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Jardine sonha com estátua no México e explica recusas a clubes do Brasil

(UOL/FOLHAPRESS) - André Jardine se tornou o sonho de consumo de clubes do futebol brasileiro. Só neste ano, ele já foi procurado por Botafogo, Corinthians, Grêmio, Internacional, São Paulo e Vasco. Todos esbarraram na multa rescisória de US$ 3 milhões (R$ 16,1 milhões) ou na falta de um projeto consistente.

VEM ESTÁTUA AÍ?

Tricampeão mexicano, o treinador campeão da Olimpíada de Tóquio vive boa fase no América-MEX e quer continuar a trajetória vencedora na equipe. Contratado em junho de 2023, ele já é o técnico mais vencedor da história do clube.

A idolatria da torcida é tamanha que se discute a construção de uma estátua para registrar a passagem vitoriosa do brasileiro.

"Ter uma estátua é um sonho. Se um dia isso acontecer, vai ser um sonho realizado. Isso é sinal de que o trabalho tem sido bem feito. Mas eu não penso muito nisso", diz Jardine à reportagem.

"O América é o maior clube do México. Eu fiquei realmente surpreso por entrar nesse hall de ídolos do clube. Por toda a história e grandeza do América, eu achei que tivesse treinadores com mais títulos, mas isso só mostra como é difícil ficar muito tempo em uma equipe assim. A exigência é enorme e quando não ganha já é crise."

A estabilidade no México faz com que Jardine rejeite propostas de clubes brasileiros. Após o tricampeonato mexicano, ele renovou contrato, com um aumento da multa para US$ 3 milhões (R$ 16,1 milhões), valor que tem afastado o avanço das equipes do Brasil.

"Os clubes sempre surgem com aquela pergunta: 'como está a sua vida?', e eu sou muito sincero em dizer que estou bem e que tenho um contrato muito robusto por dois anos. A multa não é impossível de ser paga, mas acho difícil me tirar do América. É um clube que paga muito bem, que tem uma ótima estrutura e te afirmo que teríamos chances de ser campeões da Libertadores se disputássemos a competição. Eu vivo no México com o América o que o Palmeiras e o Flamengo vivem no Brasil", afirma Jardine.

'NÃO' AO BOTAFOGO

Todos os clubes que procuraram Jardine desistiram de uma negociação após saber o valor de multa. O único clube que decidiu ir adiante foi o Botafogo. A proposta, porém, não seduziu Jardine.

"O Botafogo botou as cifras na mesa e me ofereceu um contrato muito bom, superior ao que eu recebia na época. O clube vinha de dois títulos importantes, mas eu sabia que eles iam perder jogador. Eu já imaginava a dificuldade que o Botafogo teria de manter o nível do ano passado e isso pesou. Acho que a minha decisão naquele momento foi muito acertada", explicou.

A EXCEÇÃO DA REGRA

O sucesso de Jardine contrasta com a realidade da maioria de treinadores brasileiros. O setor vive uma crise no país diante da importação de vários estrangeiros. Entre os 20 clubes do Brasileirão, nove contam com técnicos do exterior.

Além de perderem mercado interno, a maioria também não tem tido aceitação no mercado internacional. Desde 2011, Sylvinho foi o único brasileiro a trabalhar em um clube europeu das cinco principais ligas do mundo (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália). O ex-lateral treinou o Lyon em 2019.

No século, a lista é somada por apenas cinco nomes: Luiz Felipe Scolari (Chelsea), Vanderlei Luxemburgo (Real Madrid), Leonardo (Inter de Milão e Milan), Ricardo Gomes (Monaco e Bourdeaux) e Abel Braga (Olympique de Marselha).

Para Jardine, um dos pontos que pesa contra os brasileiros é a dificuldade no aprendizado de uma nova língua e a falta de comunicação com os atletas. "O grande diferencial do treinador é a comunicação. Ele precisa saber se comunicar com o time, com a comissão técnica, torcida e diretoria. É como se o treinador fosse um vendedor de sonhos, de objetivos. Não tem jeito. Você precisa dominar bem a língua para ter sucesso", disse.

"O mais importante em um novo país é se adaptar ao local. Você tem de ter a humildade para poder entender a liga, o clube, a língua, o torcedor. Depois disso, você vai poder colocar a sua visão de jogo em ação. É preciso se adaptar, não o contrário. Nós somos os 'invasores', digamos assim. Não é o contrário. Eu procurei entender e respeitar bastante a cultura do clube."

Ele se aprofundou no espanhol graças a Diego Aguirre, uruguaio que comandou o São Paulo quando o brasileiro era auxiliar. Quando chegou ao San Luís, do México, em 2022, ele já estava adaptado ao idioma.

"O Aguirre me recebeu quase como um filho no São Paulo. Eu aprendi muito com ele, desde a construção de treino até a preleção. Como a comissão dele era toda uruguaia, eu passei a entender bem o espanhol. Quando cheguei no México, precisava mais destravar mesmo, porque eu já entendia a língua pelo trabalho com o Aguirre", diz.

SÃO PAULO NA LEMBRANÇA

Mesmo que a distância, André Jardine segue atento aos passos do futebol brasileiro. Além dos jogos mais importantes, ele tem um atenção especial ao São Paulo, clube que o projetou no profissional, com uma curta passagem no início de 2019, além dos títulos nacionais pela base do tricolor.

"Eu tenho um carinho imenso pelo São Paulo. Muito grande mesmo. O São Paulo tem uma das melhores bases do Brasil. Uma pena que muitos não jogaram muito tempo no profissional para dar um retorno esportivo maior e aumentar também o retorno financeiro. O São Paulo deveria estar no nível do Palmeiras e do Flamengo pela torcida que tem", afirma Jardine.

"É o único tricampeão mundial, tem uma história que fala por si. Para mim, o São Paulo continua sendo a referência de estrutura no Brasil. Eu torço muito para que o São Paulo volte a ser forte de novo. Forte como era o São Paulo do Telê, do Muricy, time que entrava em qualquer competição para ganhar. Mas isso só vai acontecer quando tiver uma sequência de boas gestões."

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