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Xavier Dolan encabeça Mix Brasil, que chega à 27ª edição com tom político pulsante

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em uma casa no campo, cercado por amigos que inspiraram seus personagens e que, em alguns casos, acabaram por dar vida a eles no cinema, Xavier Dolan teve a ideia central por trás de "Matthias e Maxime". É um retorno à simplicidade intimista que pautou os primórdios de sua filmografia.

Despido do estrelismo de seus dois últimos trabalhos, "The Death and Life of John F. Donovan", do ano passado, e "É Apenas o Fim do Mundo", de 2016, o drama integra o Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, que chega à sua 27ª edição a partir desta quarta-feira (13), em sessão para convidados. No dia seguinte, estará aberto ao público.

Ao todo, o evento projeta 110 filmes de 26 países, até 20 de novembro, em diversos endereços de São Paulo, de graça.

Exibido em duas --provavelmente disputadas-- sessões do Mix, nos dias 14 e 18 de novembro, "Matthias e Maxime" estreou em Cannes e traz o próprio cineasta canadense protagonizando, mais uma vez, um de seus longas. Neste, sentimentos que vão além da amizade abalam o duo que dá nome à trama depois que eles se beijam nas gravações do curta-metragem de uma amiga.

"Esses personagens ainda são jovens, mas não estão chegando à maioridade. Eles têm 30 anos, emprego, namorada, uma vida ordenada. Eles são adultos que estão fazendo perguntas a si mesmos, perguntas que algumas pessoas diriam que é muito tarde para serem feitas", afirma Dolan.

A idade é a mesma do cineasta, gay assumido que vem desde os 20 anos acumulando importantes prêmios por sua filmografia, que inclui longas como "Tom na Fazenda", de 2013, e "Eu Matei Minha Mãe", de 2009, em festivais como Cannes, Toronto e Veneza.

Mas "Matthias e Maxime" tem o dever não de manter o brilho da reputação de seu diretor, mas de reparar a mancha deixada em seu currículo por "The Death and Life of John F. Donovan", seu primeiro trabalho falado em inglês.

A inexistência de um título em português para a trama já denuncia sua baixa repercussão no circuito internacional, mesmo com o elenco de peso, com Kit Harington, Natalie Portman, Susan Sarandon, Michael Gambon e Kathy Bates.

Dolan, no entanto, tenta não voltar ao passado e prefere mirar o presente, mesmo que os filmes atuais dialoguem com seus antecessores. "Eu nunca decidi destacar a sexualidade nos meus filmes. O que eu destaco é a identidade", diz o cineasta sobre a onipresença de personagens LGBTs em sua filmografia. "Para mim, identidade é quem você é e como isso se encaixa na sociedade --e se a sociedade quer que você se encaixe nela ou não."

E é justamente o "desencaixe" da comunidade LGBT em muitas sociedades conservadoras que motiva o canadense a continuar abordando esse assunto. "É terrível pensar que algumas pessoas, em muitos países, não podem viver suas vidas como são, amando quem querem", lamenta. É na arte, acredita ele, que maneiras de se combater a homofobia e outros crimes de ódio florescem.

"Filmes, em tempos como este, são fonte de conforto para pessoas marginalizadas e, esperançosamente, uma fonte de educação para opressores. Mas demora anos e anos e anos para mudar mentalidades", diz, ao ser questionado sobre o papel de festivais como o Mix no Brasil, um dos países com uma das maiores taxas de mortalidade de LGBTs no planeta.

"A solução é fazer héteros se interessarem pela cultura queer. Héteros assistindo a seus próprios conteúdos e LGBTs assistindo a seus próprios conteúdos é algo divisivo. Eu gostaria que heterossexuais pudessem, um dia, ser tão interessados por histórias LGBTs quanto, normalmente por prescrição ou falta de opção, nós nos interessamos por histórias de heterossexuais."

