SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto as principais ligas da Europa buscam saídas para reiniciar seus campeonatos, paralisados pela pandemia de coronavírus, a Alemanha deverá ser a primeira a tentar de fato retomar as atividades em campo. Quando isso acontecer, os olhares do futebol mundial estarão atentos para os resultados de uma experiência considerada por muitos como arriscada. A ideia da Bundesliga é utilizar os 36 estádios das duas principais divisões nacionais para recomeçar os torneios sem a presença de torcedores. A primeira opção de data é 9 de maio. A Alemanha começou a reabrir setores da economia nesta segunda (20) e anunciou planos para que as crianças retornem às escolas em 4 de maio. O país conseguiu algum controle sobre a contaminação entre a população. Em parte, isso se deve ao número de testes realizados para saber se as pessoas foram infectadas. São mais de 100 mil por dia. "Isso vai nos possibilitar testar jogadores, comissão técnica e funcionários dos clubes sem prejudicar o sistema público de saúde", afirma Christian Seifert, chefe-executivo da Liga Alemã de Futebol. Belarus é o único país europeu que não parou o futebol por causa do vírus. Entre todos os demais que sofreram interrupção, a Alemanha foi o primeiro a permitir que as equipes voltassem a treinar, mesmo que de forma gradual. Em grupos de cinco, os jogadores por enquanto mantêm distância de dois metros um dos outros e não podem ter nenhuma atividade que possibilite contato, como desarmes ou carrinhos, por exemplo. Entre as cinco principais ligas do continente, a Bundesliga é a única a já ter um plano para reiniciar o campeonato. Itália, Espanha, Inglaterra e França ainda vivem indefinições. Boa parte dos contratos dos jogadores nos principais clubes europeus se encerram em 30 de junho. A Fifa sinalizou que autorizará prorrogações compulsórias, mas isso dependerá das legislações trabalhistas de cada nação. Na Alemanha, o plano é que cada jogo envolva 240 pessoas, entre jogadores, comissão técnica, dirigentes, gandulas, jornalistas, equipe de transmissão e funcionários do estádio. Todos seriam testados regularmente para coronavírus. A federação também está envolvida em um plano de higiene e cuidados a ser seguido pelos atletas dentro de casa, englobando também seus familiares. Seria criada uma espécie de "bolha social" em que os atletas viveriam até o final da temporada, no final de junho. "É um plano possível se conseguimos determinar, em um rápido teste, que nenhum dos jogadores está infectado e que não há o perigo de haver um contágio em cadeia", afirma Wolfgand Kubrick, vice-presidente da Câmara de Deputados, em entrevista à Sky Sports alemã. Esse é considerado o perigo maior pelos opositores da ideia. Bastaria que uma pessoa dessas 240 fosse infectada para dar início a uma situação que pode paralisar outra vez (e talvez de forma definitiva) o campeonato. E se algum jogador se machucar em campo e precisar ser levado para o hospital? Seria justo para a sociedade utilizar esse serviço com o futebol no meio de uma pandemia? "Não é uma boa ideia e não passa uma mensagem boa para a população alemã", disse o senador Ulrich Mäurer. A pressa da federação e dos clubes para voltar tem o mesmo motivo de campeonatos e clubes de outros países: o dinheiro da televisão. A avaliação é de que, se a liga alemã for cancelada, o prejuízo será de cerca de 700 milhões de euros (R$ 4,1 bilhões). Segundo dirigentes, já há clubes em dificuldades financeiras e se a situação perdurar vários podem entrar em insolvência. "A luta por enquanto é para sobreviver. Dos 18 times da Bundesliga 2 [a segunda divisão], metade está em perigo de decretar falência. Se a temporada for cancelada, pelo menos cinco times da primeira divisão também terão sérios problemas", afirma Seifert.
