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Andrade Gutierrez encarava propina como 'custo comercial' das obras

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SÃO PAULO — O ex-presidente da holding Andrade Gutierrez Otávio Marques de Azevedo afirmou em depoimento ao juiz Sérgio Moro nesta quinta-feira que a propina era encarada dentro da empresa como "custo comercial" e era incluída no orçamento de cada uma das obras, como a remuneração variável dos executivos ou outros custos administrativos. Moro se surpreendeu e perguntou: "É tão natural assim?"

- O pessoal da construtora vê como um custo comercial qualquer. Vê como impacta o resultado e se impacta o bônus executivo - disse Azevedo, que fechou acordo de delação premiada na Lava-Jato e deu detalhes de como a construtora fechou acordo com o PT para destinar ao diretório nacional do partido 1% do valor de todas as obras comandadas por órgãos federais.

Azevedo explicou que a propina se transformava "numa tragédia", quando era pedida já com o trabalho em andamento, depois da formação de custo, já que teria de sair do custo da obra.

- Se vão colocar um custo de propina, vai sair da parte deles - explicou ao juiz.

O acordo com o PT vigorou de 2008 a 2014, e as obras feitas neste período pela construtora somaram cerca de R$ 2 bilhões. Segundo Azevedo, nem todo o valor destinado a campanhas do PT foram provenientes de propina. Também não foi recolhido o percentual de 1% de todos os projetos, pois alguns foram considerados deficitários, e a construtora não pagou.

Ele calcula que a "verba vinculada", como se referia aos pagamentos para o partido, somem R$ 40 milhões, incluindo cerca de R$ 30 milhões da Petrobras e R$ 10 milhões da usina hidrelétrica de Belo Monte. No total, a empresa contribuiu com o PT cerca de R$ 90 milhões no período.

Azevedo diz que 99% da propina foi paga para o partido, não para as campanhas eleitorais, que recebiam dinheiro de doação normal, como ocorria com os outros partidos. Ele explicou que, em 2014, o PT recebeu muito pouco do que ele chama de dinheiro "vinculado", apenas "pagamentos residuais", e, por isso, foi fortemente cobrado por Edinho Silva, o tesoureiro da campanha de reeleição de Dilma Rousseff, e Giles Azevedo, que foi secretário executivo do Gabinete Pessoal da presidente.

O executivo afirmou que os petistas chegaram a manifestar a intenção de receber doações de R$ 500 milhões a R$ 600 milhões das grandes empresas, o que não condizia com a realidade. A Andrade Gutierrez, afirmou, tinha um limite de R$ 104 milhões a ser repartido entre candidatos e campanhas de todos os partidos, federal e para governos estaduais.

 

Azevedo afirmou ao juiz Sérgio Moro que Edinho Silva e Giles Azevedo sabiam que o PT recebia dinheiro "vinculado" às obras feitas para o governo federal.

Contou que quando os candidatos a presidente Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), falecido durante a campanha eleitoral, começaram a subir nas esquisas de intenção de voto ele segurou o dinheiro de doação. Um dos executivos da empresa, Flávio Machado, segundo ele, foi cobrado diretamente por Giles.

- Ele (Flávio Machado) ligou preocupado dizendo que o Giles havia ligado dizendo que ia pegar mal, "não pode fazer isso com a Dilma", "que a Dilma era muito nossa amiga" - contou.

O executivo afirmou que ligou direto para Edinho Silva e marcou um encontro com ele e João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, num escritório em São Paulo, para mostrar as doações feitas diretamente ao PT.

- Tínhamos feito R$ 15 milhões de doações para o PT. Tinha a parte vinculada que, se não fosse obrigado, eu não tinha feito, tinha feito para a Dilma.

Perguntado se ficou claro que dinheiro vinculado era o dinheiro de propina, Azevedo afirmou que sim, não apenas nesta reunião, mas também num segundo encontro do qual participou Giles.

- Falei a mesma coisa sobre as doações vinculadas. Falei de Belo Monte com clareza e outros projetos federais que temos obrigação de contribuir.

Azevedo diz ter feito mais doações ao PT e, em novembro, com Dilma já reeleita, foi novamente contatado por Edinho Silva e, desta feita, recusou-se a dar mais dinheiro.

 

A Andrade Gutierrez era vista no PT, segundo ele, como má pagadora de compromissos, o que gerava muita reação de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT.

- A obra que ele falava comigo mais diretamente, foi a obra que ele falou comigo, foi Belo Monte. Primeiro porque era muito dinheiro e segundo porque estava fora do acordo do Berzoini, porque Belo Monte era uma empresa privada. Foi feito um entendimento fora, à parte, sobre Belo Monte e o Vaccari era o cobrador também e ele vinha cobrando Belo Monte - disse o executivo

Da usina de Belo Monte, o percentual de 1% de propina, segundo ele, foi dividido entre PT e PMDB.

Azevedo disse ao juiz que se considera inocente da acusação dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro associadas ao pagamento de propina em contratos da Petrobras e da usina de Angra 3. Ele admitiu participação apenas em pagamentos de vantagens na obra da usina de Belo Monte:

- Corrupção de agentes públicos, lavagem de dinheiro e outros crimes que eu tô sendo acusado na Petrobras, eu não os fiz. Assim como em Angra, também não participei. Não tenho constrangimento de pagar por aqueles (crimes) que eu fiz. Até porque pela minha colaboração continuo disposto a ajudar e colaborar para o esclarecimento de tudo - disse o executivo.

Ao ser perguntado sobre quem fazia o controle do pagamento ao PT, disse que não havia uma sistemática de organização.

- Nunca foi organizado, nem da parte do Vaccari - afirmou o executivo, que alegou não ter tomado conhecimento de pagamentos a diretores da Petrobras.

Azevedo confirmou ter pagado R$ 6 milhões por serviços não prestados à agência Pepper, que atuou na campanha de Dilma Rousseff (PT) em 2010.

- Não houve prestação de serviço. E eu acho que não teve relação com os pagamentos da Petrobras - afirmou.

 

O ex-executivo da Andrade Gutierrez, Paulo Roberto Dalmazzo também prestou depoimento nesta quinta. Ele disse não ter tido conhecimento de contribuições políticas feitas pela empresa nem da cobrança de 1% sobre contratos.

- Nunca tratei com partido político (..). Eu sabia que era pago 1% à (área de) Engenharia e 1% para (a área) de Abastecimento. Era isso que eu sabia de informação, que me foi passada pela companhia, no caso Elton Negrão e depois Antonio Pedro (executivos da Andrade) - disse o executivo, associando o pagamento à gerência de Engenharia ao PT e, do Abastecimento, para o PP e o PMDB.

O executivo disse acreditar que "o que tenho a pagar à sociedade é o preço da conivência".

- Eu nunca tive nenhum acerto de propina anterior e, sim, peguei o passado, como o responsável pela área que peguei naquele momento - afirmou o executivo, referindo-se à entrada na Andrade Gutierrez em 2012, alguns anos depois do acerto da empresa com o PT de pagar 1% de propina por obras obtidas sob influência do governo federal.

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