Santos desafia 'cartilha' de boa gestão na rota para final da Libertadores

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

26/01/2021 15h04 — em Esportes

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na noite de Quito, em 24 de novembro do ano passado, o auxiliar Marcelo Fernandes percebeu que aquele time do Santos não era como outro qualquer.

"Depois de tudo isso, acho que há algo especial reservado para essa equipe", ele disse a funcionários do clube no vestiário do estádio Casa Blanca, na capital equatoriana.

Minutos antes, o Santos havia vencido a LDU por 2 a 1 na partida de ida das oitavas de final da Libertadores. Ganhou na altitude de 2.850 metros da cidade pela primeira vez depois de 58 anos. Isso aconteceu apesar de um surto de Covid-19 que havia tirado dez jogadores da partida.

Além deles, o técnico Cuca, seu irmão e assistente Cuquinha e outros integrantes do departamento de futebol também estavam afastados pela doença.

Dois meses depois, o Santos, que passou por um dos anos mais conturbados de sua história e ainda atravessa crise financeira, está na final da Libertadores desafiando quase tudo o que a cartilha de uma boa gestão recomenda. No próximo sábado (30), enfrentará o Palmeiras, às 17h, no Maracanã.

"O objetivo sempre foi chegar à decisão, apesar de todas as dificuldades. Era estar a uma partida do Mundial", afirma Cuca. Ele se lembra de ter dito ao irmão, assim que voltou à Vila Belmiro, em agosto de 2020, que aquele elenco tinha potencial para dar certo.

O treinador reconhece que, de certa forma, os acontecimentos fora de campo serviram para o time se unir dentro dele. Uma unidade que ninguém deseja ver rompida antes de sábado.

Funcionários do clube disseram à reportagem que, no meio da festa no vestiário da Vila Belmiro, após o 3 a 0 sobre o Boca Juniors pela semifinal, o atacante Marinho interrompeu a celebração para dizer a integrantes do comitê de gestão que todo o esforço dentro de campo tinha de ser reconhecido pelos dirigentes.

O recado do atacante era um pedido para que os pagamentos sejam colocados em dia. Andres Rueda assumiu como presidente em 1º de janeiro. Recebeu o elenco com salários da carteira em ordem, mas com dois meses de direitos de imagem do elenco atrasados, além de uma parcela do 13º a ser quitada. A folha de pagamentos do futebol profissional é de cerca de R$ 7,5 milhões mensais.

Em 2020, o Santos chegou a dever dois meses de salários e seis de direitos de imagem. Isso aconteceu no meio do processo de impeachment do ex-presidente José Carlos Peres. Acusado de má gestão pela comissão fiscal do conselho deliberativo, ele foi afastado pelos conselheiros em 28 de setembro do ano passado. O ex-dirigente nega ter cometido irregularidades e considera que todo o processo foi político.

Em outubro, o Santos se viu ameaçado de perder quase todos os seus patrocinadores se não suspendesse o contrato firmado com o atacante Robinho --na época condenado em primeira instância por estupro coletivo na Itália. Pressionado, tomou essa medida.

"O Santos chegou à final da Libertadores porque atletas, comissão técnica, demais funcionários e comitê de gestão se fecharam em um grupo único, colocando questões como as dificuldades financeiras em segundo plano, priorizando os resultados dentro de campo", afirma Orlando Rollo, que assumiu a presidência com o afastamento de Peres e fez a transição até a posse de Rueda.

A constatação de pessoas ouvidas pela reportagem é de que, quanto mais os problemas se acumulavam fora de campo, mais Cuca conseguia blindar o elenco. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, no início deste mês, ele reconheceu ter feito muito mais em questões administrativas no Santos do que em outros clubes na carreira.

"A gente sabia que as dificuldades seriam enormes, que os atrasos seriam constantes. Tentamos colaborar no que pudemos e fomos transparentes com os jogadores. O Cuca foi o líder, o gestor, o paizão de todo mundo. Ele conduz muito bem esses processos", afirma Felipe Ximenes, que ocupava o cargo de superintendente de futebol e foi demitido por Rueda.

Ximenes provocou desconforto ao dizer que os salários estavam pagos, quando isso não havia acontecido. Cuca se queixou, no final de 2020, de não saber a quem relatar os problemas: ao superintendente, ao presidente em exercício ou ao eleito.

Rollo adotou a política de fazer o que era possível para agradar o elenco. Pediu ajuda à CBF para que a Conmebol adiantasse o pagamento das premiações pelas classificações na Libertadores. O prazo normal seria de 10 dias, mas o clube passou a recebê-las em 24 horas.

Toda a quantia foi destinada a pagar os jogadores. Pela vaga na final, o Santos recebeu R$ 5 milhões. Se conquistar o título, o prêmio acertado com os atletas é de R$ 10 mlhões dos cerca de R$ 85 milhões (US$ 15 milhões) pagos pela Conmebol.

Rueda, antes de ser presidente, emprestou dinheiro que garantiu ao clube o acordo com o Hamburgo (ALE) referente à dívida da contratação do zagueiro Cleber Reis.

Por causa de débitos com Atlético Nacional (COL) e Huachipato (CHI), o Santos ainda está proibido de registrar novos atletas. As cobranças são referentes, respectivamente, às aquisições do zagueiro Felipe Aguilar e do meia-atacante Yeferson Soteldo.

A prioridade dada ao elenco na busca de resultados foi levada às últimas consequências. Em reunião do comitê de gestão com Rollo e integrantes da administração de 2020, Rueda questionou o não recolhimento de impostos e parcelas do Profut, programa de refinanciamento de débitos com a União.

Ele ouviu como resposta que o mais importante era tentar ficar em dia com os jogadores. A questão fiscal poderia ser resolvida com refinanciamentos. A dívida total da agremiação está em R$ 550 milhões.

Nesta segunda-feira (25), o Santos anunciou o patrocínio pontual para a final do jogo online Fortnite. Segundo o site Diário do Peixe, o acordo renderá cerca de R$ 1 milhão para o clube e poderá ser prorrogado pelo restante da temporada.

A ideia é que todo o sacrifício será recompensado com uma vitória no próximo sábado. Caso ocorra, o tetracampeonato tornará o Santos, de forma isolada, o maior campeão brasileiro da história da Libertadores.

O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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