'Não adianta colocar pretos na TV se a dramaturgia continua branca', diz Samuel de Assis
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Com mais de duas décadas de carreira, Samuel de Assis, 43, está no ar como João Rubens, um homem culto e elegante em "Três Graças". Ele vive um casamento feliz com Kasper, personagem de Miguel Falabella, e o fato de os dois formarem uma família funcional vem agradando o ator.
"Eles são felizes, bem-sucedidos e apaixonados pelo que fazem. É uma família leve, que transmite amor e arte. É um papel muito diferente de tudo que já fiz, o mais distinto da minha carreira", diz Samuel que, no entanto, segue usando sua visibilidade para discutir o que considera um dos maiores desafios da televisão brasileira: a falta de narrativas realmente pretas.
"Não adianta colocar pretos na TV se a dramaturgia continua branca", diz o ator, que vê o mês da Consciência Negra como um momento necessário de reflexão mas também de incômodo. "Ainda é triste perceber que só temos espaço de fala e visibilidade em novembro", afirma.
Para ele, a representatividade só será completa quando as histórias forem escritas, dirigidas e contadas a partir de olhares negros, e não apenas interpretadas por eles.
Além de sua atuação na TV, Samuel se dedica ao teatro com o espetáculo "E Vocês, Quem São?", monólogo nascido durante a pandemia que inverte o olhar sobre o racismo e provoca o público a questionar o papel da branquitude na perpetuação das desigualdades. "A peça é um convite à reflexão, mas também ao desconforto. O teatro existe para isso: para provocar e libertar", diz.
O ator também fala sobre a violência no Rio, preconceito religioso, autoestima e Carnaval. Samuel se define como um homem livre no amor, na arte e na vida. "Respeito o meu desejo, minha verdade e o que me move", diz, sem medo de quebrar rótulos.
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PERGUNTA - Qual o significado do mês da Consciência Negra para você?
SAMUEL DE ASISS - O Dia e o Mês da Consciência Negra são fundamentais para que a gente tenha espaço de fala, para divulgar o que é nosso nossa arte, nossa cultura, nossos pensamentos. Mas é triste perceber que esse espaço depende de uma data específica. Ainda é muito pouco. Apesar de termos avançado, as portas se abrem mais em novembro do que no resto do ano. É importante ter essa 'data', mas, infelizmente, não foi muita coisa que mudou para nós, negros.
P - Negros estão em papéis de destaque nas novelas mais recentes da TV, o que não acontecia há alguns anos. Você vê um avanço real nessa mudança?
SA - Enquanto houver esse pensamento de "dar espaço" aos negros... Sabe, é preciso colocar um ponto final. Não adianta colocar atores pretos em papéis importantes se a dramaturgia continua branca. A vida inteira fomos retratados em posições inferiores, e de repente empurram os pretos para papéis de elite, mas sem que as histórias nos representem. Empurrá-los para posições de destaque apenas para cumprir uma cota não é representatividade.
P - Recentemente, Taís Araujo ficou frustrada com a derrocada de Raquel em 'Vale Tudo' e disse ter ficado desapontada com os rumos da personagem...
SA - (suspira) Aparece logo aquele discurso, né? 'Viu? Quando a gente dá destaque, dá o protagonismo, eles não seguram'. Mas a questão não é essa. O problema é que essas histórias não são nossas. Eu não sei o que é viver uma história branca, porque eu não sou branco. Assim como ninguém vai saber viver as dores e alegrias de ser preto. Repito: Não adianta colocar pessoas negras em cena se a dramaturgia continua sendo branca.
P - Como assim a dramaturgia ainda é branca?
SA - Continuam nos fazendo viver histórias que não são nossas. Eu nunca vou saber o que é ser branco, assim como uma pessoa branca nunca vai saber o que é ser preta. Eu não posso representar as dores e alegrias de um corpo branco, porque isso não encaixa em mim. É a mesma coisa do 13 de maio: assinaram a Lei Áurea e jogaram o povo preto à própria sorte. É o mesmo movimento. Colocam os corpos negros na tela, mas sem dar a eles uma narrativa verdadeira, que parta da nossa vivência.
