Colisão de dois trens de alta velocidade deixa ao menos 40 mortos na Espanha
Por Nina Lopez e Michael Francis Gore
ADAMUZ, Espanha, 19 Jan (Reuters) - Pelo menos 40 pessoas morreram no sul da Espanha depois que um trem de alta velocidade descarrilou e colidiu com um trem que vinha em sentido contrário na noite de domingo, em um dos piores acidentes ferroviários na Europa nos últimos 80 anos.
Doze pessoas estavam em tratamento intensivo após o acidente próximo a Adamuz, na província de Córdoba, cerca de 360 km ao sul de Madri, de acordo com os serviços de emergência. Especialistas dizem que uma junta defeituosa pode ser a chave para determinar a causa do acidente.
"O trem tombou para um lado... então tudo ficou escuro, e só ouvi gritos", disse Ana Garcia Aranda, 26 anos, que estava sendo tratada em um centro da Cruz Vermelha em Adamuz.
Mancando e enrolada em um cobertor, com o rosto coberto de curativos, ela descreveu como foi arrastada para fora do trem, coberta de sangue, por outros passageiros. Os bombeiros resgataram sua irmã grávida dos destroços e uma ambulância as levou para o hospital.
"Havia pessoas que estavam bem e outras que estavam muito, muito feridas... você sabia que elas iam morrer, mas não podia fazer nada", disse ela.
Um total de 43 relatos de pessoas desaparecidas foi registrado até agora nas delegacias de polícia de Huelva, Madri, Málaga, Córdoba e Sevilha, segundo as autoridades.
LOCALIZAÇÃO REMOTA COMPLICA O RESGATE
A operação de resgate foi complicada devido à localização remota do acidente, em uma região montanhosa e de cultivo de oliveiras. O acesso ao local só era possível por uma estrada de pista simples, o que dificultava a entrada e saída de ambulâncias, disse Iñigo Vila, diretor nacional de emergências da Cruz Vermelha Espanhola, à Reuters.
O presidente da região da Andaluzia, Juan Manuel Moreno, disse que pelo menos 40 pessoas morreram, e as equipes de emergência enfrentavam dificuldades para trazer o equipamento pesado necessário para levantar os destroços e alcançar as pessoas que ainda estavam sob eles.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que cancelou sua viagem ao Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, e o ministro dos Transportes, Óscar Puente, estavam entre os que se dirigiram ao local do acidente nesta segunda-feira.
Imagens de drones da polícia mostraram como os trens, que transportavam 527 pessoas, pararam a 500 metros de distância. O vagão de um trem foi dividido em dois, e a locomotiva foi esmagada como uma lata.
Especialistas que estudaram o local do acidente encontraram uma junta quebrada nos trilhos, o que criou uma lacuna entre as seções dos trilhos que aumentava à medida que os trens continuavam a trafegar nos trilhos, de acordo com uma fonte informada sobre as investigações iniciais.
Essa junta defeituosa pode ser importante para identificar a causa do acidente, disse a fonte.
"INTERAÇÃO ENTRE O TRILHO E O VEÍCULO"
Ignacio Barrón, chefe da Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários (Ciaf) da Espanha, disse à RTVE: "O que sempre desempenha um papel em um descarrilamento é a interação entre o trilho e o veículo, e é isso que a comissão está atualmente (investigando)".
Paqui, uma moradora de Adamuz que correu para ajudar a resgatar sobreviventes com seu marido, disse que "encontrou uma criança morta lá dentro, outra criança chamando por sua mãe. Você nunca está pronto para ver algo assim".
A polícia disse que abriu um escritório em Córdoba para que os parentes forneçam amostras de DNA para ajudar a identificar os mortos.
O trem Iryo estava viajando a 110 km/h de Málaga para Madri quando descarrilou, disse o presidente da Renfe, Álvaro Fernández Heredia, na estação de rádio Cadena Ser.
Vinte segundos depois, o segundo trem, que se dirigia a Huelva a 200 km/h, colidiu com os dois últimos vagões do trem Iryo ou com detritos na linha, disse ele. O trem Iryo perdeu uma roda que ainda não foi localizada.
ACIDENTE OCORREU EM "CONDIÇÕES ESTRANHAS
Ainda é muito cedo para falar sobre a causa, mas o acidente ocorreu em "condições estranhas", disse o presidente da Renfe, Álvaro Fernández Heredia, acrescentando que erro humano foi praticamente descartado.
O número de mortos foi um dos 20 mais altos de um acidente de trem na Europa em 80 anos, de acordo com dados do Eurostat, e o maior de um acidente de trem na Espanha desde 2013, quando um trem descarrilou na cidade de Santiago de Compostela, no noroeste do país, matando 80 pessoas.
Os maquinistas espanhóis alertaram a administradora estatal de infraestrutura ferroviária Adif sobre o "desgaste severo" na linha Madri-Andaluzia e em outras, de acordo com uma carta vista pela Reuters enviada à Adif pelo sindicato de maquinistas Semaf em agosto e pedindo restrições de velocidade mais rígidas.
A Adif não fez comentários imediatos.
O trem da Iryo, um Frecciarossa 1000, tinha menos de quatro anos e a linha férrea perto de Adamuz foi reformada em maio passado, disse Puente. A Iryo disse que o trem foi inspecionado pela última vez em 15 de janeiro.
A rede ferroviária de alta velocidade da Espanha é a maior da Europa e a segunda maior do mundo, depois da China, com 3.622 km de trilhos, de acordo com a Adif.
(Reportagem de Nina Lopez, Michael Gore, Leonardo Benassatto, Susana Vera, Emma Pinedo e Victoria Waldersee; reportagem adicional de Pietro Lombardi e Jesus Aguado)
ASSUNTOS: Geral