Fator Biles faz EUA desabarem na ginástica artística das Olimpíadas

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

03/08/2021 16h37 — em Esportes

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A decisão de Simones Biles, 24, de desistir de quase todas as finais da ginástica artística devido à sua saúde mental gerou impacto direto na campanha dos EUA na modalidade nos Jogos de Tóquio.

A competição olímpica da ginástica artística terminou nesta terça-feira (3), com Biles conquistando o bronze na trave, na última final feminina. Dominantes nesse esporte, os americanos ganharam apenas 2 ouros, 2 pratas e 2 bronzes, ficando em terceiro lugar na classificação geral da modalidade, atrás de China (3 ouros, 3 pratas e 2 bronzes) e Comitê Olímpico Russo (2 ouros, 2 pratas e 3 bronzes).

Há cinco anos, no Rio, já com Biles como principal estrela, os EUA levaram 4 ouros, 6 pratas e 2 bronzes, e o país ficou em primeiro lugar na classificação geral. Todos os títulos olímpicos tiveram a participação de Biles: três em disputas individuais (salto, solo e individual geral) e o ouro por equipes.

A equipe masculina dos Estados Unidos, por outro lado, não ganhou nenhum ouro em 2016. Em Tóquio-2020, os ginastas americanos foram ainda piores e voltam para casa sem subir ao pódio.

Biles chegou ao Japão como favorita para conquistar cinco ouros: individual geral, equipes, trave, salto e solo. Só não era a mais cotada nas barras assimétricas, que seguiam como seu calcanhar de Aquiles.

Se tivesse atingido a façanha, igualaria os ouros da soviética Larisa Latinina, a maior campeã da ginástica artística em Olimpíadas, e manteria os Estados Unidos como a principal potência da modalidade.

Outros fatores fora dos tablados ajudaram a aumentar os holofotes sobre Biles. Ela disputava a primeira Olimpíada após a aposentadoria de Usain Bolt (atletismo) e Michael Phelps (natação), apontados por muitos como os maiores nomes da história dos Jogos. O palco estava armado para que ela se tornasse a grande estrela em Tóquio. "Nâo sou o próximo Bolt ou o próximo Phelps. Sou Simone Biles", afirmava a ginasta americana, ainda nas Olimpíadas do Rio, tentando fugir desse tipo de comparação.

No Japão, ela desistiu de participar da final por equipes logo após executar um salto considerado ruim. Sem ela no time, os EUA acabaram com a prata, em competição vencida pelo Comitê Olímpico Russo.

A ausência de Biles em provas individuais abriu espaço para outras ginastas brilharem, como Sunisa Lee, campeã do individual geral, e a brasileira Rebeca Andrade, prata na mesma prova e ouro no salto.

Biles viveu um ciclo olímpico acidentado. E não foi apenas pelo adiamento dos Jogos Olímpicos devido à pandemia. Ela foi uma das ginastas que denunciaram Larry Nassar, ex-médico da seleção de ginástica dos Estados Unidos, condenado a 60 anos de prisão por abusar sexualmente de mais de 140 mulheres.

"A maioria de vocês me conhece como uma garota feliz, graciosa e cheia de energia. Mas ultimamente tenho me sentido arrasada e, quanto mais tento abafar essa vozinha dentro de minha cabeça, mais alto ela grita. Não tenho mais medo de contar minha história. Também sou uma das sobreviventes dos abusos sexuais por parte de Larry Nassar", escreveu a ginasta no Twitter. Ela chegou a faltar em audiência do caso dizendo não estar "preparada emocionalmente para enfrentar Larry Nassar de novo".

Em junho, a imprensa americana revelou que Biles foi uma das signatárias do processo civil contra a federação de ginástica e o Comitê Olímpico e Paraolímpico dos EUA. Na ação, as ginastas afirmam que as entidades falharam no dever de proteger as atletas e as acusam de conivência com os abusos de Nassar.

Não bastasse isso, mais problemas nos tribunais abalaram a saúde emocional de Biles. Tevin Biles-Thomas, um de seus irmãos, foi acusado de homicídio culposo e agressão em tiroteio ocorrido em Cleveland, às vésperas do Ano Novo de 2018. Após discussão e troca de tiros, três homens foram mortos.

Biles chegou a publicar no Twitter, em 2019, que estava "lutando contra a prisão do irmão" e que seu coração "doía pelas vítimas e suas famílias". Finalmente, em junho, um mês antes dos Jogos, Tevin foi inocentado. Segundo a juíza Joan Synenberg, a promotoria não conseguiu provar a culpa do acusado.

Assim, diante de muitos abalos emocionais durante o ciclo olímpico, a maior estrela da ginástica atual mostrou o lado humano em Tóquio.


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