P - Você é otimista em relação a essa mudança? Acredita que isso vai acontecer em breve?
SA - Não preciso ser otimista. Prefiro ser realista. Essa não é uma realidade que os meus filhos vão viver. Talvez os meus netos comecem a ver uma mudança mais drástica.
P - Em uma entrevista recente, você disse que o racismo estrutural afetou sua autoestima. Como foi?
SA - A gente precisa de muita terapia para reconstruir nossas crenças e resgatar a autoestima. É um processo contínuo. Fui educado para não me achar bonito e 'você é preto, e ponto". Tinha o menino bonito, o menino feio, o menino mais ou menos e o menino preto, eu. E isso faz com que a gente não consiga enxergar uma possibilidade de beleza própria.
P - Sobre 'Três Graças', fale um pouco sobre o João Rubens, seu personagem.
SA - O João Rubens é parte de uma família funcional dois homens, uma filha e uma sobrinha. Eles são felizes, bem-sucedidos e apaixonados pelo que fazem. É uma família leve, que transmite amor e arte. É um papel muito diferente de tudo que já fiz, o mais distinto da minha carreira.
P - Você também tem monólogo que fala de racismo "E Vocês, Quem São?" que está rodando o país. Como nasceu o espetáculo?
SA - Nasceu durante a pandemia. Eu estava montando um espetáculo com poesias de autores pretos e músicas de Luiz Melodia. Pedi um texto para o escritor Jonathan Raymundo e ele me enviou um texto de doze páginas, um verdadeiro desabafo. Eu li e chorei. É um espetáculo que questiona o olhar da população branca sobre o racismo. A peça inverte o espelho: não somos nós que temos que explicar o racismo, mas aqueles que o criaram. É um convite à reflexão.
P - E como o público reage ao convite à reflexão?
SA - A maioria chora. A gente já fez temporadas no Rio e em São Paulo, e agora estamos em turnê pelo Brasil. As reações são intensas. Já teve gente que quis discutir durante a peça, que saiu no meio, e outros que riram muito. É uma mistura de sentimentos. E é isso que o teatro faz: provoca, incomoda e liberta.
P - Recentemente, o Rio de Janeiro viveu mais uma megaoperação contra o Comando Vermelho que resultou em mais de uma centena de mortos. Como se sente diante de tanta violência?
SA - É revoltante. Cada vez que se repete, é mais arbitrário, mais nojento, mais violento. É o mesmo genocídio preto de sempre. Pessoas tratadas como coisas. E o país age como se tudo tivesse voltado ao normal no dia seguinte. Não adianta eliminar corpos negros e dizer que "acabou o crime".
P - Você costuma dizer que é sexualmente livre. O que isso significa?
SA - Significa exatamente isso: respeito o meu tesão. Eu prefiro não rotular minha orientação sexual. Acredito na liberdade plena. De amar, de sentir e de viver o que faz sentido para mim.
P - Você é muito ligado ao Carnaval e à Beija-Flor. O que essa relação representa para você?
SA - A Beija-Flor é minha terceira casa, depois da minha casa e do meu terreiro. É onde eu quero estar para o resto da vida. Amo aquelas pessoas, quero trocar com elas sempre. É um lugar de pertencimento, de amor, de fé.
P - Você já contou que sofreu preconceito religioso. Ainda sente e sofre com isso?
SA - Sinto, sim. A gente tem avançado, mas ainda é dolorido. Recentemente, a cantora Larissa Luz foi preencher uma ficha médica, disse que era do candomblé e a atendente quis colocar "outros". Isso aconteceu em São Paulo, em 2025. É revoltante. Ela respondeu: "Não, escreve candomblé. Soletre". Isso ainda cansa. São 136 anos de resistência, tentando mostrar que o candomblé é uma religião como qualquer outra. E é disso que o samba da Beija-Flor vai falar no próximo carnaval. Estou muito feliz com o enredo.
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