Ao sair da aula, Inácio pensou como ajudar o Masp a restaurar a obra e passou a administrar um fundo de investidores criado para cumprir sua meta. É o tipo de determinação que talvez falte ao próprio museu, capaz de criar prêmios em dinheiro para artistas mas não de reservar verbas para a limpeza de sua fachada ou apagar pichações nas paredes de seu belvedere. Como muitos frequentadores do museu, Inácio quer o melhor para o Masp - e pretende com seu gesto incentivar outros jovens a assumir um compromisso pela preservação desse patrimônio. "Fala-se muito em educação técnica e quase nunca em educação humanista, que forme valores", observa, traçando uma analogia com a renovação sugerida pelo tondo de Di Cosimo, que retrata o ciclo da vida recorrendo à figura de uma figueira seca que começa a brotar ao lado da Virgem.
Descendente de um ex-ministro da Cultura e da Fazenda, o baiano Clemente Mariani Bittencourt (1900-1981), Inácio começou a frequentar cedo o Masp, incentivado por artistas como o escultor Claudio Cretti, seu professor na Escola da Vila. Conhece como poucos o acervo do museu e sente falta do convívio com suas obras-primas, como O Torso de Gesso, de Matisse, e o retrato de Madame Cézanne em Vermelho (1890-94), que passa agora pela avaliação do serviço de restauro após contínuas viagens pelo Exterior. Aliás, este é um procedimento bastante comum que tem ajudado o museu a restaurar algumas obras lá fora - o empréstimo muitas vezes é condicionado a um compromisso de restauro. No entanto, ele tira dos visitantes a possibilidade de ver a coleção como foi originalmente organizada.
Há anos o núcleo básico das obras-primas compradas por Assis Chateaubriand não é exibido em conjunto, permitindo aos frequentadores habituais ou aos estrangeiros atestar a importância desse acervo in totum. Com suas dependências ocupadas por mostras temporárias - poucas de grande importância -, o Masp deixa de ser um museu físico para ter existência apenas virtual na internet, onde suas obras ainda podem ser vistas. Por vezes, uma mostra como a de Caravaggio, que trouxe ao Brasil, pela primeira vez, pinturas raras do pintor italiano, em agosto do ano passado, faz lembrar os velhos tempos do museu, que perde espaço para instituições como o CCBB, responsável por duas das maiores exposições já vistas em São Paulo, a dos impressionistas franceses e a do Renascimento italiano. Foi exatamente a exposição de Caravaggio que legou ao Masp um compromisso da restauradora italiana Paola Sanuzzi.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

