No mesmo mês, em seu site, Reed disse que se considerava "um triunfo da medicina moderna" por ter sobrevivido ao transplante, anunciando aos fãs que continuava a compor e pretendia voltar aos palcos. Depois disso, o silêncio. Ontem, nem mesmo a imprensa estrangeira acreditava que ele havia morrido. Vale lembrar que, em 2001, uma rádio americana espalhou a notícia de sua morte por overdose. Quem primeiro noticiou sua morte foi o site da revista Rolling Stone. Seu empresário Andy Wooliscroft inicialmente negou, mas logo foi obrigado a admitir sua morte, resumindo sua fala a "Estou muito triste". O certo é que, desde abril, Reed apenas sobrevivia com o fígado transplantado, surpreendendo até mesmo sua mulher, a cantora e também compositora Laurie Anderson, um dos grandes nomes da arte de vanguarda nos EUA.
Desde cedo frequentador da Factory, a fábrica de arte, música e cinema do artista pop mais célebre do mundo, Andy Warhol, Reed formou, em 1964, a Velvet Undergound, a mais influente banda experimental nova-iorquina. Não era exatamente um êxito comercial, mas influenciou muitos grupos americanos e ingleses da cena punk com seu visual dark e uma cantora imposta pelo mentor da banda, Warhol. Seus integrantes não pareciam contentes com a modelo alemã Nico, mas ganharam de presente do pai da arte pop uma banana desenhada para a capa do primeiro disco, de 1967, The Velvet Underground and Nico.
Os temas que marcariam as canções de Reed já estavam todos no disco inaugural da banda: drogas (Heroin, sobre a experiência de John Cale com a heroína), sexualidade fora dos padrões (Venus in Furs, sobre relações sadomasoquistas) e comportamento marginal (There She Goes Again, a saga de uma prostituta de rua). Um dos sustentáculos musicais do Velvet Underground, John Cale, que tocou viola elétrica, piano e celesta no primeiro disco, saiu da banda logo no começo. Nico praticamente foi expulsa.
Lou Reed era um adolescente de 15 anos quando On the Road, a bíblia da geração beat, foi publicado. Sua admiração por Jack Kerouac fez com que ele imitasse não só o estilo beat de ser (blusão de couro, óculos escuros), como de viver. Bissexual, ele foi submetido pelos pais a uma violenta terapia de eletrochoque em 1956, para "curar" sua orientação erótica, um ano antes de On the Road (a traumática experiência é descrita na canção Kill Your Sons).
O cantor não deixou, claro, de ser bissexual. Foi uma grande influência para o andrógino David Bowie, um dos produtores de Transformer, que fez com ele um show inesquecível no Madison Square Garden, quando Lou Reed completou 50 anos. Culto, talentoso, embora antipático e por vezes grosseiro, ele esteve no Brasil em algumas ocasiões, entre elas para o lançamento de um livro. Além de músico, Reed colaborou com grandes diretores de teatro (Bob Wilson) e cinema (Wim Wenders) e lançou, no ano passado, o livro Rhymes (Rimas). No Brasil, a Companhia das Letras lançou em 2010 o livro Atravessar o Fogo, com mais de 300 letras suas.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

