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Autor busca inspiração em 'Cancún carioca' para discutir relação paterna em livro

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PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - É sobre Cancún, mas não só a Cancún que você está pensando. 

Claro que tem os resorts com piscina em formato de diamante, as águas tão azuis que mais parecem Photoshop. Diachos, tem até a Coco Bongo, aquela boate famosa por aparecer em "O Máskara", o filme de 1994 em que Jim Carrey põe uma máscara e vira um sujeito verde bem sociável.

Mas existe também a outra cidade que nenhuma agência de turismo vai querer vender. Nela vivem prostitutas a serviço de turistas endinheirados, funcionários que demoram uma hora e meia pra chegar na rede hoteleira. Vire numa rua mais erma e possivelmente sua carteira já era.

O balneário mexicano dá o nome e também o tom do novo livro de Miguel Del Castillo, que participa nesta sexta (12) da Flip (Festa Literário Internacional de Paraty). 

Essa dupla Cancún, contudo, é só o ponto de partida para um universo muito maior, que liquidifica evangélicos, churrascarias e pizzarias rodízio, Palace 2 e a réplica de uma Estátua da Liberdade num shopping em construção -tudo da Barra da Tijuca, o bairro carioca que, para o autor, tem um tanto a ver com a cidade-título. 

A obra fininha, 168 páginas só, começa onde termina "Cancún", conto de outro livro de Castillo, "Restinga", de 2014 (mas não precisa ler um para entender o outro). "Há algumas coisas que me interessam sobre o balneário", diz o autor à reportagem. "Essa quase catarse que ele representa para alguns, que vão relaxar na praia e/ou enfiar o pé na jaca na noite e com as comidas all-inclusive; a 'outra Cancún', a cidade escondida, com partes muito pobres."

Daí para lembrar do bairro onde o protagonista mora é um pulo. "Os condomínios fechados, flats, hotéis, shoppings e certa utopia da praia transformam a Barra quase numa Cancún metropolitana", diz Castillo. "Quis explorar como que lugares tipo esses dois são capazes de produzir e acolher afetos das pessoas, mesmo sendo tão turísticos, kitschs, artificiais, ou seja lá que adjetivo se dê."

Essa polivalência geográfica serve de pano de fundo para o tema verdadeiramente central do título: a relação que Joel -dois deles, o menino de 12 anos e o adulto 20 anos depois- têm com seu pai.

Já a epígrafe, com uma citação de "O Africano", do francês J.M.G. Le Clézio, lembra que "todo ser humano é resultado de pai e mãe". Ainda que alguém odeie e não se reconheça nos pais, dificilmente escapará de repeti-los, das manias aos dedos dos pés, das atitudes a provavelmente a idade de sua morte, "tudo isso passou para nós". 

"Cancún" tem dois narradores que se alternam. A história do Joel adulto é contada na primeira pessoa. Ele está prestes a ser pai na mesma época em que perde o seu. Com a mulher gravidíssima, decide que precisa ir a Cancún tentar desvendar por que o pai preferiu ficar lá numa fase em que ele lhe era tão necessário.

É na terceira pessoa que a vida do Joel adolescente é narrada, e é uma temporada de medos e ausências. O pai ficou quatro anos no México e só agora voltou. A relação próxima que tinham em sua infância parece difícil de resgatar.

"É uma questão que fica muito presente quando se tem filhos", diz o pai de dois pequenos. "Você pensa em como criá-los, em como vai contar sua história pra eles, em como eles serão. E, ao mesmo tempo, repensa como foi sua relação com seus pais. Inclusive, às vezes coisas que achávamos já estarem resolvidas voltam."

Naquele mesmo 1998, o colapso de um prédio na mesma Barra da Tijuca, o Palace 2, instala no garoto a fobia de que tudo pode virar pó a qualquer momento. Depois vem o ataque na escola de Columbine, e a sensação de tragédia iminente vai ganhando territórios em sua mente tal qual uma partida do jogo "War".

Soma-se a isso os dramas típicos de um garoto de classe alta que volta para casa de motorista, como ser o "pereba" no time de futebol do condomínio ou temer que uma namoradinha conte para todo mundo se ele não der conta do recado.

Aí entram os evangélicos. O Joel trintão está afastado da igreja. O novinho decide frequentar o grupo de jovens da denominação evangélica que vai com a mãe.

Aqui Castillo, também ele evangélico, oferece um retrato bissexto desse segmento na literatura brasileira. De fato, ele afirma, evangélicos são presença rara no meio literário mais afinado à Flip (porque, vale lembrar, o filão gospel é um sucesso de vendas).

Quando descreve como o garoto se apega à pulseirinha "WWJD", sigla para "What Would Jesus Do?" (o que Jesus faria?), não dá uma cara pitoresca à cena, mas tampouco proselitista. 

Castillo acha que existe uma distância entre adeptos dessa fé e o meio cultural como um todo, "que depois dessa última eleição, ou talvez desde um tempinho antes, tem começado a perceber que precisa olhar para esse espectro, entender demandas, dialogar e ver também que há uma grande diversidade dentro do 'movimento'".

Só o chatearia se ele se apresentasse como cristão, "e aí a pessoa me diminuísse, não me considerasse apto a discutir algo, me considerasse preconceituoso de antemão".

Com um punhado de referências cruzadas entre a própria vida e a de Joel, é inevitável fazer a pergunta que assombra tantos escritores: qual o quinhão autobiográfico em "Cancún"?

"Vou repetir uma anedota aqui", Castillo anuncia e evoca um conto do escritor chileno Alejandro Zambra. Nele, um jornalista fica na cola de um escritor numa viagem pela Europa, querendo entrevistá-lo.

"O autor enfim cede, e, depois de algumas perguntas iniciais, ele chega aonde de fato queria: 'Quanto de ficção e quanto de realidade há nos seus livros?'. O escritor pensa e responde: '32%'. Eu diria que é algo por aí, ou seja, o autor acaba se alimentando tanto de um olhar para si como para os outros, e também da invenção 'pura e simples', por assim dizer. Importa que, no fim, tudo se transforma em matéria para a escrita."

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