Morreu neste sábado, 30, aos 92 anos, a médica e pesquisadora Angelita Habr-Gama, referência mundial em coloproctologia. Ela estava internada desde 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz. A causa da morte não foi divulgada.
Em uma especialidade dominada por homens, Angelita foi uma das primeiras mulheres a fazer residência na área de cirurgia na Faculdade de Medicina da USP e primeira mulher a ser aceita na pós-graduação do St. Marks Hospital, na Inglaterra.
"Reconhecida como uma das mais brilhantes cirurgiãs do País, Angelita Gama teve uma vida marcada por grandes feitos, entre eles o de ter sido a primeira mulher como professora titular de uma especialidade cirúrgica da Faculdade Medicina da Universidade de São Paulo (Coloproctologia). Anos depois, foi a primeira mulher a entrar para a centenária sociedade cirúrgica American Surgical Association como membro honorário", citou o Hospital Alemão Oswaldo Cruz em nota divulgada neste domingo, 31. A médica fazia parte do corpo clínico da instituição desde a década de 1980.
"Seu imenso legado é largamente reconhecido pelos cirurgiões colorretais, cirurgiões gerais e do aparelho digestivo que atuam no Brasil e em todo o mundo", reforçou também a Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), em nota.
Recentemente, o nome de Angelita foi incluído na lista dos 2% de cientistas mais influentes do mundo, em ranking elaborado pela Universidade de Stanford. "Este reconhecimento reforça não apenas a autoridade científica da médica brasileira, mas também o impacto de suas pesquisas e publicações na área de coloproctologia mundial", afirma a nota.
Entre essas pesquisas, chama particular atenção o seu trabalho no tratamento do câncer colorretal - um verdadeiro marco nessa área. O feito foi reconhecido pela renomada Sociedade de Cirurgia de Boston, dos Estados Unidos, que concedeu à médica, em 2023, a medalha Bigelow, oferecida a cirurgiões com destacada contribuição para o progresso científico e ensino da cirurgia. Angelita foi a primeira mulher no mundo a receber tal honraria.
O pioneirismo de Angelita
Na década de 1990, um time liderado pela médica criou um protocolo que transformou o tratamento do câncer de reto. Ele prevê que, em vez de operar todos os pacientes com esse tipo de tumor, se utilize quimioterapia e radioterapia. Após as intervenções, o paciente é examinado para verificar se a lesão permanece. Se sim, ele é operado. Se não, ele segue sendo acompanhado. A estratégia marcou a medicina mundial.
"Naquela época, o paciente passava pela quimioterapia e radioterapia e, mesmo assim, independentemente do resultado, fazia a cirurgia. O que começamos a observar foi que, em alguns casos, quando tirávamos parte do colo na cirurgia e mandávamos para a biopsia, não havia sinal de tumor, ou seja, ele já havia sido eliminado pela radio e quimioterapia. Ou seja, muitos pacientes tinham passado pela cirurgia e pela colostomia sem necessidade", explicou Angelita ao Estadão, em 2014.
Foi então que a médica passou a comparar em pesquisa os resultados dos dois tipos de tratamento: com e sem cirurgia. Inicialmente, o trabalho não foi bem recebido pela comunidade científica internacional. "Fui em congresso americano apresentar esse trabalho e fui bombardeada. Me disseram que não era ético não operar o paciente. Hoje, é aceito mundialmente que câncer de reto, quando o tumor desaparece, não deve ser operado", contou a médica.
Vale lembrar que o reto é a porção final do intestino grosso e os pacientes que desenvolvem tumores nessa região tinham que, obrigatoriamente, tirar parte do órgão. Em boa parte dos casos, a cirurgia tinha como consequência a colostomia, técnica que exterioriza o intestino para que as fezes passem a ser eliminadas por meio de uma bolsa acoplada ao corpo do paciente.
Portanto, a abordagem inédita criada por Angelita garantia o mesmo resultado aos pacientes que tivessem resposta satisfatória à químio e rádio, mas com grande impacto positivo na qualidade de vida do indivíduo.
Protocolo inspirou pesquisas internacionais
A técnica proposta por Angelita, que inicialmente foi vista com desconfiança, passou a ser estudada em todo o mundo - e chegou a motivar até a realização de congressos médicos.
Em setembro de 2025, em entrevista ao Estadão, o médico Julio Garcia-Aguilar, chefe de cirurgia colorretal de um dos mais renomados hospitais oncológicos do mundo, o Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, contou que ele e seu grupo estudam de forma sistemática a estratégia, que ficou conhecida como Watch and Wait (ou vigiar e esperar). "A doutora (Angelita) Habr-Gama (cirurgiã brasileira) foi uma pioneira nessa área", descreveu.
Em entrevista ao Estadão em 2023, após receber a medalha Bigelow, Angelita reforçou que seu foco sempre foi o tratamento do câncer de reto. Ela contou que, junto a outros médicos da América Latina, estava desenvolvendo protocolos com mudanças nas doses de quimioterapia e uso de novas drogas para tentar aumentar o número de pacientes com resposta completa à químio e radioterapia. A médica explicou que, atualmente, essa resposta já chega a 60%.
"Eu gostaria que, num futuro próximo, antes de eu morrer, a gente chegasse a um tratamento com radioquimioterapia que tivéssemos 100% dos pacientes com resposta completa, ou seja, com desaparecimento do tumor sem necessidade de cirurgia", relatou.



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