A Operação Janus, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo nesta terça-feira, 21, reuniu indícios de que operadores financeiros do Primeiro Comando da Capital (PCC) mantinham relações de proximidade e amizade com os coronéis da Polícia Militar Luiz Carlos Pereira Martins, José Augusto Coutinho - ex-comandante-geral da PM e da Rota - além de "Patrício", identificado em planilhas da facção como "cliente".
O Estadão pediu manifestação dos coronéis através da assessoria de imprensa da Polícia Militar do Estado de São Paulo. A reportagem também busca contato direto com os citados. O espaço está aberto. Os integrantes da antiga cúpula da corporação, citados na investigação, não são alvo da operação desta terça.
Os indícios de proximidade com a ex-cúpula da PM aparece em diálogos coletados pelos investigadores entre os operadores do núcleo financeiro do PCC. Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), troca de mensagens apontam que Cléber Azevedo dos Santos, Paulo Rogério Silva, o "Paulo Barão", e Leonardo Meirelles, com apoio de Robson Martins de Souza e outros operadores, prestavam serviços de lavagem de dinheiro em benefício de integrantes e líderes do PCC, entre eles Leonardo Monteiro Moja, o "Léo do Moinho", capturado em agosto de 2024 durante a Operação Salus et Dignitas.
Em uma das conversas analisadas, Cléber Azevedo dos Santos solicitou a Amjad Ahmad informações sobre o saldo financeiro do esquema e afirmou precisar dos recursos para "pagar a polícia".
Os investigadores identificaram, a partir da análise dos materiais apreendidos na Operação Recidere, referências a contatos mantidos por Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza com os coronéis Pereira Martins, José Augusto Coutinho e "Patrício".
'Aniversário general'
O Gaeco identificou ao longo das apurações que Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza mantinham "relação de amizade" com o coronel Pereira Martins, vínculo que teria permanecido mesmo após Cléber se tornar alvo de operações policiais de grande repercussão, como a Operação Fractal, deflagrada no fim de 2022.
Entre os elementos apontados está a participação de ambos em um grupo de WhatsApp chamado "Aniversário general", ativo até pelo menos 21 de novembro de 2023, no qual eram compartilhadas mensagens de caráter pessoal e social, incluindo referências a eventos e celebrações.
Para os investigadores, o conteúdo indicaria uma relação de proximidade que ultrapassaria contatos ocasionais. A apuração também registrou que Pereira Martins teria se disposto a auxiliar os investigados e intermediar contatos com autoridades.
Os investigadores identificaram ainda uma anotação referente a um pagamento em dinheiro de R$ 1 mil ao coronel "Patrício". De acordo com a apuração, os valores seriam provenientes da chamada "ticketagem", prática identificada durante a Operação Bazaar.
A expressão "ticketagem" refere-se a um esquema de pagamento de propina em espécie usado pelo PCC e descoberto na Operação Bazaar. Na prática, os pagamentos eram registrados em planilhas e disfarçados como compra de vales-refeição ou favores dos policiais.
A Operação Janus
A ofensiva do Gaeco nesta terça-feira mira suspeitos de movimentar recursos do PCC por meio de entregas volumosas de dinheiro em espécie, transferências bancárias e uso de empresas e contas "laranjas".
A investigação também aponta que parte dos alvos participava de reuniões para resolver disputas patrimoniais entre integrantes da facção, conhecidas como "tribunais do crime".
Além das prisões e buscas, a Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores determinou o bloqueio de contas, aplicações financeiras, imóveis, veículos e outros bens dos investigados. Também foram bloqueados ativos financeiros de até R$ 10 milhões por alvo e impostas restrições patrimoniais a empresas apontadas como parte da estrutura financeira do PCC.



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