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Mito ou Realidade? Por que Tiradentes é representado com a imagem de Jesus

Mito ou Realidade? Por que Tiradentes é representado com a imagem de Jesus
Quadro popularmente conhecido como 'Tiradentes Esquartejado', de Pedro Américo - Foto: Reprodução/TV Integração

Nesta terça-feira, 21 de abril, o Brasil celebra o feriado que recorda a morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O alferes, que foi a face mais visível da Inconfidência Mineira, tornou-se o principal símbolo da luta contra a opressão da Coroa Portuguesa. Contudo, há uma disparidade histórica entre o homem real e a imagem que estampa os livros didáticos: enquanto registros apontam que ele foi executado careca e sem barba, a iconografia popular o consagrou com traços que remetem diretamente à figura de Jesus Cristo.

Essa semelhança visual não foi um erro histórico acidental, mas uma estratégia política deliberada após a Proclamação da República, em 1889. Sem retratos reais de Tiradentes feitos em vida, o regime republicano precisava de um mártir que gerasse identificação imediata com o povo majoritariamente católico. O historiador André Figueiredo Rodrigues explica que artistas como Angelo Agostini buscaram inspiração em obras religiosas para conferir ao inconfidente um ar de santidade e sacrifício, transformando o "traidor" da Coroa em um herói nacional respeitado.

Para além da imagem mística, os registros históricos descrevem um homem comum e multifacetado. Tiradentes atuou como minerador, militar e dentista — ocupação que lhe rendeu o famoso apelido. Longe de ser um personagem passivo, ele era conhecido por ser comunicativo, entusiasta do conhecimento e defensor fervoroso da instalação de uma República em solo brasileiro. Durante os três anos em que esteve preso, o alferes assumiu toda a responsabilidade pelo movimento revolucionário, protegendo seus companheiros de conspiração até o momento do enforcamento no Rio de Janeiro.

A trajetória de Tiradentes como símbolo oficial foi consolidada apenas décadas após seu esquartejamento. Em 1890, logo após a mudança de regime no país, o dia de sua morte foi instituído como feriado nacional para limpar a mancha de "criminoso" imposta pela monarquia. Mais tarde, em 1965, durante o governo militar de Castello Branco, ele foi oficialmente proclamado Patrono Cívico da Nação Brasileira, elevando sua figura ao status de exemplo máximo de patriotismo e dedicação à liberdade.

Atualmente, o feriado serve como um momento de reflexão sobre como a história é construída e moldada por interesses políticos. O paralelo entre a forca e a cruz de Cristo, reforçado por poetas como Castro Alves, cumpriu seu papel de imortalizar o inconfidente. Hoje, a memória de Tiradentes permanece viva não apenas como o homem que buscou status na colônia, mas como o símbolo de um ideal de independência que, embora ele não tenha vivido para ver, fundamentou as bases da nação brasileira.

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