Chayenne odiava pular barreiras e treinou em pista menor, mas chegou a Tóquio

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

30/07/2021 10h07 — em Esportes

TÓQUIO, JAPÃO (FOLHAPRESS) - Virou rotina. Cada vez que Chayenne Pereira da Silva saía para a rua no bairro de Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, ouvia as conversas das pessoas.

"É ela? É ela?"

Em seguida, vinham cumprimentá-la.

"Minha mãe me abraçava a toda hora. A gente está vivendo um momento muito feliz", afirma a atleta de 21 anos.

Não era para ser agora. O objetivo era Paris-2024, mas a garota que teve dificuldade para começar a correr, se manter no esporte e sofreu até para entrar no programa Bolsa Atleta e ter alguma renda, se classificou para os 400 m com barreiras nas Olimpíadas de Tóquio.

Na noite desta sexta-feira (30), ela disputa sua primeira qualificatória no Japão.

Em 25 de junho, no Campeonato Paulista de Atletismo, uma das últimas cartadas para fazer o índice olímpico da prova, dos 55s40 necessários, ela fez o percurso em 55s15. Assim que olhou no tempo, começou a gritar, caiu no chão e no choro.

Correu ainda mais em seguida, mas para abraçar a técnica Marsele Mazzoleni, a professora de educação física que, no ensino fundamental, percebeu que a menina magrinha poderia ser atleta.

"Para ela passar por aquelas dez barreiras, passou por muitas outras. A história dela é comum à de tantos outros. É surgir dentro de uma comunidade, de ouvir que não pode, que as coisas ali não acontecem. Que a oportunidade não vai surgir. É a dificuldade de continuar acreditando. É como se você batalhasse apenas para poder continuar batalhando", diz Marsele.

"Na hora [em que eu vi o tempo], eu gritei. A gente [ela e Marsele] passou por muita coisa. Nunca teve nada. A gente só teve fé e trabalho. Merecíamos muito. Foi o grito de toda uma luta. Um grito de alívio e de liberdade", afirma a corredora.

Quando Chayenne despontou na rua de sua casa, ao voltar de São Paulo com a vaga olímpica na bagagem, sua família começou a soltar rojões no bairro.

Chayenne treina na Vila Olímpica de Santa Cruz e tem de disputar a pista com outros atletas e eventos marcados para o local. Faz musculação na academia do lugar que, segundo ela, tem três aparelhos. A atleta já perdeu as contas das vezes em que Marsele tirou dinheiro do bolso para ajudá-la em viagens para competir. Para fazer o índice, a treinadora a enfiou em um carro e dirigiu até São Paulo.

A corredora hoje ri da primeira experiência na prova que a levou a Tóquio. Lembra que foi em 2015 e tinha 15 anos. Achou horrível ter de pular barreiras e avisou que não faria mais aquilo. Logo mudou de ideia. Ela ainda não acreditava na vida de atleta. Quando estava com preguiça ou se chovia, faltava aos treinos. Ou simplesmente "dava migué", como diz.

Em 2016 começou a levar sério porque os resultados eram bons e começou a ser incentivada. Chayenne agora também recebe apoio da Marinha.

"As coisas começaram a acontecer agora. A gente tinha de tirar [recursos] não sei de onde. Treinava em uma pista de 250 metros. Era difícil", confessa.

O plano de corredora e técnica sempre foi estar em um pódio olímpico, mas em Paris-2024. Marsele acreditava que essa estratégia passava por também se classificar para Tóquio, mas não disse nada a Cheyenne para não colocar pressão. Mesmo que mais de uma vez sua pupila tivesse dito sentir que conseguiria o tempo necessário para se classificar.

"Uma vez falei que eu acreditava que estaria em Tóquio. Perguntaram se eu não me achava muito nova para isso. Disse que não, não achava. A gente trabalhou acreditando no nosso trabalho. O foco sempre foi 2024 e ainda é. Mas tudo muda a partir de agora. Ela é atleta olímpica com três anos de antecedência."

Ansiosa e hiperativa por natureza, Chayenne Pereira sabe até o que fará antes da prova. Vai ouvir música, talvez jazz, para relaxar. Ou qualquer outro ritmo que não seja rock. Na pista do estádio Olímpico de Tóquio, se lembrará de quando o atletismo virou algo sério em sua vida.

"Foi ainda em uma competição da escola. Eu estava no pódio e tocou o hino nacional. Meu coração disparou e comecei a chorar. 'É isso o que quero fazer', pensei. Ali eu entendi o que eu queria fazer da vida."


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