má fé ou fatalismo, são equivocados os conceitos que associam a velhice, apressadamente, à doença, à decrepitude, à alienação, ao isolamento e pior: às disfunções. No Brasil, o Estatuto do Idoso, ressalvada sua boa intenção e meia dúzia de mandamentos oportunos e apropriados, é, no todo, um preconceituoso e hipócrita manual classificatório, que separa, utopicamente, o idoso (acima de 60 anos) do resto dos indivíduos tidos como normais.

Num mundo, cuja população freia o seu crescimento, tende à maior longevidade, melhor se educa e interage com a velocidade da www, e da IA, impõe-se interpretar e tratar, com prontidão e competência, as profundas mudanças consequentes desse inusitado processo.

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Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.

Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

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