"Matthias e Maxime" não deve ser o único longa a gerar filas nas salas de cinema que participam do Mix. Se juntam a ele o vencedor da Palma Queer e do prêmio de roteiro em Cannes, "Retrato de uma Jovem em Chamas", o escolhido para o Leão Queer em Veneza, "O Príncipe", e o recipiente do Teddy em Berlim, "Breve História do Planeta Verde".

Mesmo com a seleção parruda e premiada, não foi fácil garantir esses e outros títulos nesta edição do festival. Este ano, uma forcinha extra dos patrocinadores foi necessária.

Isso porque o Mix perdeu o patrocínio que recebia do governo paulista, que representava cerca de 40% de seu orçamento. Cortes foram feitos --de funcionários e na própria extensão do evento, que foi de 11 para oito dias-- e velhos parceiros liberaram verbas mais robustas.

"Foi difícil, mas por outro lado os outros apoios vieram mais entusiasticamente", afirma o diretor e idealizador do Mix, André Fischer. "A gente fez uma colcha de retalhos de apoios menores e houve uma mobilização maior da comunidade LGBT. E nesse cenário de desmonte da cultura, a gente ainda tem uma luz com a Prefeitura de São Paulo", diz sobre o amparo recebido de órgãos municipais.

O 27º Mix também já tinha garantido, no ano passado, verba por meio da Lei Rouanet. Mas as novas diretrizes no fomento à cultura preocupam. "A gente sabe que vai ser difícil no ano que vem."

O cenário de crise não atingiu só a estrutura do festival, como também o conteúdo de filmes, peças, experiências em realidade virtual, shows, games e debates do evento.

Boa parte das obras, neste ano, é pautada pelo tratamento dado à comunidade LGBT no Brasil de Bolsonaro, chacoalhado pela ascensão do conservadorismo. A seção literária, por exemplo, flerta com a censura a um quadrinho com cena de beijo gay na Bienal do Livro, em setembro, no Rio de Janeiro, pelo prefeito carioca Marcelo Crivella.

Enquanto isso, atrações teatrais ganharam mais destaque em relação a anos anteriores, frente à adoção de mecanismos de censura prévia em instituições federais, com restrições a eventos de tema LGBT.

"O teatro está muito forte, porque nesse momento a gente precisa garantir espaço para que ele aconteça, dar espaço às produções que ainda não chegaram às pessoas", diz Fischer.

Entre as peças apresentadas está "Sombra", do grupo Teatro da Pombagira, que percorre uma série de obras literárias censuradas pelo conteúdo queer. Durante a performance, o público recebe fones de ouvido que sussurram palavras "proibidas".

Carro-chefe do Mix, a seleção de filmes, claro, não foge do tom político pulsante, que se faz presente entre as produções nacionais. Segundo Fischer, os 149 curtas e 34 longas brasileiros inscritos na edição deste ano se aproximaram por abandonar a roupagem mais humorística ou sexy para se concentrar na luta política.

"Houve uma mudança gigantesca no tipo de filme nacional que chegou para a gente. Nós sempre tivemos um histórico de filmes com mais humor, mais sacaninhas, mas houve uma mudança radical nesse sentido. Mesmo o nu e o sexo das produções que recebemos aparecem em situações mais políticas, não pelo puro sexo", diz.

Entre os nacionais projetados está o proibido para menores "A Rosa Azul de Novalis", recebido com entusiasmo no último Festival de Berlim. A proposta do documentário de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro é debater o ânus num contexto social e político.

"A marca em 2019 é uma politização muito maior" diz Fischer. "É o que a gente já sentiu no ano passado, mas agora parece um outro país, se compararmos com as edições de alguns anos atrás."



MATTHIAS E MAXIME

Produção: Canadá, 2019

Direção: Xavier Dolan

Elenco: Xavier Dolan, Gabriel D'Almeida Freitas e Pier-Luc Funk

Classificação: 14 anos

Quando: no Mix Brasil, nesta quinta (14), às 21h30, e na segunda (18), às 17h

Onde: no Cinesesc (r. Augusta, 2.075), em São Paulo

Quanto: grátis

Programação completa: mixbrasil.org.br



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