Início Esportes Gostinho russo que mora ao lado da seleção
Esportes

Gostinho russo que mora ao lado da seleção

Envie
Envie

Um casal de imigrantes russos que escapou de duas revoluções do século XX encontra-se com um engenheiro pernambucano em uma área rural de Teresópolis. Essa não é uma introdução para uma piada, mas sim o começo da história do estabelecimento de uma referência da culinária do país anfitrião da Copa do Mundo de 2018 na cidade que recebe a preparação da seleção.

Era 1964 e o Brasil estava em ebulição por causa do Golpe Militar. Foi nesse contexto que Hisbello Campos chegou a um lote teresopolitano para construir uma casa, a pedido da mãe, que queria deixar o caos do Rio para viver na tranquilidade da serra. O que ele não sabia era que os moradores da residência ao lado eram Mikhail e Eupraxia Smolianikoff, que, já perto dos 70 anos, viviam uma crise financeira e tinham muita história para contar. No Brasil, ele virou Miguel e ela virou Irene. Dona Irene, nome do que se tornaria o restaurante russo mais famoso da região.

O estabelecimento, administrado atualmente por Hisbello, de 88 anos, e a esposa dele, Maria Emília, de 84, é um reduto de uma tradição do começo do século passado. Um vislumbre das refeições da nobreza dos tempos dos czares, da qual Irene e Miguel, capitão da guarda, faziam parte.

A refeição é uma maratona de quatro etapas, que leva cerca de duas horas, regada por uma vodka ímpar. A receita,secreta, foi trazida por Miguel e hoje é administrada por Maria Emília. Para beber, o brado característico: Na Zdarovia!

O restaurante já “vivenciou” três títulos mundiais do Brasil e desfruta da maturidade, sobretudo quando se compara à Granja Comary, inaugurada em 1987. Um ponto em comum é que ambos, em proporções distintas, foram “impulsionados” pelo regime militar. Vale lembrar que o convênio para construção do centro de treinamentos da CBF foi firmado em 1983, quando os militares ainda estavam no poder (o CT foi batizado com o nome de Almirante Heleno Nunes).

Hisbello é um desinibido contador de histórias, mas admite que, a essa altura da vida, nem todas são verdade.

— Eu não lembro de tudo. Eu invento. Se você escutasse as histórias que já contei sobre Pedro, o Grande, e Catarina II... — disse ele.

Mas o pernambucano diz ser real o relato da união com a família Smolianikoff. A rota do casal russo rumo ao Brasil começou quando a revolução estourou, em 1917. O jeito foi fugir. Ambos de origem siberiana, escaparam via Mongólia e estabeleceram-se na China por duas décadas. Mas os alicerces foram abalados por outra revolução: a ascensão de Mao Tse Tung no poder. Japão, Cingapura e Filipinas foram alguns dos países pelos quais Mikhail e Eupraxia passaram até se tornarem Miguel e Irene no Brasil.

Quando o fatídico encontro no loteamento de Teresópolis aconteceu, Hisbello já falava russo — e isso assustou a nova vizinha, que viria a falecer em 1995, com 95 anos, sete anos após o marido. Tudo porque o então engenheiro da Light teve aulas em um curso ministrado no Rio por uma professora de 90 anos. A curiosidade pelo idioma surgiu com uma pesquisa sobre projetos de eletrificação rural que obtiveram sucesso. Rússia, Estados Unidos, Canadá e Austrália foram os países encontrados.

Mas a paixão pela culinária, pela cultura e pelos vizinhos russos nunca foram motivos suficientes para que Hisbello visitasse o país que receberá a Copa Pelo que já ouviu e leu, o comportamento da polícia local:

— Foi treinada para esmagar o povo e não para proteger o povo.

Siga-nos no

Google News