BUENOS AIRES O impacto de uma guerra e, sobretudo, de uma derrota bélica vai muito além do campo de batalha. Pode chegar, até mesmo, a um campo de futebol. Assim explica o ex-jogador da seleção argentina Daniel Passarella, um dos maiores nomes da História do River Plate, o fracasso de seu país na Copa de 1982, quando foi eliminado pelo Brasil, nas quartas de final, por 3 a 1.
Parece incrível pensar que os jogadores argentinos chegaram à Espanha com duas convicções que pareciam inabaláveis: a de serem favoritos, pela vitória na Copa de 78, em casa, e a de que o governo militar, no poder desde o golpe de 24 de março de 1976, conseguiria derrotar a Grã-Bretanha na guerra pela soberania das Ilhas Malvinas. Num mundo bem diferente, no qual as comunicações eram muito mais limitadas e a capacidade dos governos de esconder informações era enorme, Passarella e seus colegas de seleção acreditaram nas promessas da ditadura.
Melhores do que o Brasil de Telê
Aos 64 anos, o ex-jogador ainda fala daquele momento com emoção e certa ingenuidade:
— Não sabíamos de nada do que estava acontecendo até que chegamos à Espanha e os jornalistas começaram a nos contar. Foi devastador para a seleção, nos matou.
Passarella está convencido de que a seleção de 82 foi a melhor da História da Argentina, superior até mesmo ao Brasil, que a deixou de fora. Mas ele admite que “o Brasil ganhou bem, seus jogadores tinham mais fome do que nós, que estávamos muito mal emocionalmente”.
Eles tinham Mario Kempes e Diego Maradona, que já começava a brilhar em campo. Mas, naquele dia, o grande craque argentino foi expulso, e Passarella, que era o capitão da equipe, levou um cartão amarelo.
— Maradona deu um chute feio em outro jogador, não lembro quem, e foi expulso aos 85 minutos de partida — comenta o ex-jogador.
A seleção argentina não estava, claramente, em seu melhor momento. Com o ânimo no chão, os jogadores praticamente se entregaram. Muitos, revelou Passarella, quiseram ir embora durante a Copa, pela angústia que sentiam ao receber notícias sobre a Guerra das Malvinas.
— Era mais fácil digerir uma derrota que nos deixava fora da Copa do que o que estava acontecendo na Argentina. Tínhamos medo, falávamos com nossas famílias e recebíamos informações o tempo todo. Aquilo nos afetou muito psicologicamente — conta.
No hotel, no ônibus que os levava aos estádios, em todo momento, o sentimento predominante era a tristeza. Cada vez que podiam, os jogadores ligavam a TV para saber notícias sobre seu país. E cada novidade que chegava à Espanha era um golpe duro para a seleção, que antes da Copa passara um mês concentrada e isolada de tudo. O choque ocorreu após o início do campeonato e foi fatal.
Segundo Daniel Passarella, ninguém conseguia acreditar no que estava acontecendo:
— Foi triste, muito triste. Estávamos o tempo todo querendo saber, alguns jogadores queriam ir embora, todos tínhamos algum conhecido ou conhecido de conhecido que estava lutando na guerra. E o pior é que não podíamos fazer nada.
Para ele, a Copa de 82 não pode ser separada da Guerra das Malvinas. Ali, a Argentina sofreu uma derrota esmagadora, que marcou uma época para o país. Na política, foi o começo do fim da ditadura. No futebol, uma crise que levou a um renascimento sensacional e à posterior conquista da Copa de 1986, no México.
Passarella lembra-se de que o jogo contra o Brasil foi duro, acirrado, e diz acreditar que a Argentina perdeu, essencialmente, pelo estado emocional de seus jogadores., que chegaram ao clássico bem diferentes de quatro anos antes, na cidade de Rosario, quando as duas seleções empataram em 0 a 0 numa partida sem muito entusiasmo. A Argentina, anfitriã da Copa de 1978, era a grande favorita, mas sua seleção ainda não tinha alcançado o nível que mostrou nos jogos da etapa final. Tanto que, na época, Passarella e outros jogadores decidiram cortar o cabelo de Kempes, estrela do time, para “ver se ele ficava mais forte”.
— Nos primeiros jogos Kempes não foi decisivo. Quando chegamos a Rosário combinamos de cortar o cabelo dele para dar mais energia. Aí ele começou a aparecer — lembrou o ex-jogador.
Em 1978, respeito em excesso
A equipe comandada pelo revolucionário Cesar Luis Menotti passou quatro anos sendo preparada para a Copa na Argentina. O técnico convocou vários jogadores que tinham sido campeões sub-19 em 1975, entre eles o próprio Passarella. O clima nas ruas da Argentina era de euforia, um contraste doloroso com o sofrimento das famílias que estavam à procura de pessoas desaparecidas. A repressão dos militares foi feroz, mas os jogadores da seleção estavam alheios a prisões, torturas e assassinatos. Algo que hoje muitos argentinos ainda questionam.
— Não sabíamos de nada, essa é a pura verdade — afirma Passarella..
Do lado de fora dos quartéis e campos clandestinos de concentração, o futebol dominava a cena. O Brasil, admitiu Passarella, era o rival mais difícil do grupo, e no jogo em Rosario ambas as seleções “se respeitaram muito, tanto que ninguém fez gol”.
— Para nós, um empate era suficiente. Não era matar ou morrer — lembra o ex-zagueiro.
Ali, ninguém matou, ninguém morreu, e a Argentina consagrar-se-ia campeã em casa, para a alegria dos ditadores. Quatro anos depois, porém, o mundo desabou. No conflito das Malvinas, morreram 649 argentinos, muitos soldados acabaram se suicidando anos depois, e a população foi enganada por um regime decadente que conseguiu, durante um bom tempo, instaurar a ideia de que era possível derrotar a Inglaterra. Mas o ataque firme e impiedoso da Marinha de Margaret Thatcher chegou até mesmo à Espanha e penetrou nos jogadores. A Argentina perdeu a guerra e foi eliminada pelo Brasil.
— Era o pior dos mundos.

