ECATERIMBURGO - Se São Petersburgo tem o Hermitage e Moscou tem a Galeria Tretyakov e o Pushkin, entre muitos outros museus, Ecaterimburgo tem suas ruas. Calma, eu explico. A quarta maior cidade da Rússia tem também lindas obras em seu Museu de Belas Artes, mas a profusão de cores, traços e pensamentos expostos nas paredes de Ecaterimburgo não encontra igual no país. Tudo cortesia de um grupo de jovens artistas que resolveu quebrar um pouco o tom cinzento tão característico das cidades soviéticas. Criado em 2010, o Festival Stenograffia vai transformando, aos poucos, Ecaterimburgo em uma galeria a céu aberto.
Maxim Loskutov, Daria Melnikova e Dmitry Bezuglov me encontraram no centro da cidade logo no começo de uma gelada manhã. Mais falante do trio, até por ser o único fluente em inglês, Dmitry quebrou o gelo com uma piada sobre o nada aprazível tempo na região: “Temos um verão legal, nem neva tanto”. Apresentações feitas e todos munidos com copos de café, começamos a caminhar. E como caminhamos. Foram mais de três horas atravessando Ecaterimburgo para lá e para cá, conferindo grafites em muros e prédios anteriormente cinzentos e deteriorados.
Em todos estes anos de festival, já foram feitos cerca de 400 trabalhos. Alguns desapareceram com a ação do tempo, mas muitos ainda podem ser vistos, e são apresentados pelo trio como exemplos de revitalização de áreas degradadas da cidade. Como um muro no que era uma 'boca braba', digamos assim, em uma ruela, e hoje, pintado e com nova iluminação, virou um point de selfies.
Uma das criadoras do festival, Daria, ou Dasha, como é chamada, relembra o começo difícil, cercado de desconfianças. A cidade tinha uma tímida cena de grafite nos anos 90, transitando pela marginalidade e repressão. Quem fosse pego pintando um muro poderia ser detido e multado. O Stenograffia foi criado e a cena passou a ganhar força, mas ainda era preciso explicar que o festival não era uma reunião de vândalos.
- Nesses primeiros anos, era mais fácil encontrar espaço nos subúrbios. Hoje em dia já temos vários trabalhos no centro histórico. Já é comum donos de prédios procurarem a organização do festival, pedindo para fazerem parte do Stenograffia e receberem um grafite.
Enquanto conta um pouco sobre a história de Ecaterimburgo, Dmitry não disfarça o incômodo ao passarmos em frente a um imponente prédio, uma construção histórica cheia de letreiros e neons. Um shopping center ocupando um antes tradicional espaço da cidade desagrada o trio, e dá a deixa para uma mudança no roteiro. Caminhamos para conferir um trabalho feito anos atrás por um grupo ucraniano. Um mural sobre o consumismo, inspirado no mito de Sísifo, o personagem da mitologia grega condenado a eternamente empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. Na pintura, a pedra é representada por ícones do consumismo, como um carro, televisor, aparelho de som, entre outros.
- A Rússia era uma bomba-relógio, que explodiu nos anos 90. Foi uma época difícil, todo mundo queria ter tudo. Acho que agora melhorou um pouco, essa fase desenfreada já passou, mas o consumismo é uma questão global. Não temos como escapar - analisa Dmitry.
A última parada da 'excursão' foi especialmente selecionada. O trio apresenta um mural pintado dois anos atrás pelo artista brasileiro Thiago Mazza. Uma representação bem nacional, com São Jorge matando o dragão. A parede extremamente colorida, cheia de vida, rendeu ainda histórias contadas às gargalhadas pelos russos. Segundo eles, a notícia de que um brasileiro estava pintando um mural se espalhou e gerou uma espécie de 'peregrinação'. Thiago ficou conhecido e recebeu comida e vodca de presente de moradores, além de uma oferta um pouco mais inusitada e audaciosa.
- Uma mãe veio até aqui e trouxe a filha para apresentar ao Thiago, na esperança de que ela se casasse com um brasileiro - diverte-se Dasha.
É necessário agora deixar aqui o recado de que não houve nenhuma comoção semelhante com a chegada desse jornalista brasileiro a Ecaterimburgo.
Mas causei, sim, algum sucesso no Museu de Belas Artes. Fundado em 1937, o prédio de dois andares parece pequeno por fora, mas é composto de diversas salas e um grande acervo de esculturas de bronze e telas de artistas russos e de outros países. A coleção é bonita, e perco um bom tempo apreciando as obras. Um pouco distraído, sou abordado pela senhora que é responsável por uma das alas do museu. Aponta para a câmera que carrego e fala algo. Em russo, claro. Pensei que talvez fosse proibido fazer fotos, mas eu, de fato, sequer estava fotografando.
Era o contrário. Ela queria, insistia, que eu fizesse uma foto de um determinado quadro. Emendou em uma longa explicação, igualmente em russo, sobre as obras de sua ala (só entendi "impressionism"). Um pouco curiosa, outra funcionária do museu se aproximou. Perguntou se eu era "britania" (britânico). Respondi que era do Brasil e os olhos das duas brilharam. É impressionante o carinho que os russos tem pelos brasileiros.
Talvez empolgada com a presença de um visitante de um lugar tão distante e querido, a segunda funcionária me puxou pelo braço. Saiu caminhando e pediu para que eu a seguisse. Parecia que eu estava nos tempos de escola, seguindo a supervisora rumo à sala da diretora, mas ela só queria mesmo que eu visse outras alas do museu. Detalhe: eu já havia passado por todas aquelas salas. Pensei em explicar isso, mas achei mais educado olhar, novamente, os mesmos quadros.
Decorei a posição de quase todas as obras do Museu de Ecaterimburgo e me despedi com efusivos acenos.

