Candidato à presidência do São Paulo, Casares não garante Raí e Lugano

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

25/09/2020 3h04 — em Esportes

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Julio Casares, 59, viu o São Paulo campeão pela primeira vez quando tinha nove anos de idade. Foi em 1970, com o título do Campeonato Paulista, que encerrou um jejum de 13 temporadas sem conquistas, o maior da história tricolor.

Candidato à presidência do clube paulista na eleição que acontece em dezembro, Casares, se vitorioso, assumirá em 2021 um clube que não levanta um único troféu desde 2012, já que a gestão do atual presidente, Carlos Augusto de Barros e Silva (2015-2020), o Leco, se encerrará com a prateleira totalmente vazia.

Nove anos de seca, portanto. O mesmo tempo que levou para gritar "é campeão!" quando era criança. Para encarar esse novo desafio, ele precisa antes vencer o adversário Roberto Natel no pleito de dezembro –​ainda sem dia confirmado.

Em entrevista à reportagem, o ex-diretor de marketing do clube e membro do atual Conselho de Administração evita se colocar como o nome da situação para a cadeira de presidente e promete um choque de gestão que deverá afetar sensivelmente o futebol são-paulino.

Raí e Lugano, ídolos que hoje são dirigentes, não têm continuidade assegurada em suas funções a partir de 2021.

Executivo na área de mídia –é diretor da Record–, diz que abrirá mão do conforto que sua vida profissional lhe proporciona para poder se dedicar exclusivamente ao clube. Para ele, o São Paulo vive seu período mais desafiador desde a construção do Morumbi, inaugurado em 1960.​

Pergunta - Por que o torcedor são-paulino deve acreditar que o senhor será um bom presidente ou, no mínimo, melhor que seus antecessores?

Julio Casares - Primeiro porque nós temos uma história de vida e uma trajetória na iniciativa privada como gestor. Meu conteúdo profissional, de formação, e a minha prática de gestão na iniciativa privada, onde de orçamento, de meritocracia, de metas, de questões orçamentárias, de relações humanas e números, ela nos credencia junto com a minha história no São Paulo. O momento não requer, pela gravidade, nenhum tipo de aventura, requer certeza de pessoas que tenham experiência na gestão, preparo, iniciativa junto ao mercado. Nós elaboramos, debatemos há dez meses um plano de gestão. Então a nossa candidatura surgiu em consequência de um plano de gestão, onde nós vamos falar de compliance, gestão, meritocracia.

Um dos pilares que vocês apresentam é o da profissionalização. Mas o senhor também fala da importância de ter o abnegado participando do clube. Essas coisas se confundiram, por exemplo, quando um dirigente emprestou dinheiro para a contratação do Centurión e o São Paulo passou a ter uma dívida com ele. Como evitar esse tipo de situação com o abnegado?

JC - O nosso compromisso é com a profissionalização. Claro que haverá um diretor-executivo de futebol, o mesmo na base. São pessoas que cumprirão metas, como em qualquer empresa. Eles terão um fixo e um variável. Se não cumprirem a meta, serão questionados. Se o questionamento for se avolumando, serão trocados. É assim em qualquer empresa. Quando entra o abnegado? Por meio de câmaras setoriais. Elas vão ajudar que esse executivo tenha um conforto para que possa exercer o seu plano de gestão. Além desse episódio, as normas de compliance vão impedir que regras muito claras se confundam.

Há planos ou algum tipo de conversa para diversificar um pouco a diretoria do clube, dando por exemplo mais espaço à mulher?

JC - É fundamental a inclusão da mulher dentro da gestão e do espírito da gestão. Nós temos dois apoios públicos de mulheres são-paulinas, a Maurren Maggi, medalhista olímpica, e a Vanessa Menga, uma tenista, que nos apoiaram publicamente. A mulher tem uma sensibilidade diferente de nós homens. Ela toma conta de uma criança, cuida da gestão de uma casa e ainda trabalha fora como executiva. O homem, se você dá muita tarefa, ele se perde um pouco.

Nos últimos anos, o clube passou a contar com a venda de atletas formados em Cotia para tentar equilibrar a conta. O torcedor conseguirá ver esses jovens atuando por mais tempo no São Paulo?

JC - Hoje, no futebol brasileiro, os clubes vendem os jogadores muito precocemente porque precisam fechar a conta. Com o São Paulo não é diferente. O que nós precisamos para inverter esse círculo é cuidar dessa dívida [de R$ 538 milhões] que o São Paulo tem, que é grande, transformar o curtíssimo e o curto prazo em médio prazo, alongar o seu perfil, para garantir um custeio do dia a dia. Um jogador como o David Neres, que jogou poucos jogos no time principal, é uma pena, um negócio absurdo. Mas não dá para virar uma chave nesse momento e dizer que a partir de agora ele vai ficar dois anos.

Vamos tentar aliar um clube com garotos fortes da base e com uma promoção um pouco mais rápida, compor um time de cascudos, que tenha uma mentalidade vencedora, e ter duas ou três estrelas, que está no nosso DNA.

​A camisa do São Paulo, por exemplo, teve uma queda de faturamento de 50% nos últimos anos. Em 2015 o clube ficou sem patrocinador master por um período. O senhor faz alguma autocrítica do seu período à frente do marketing?

JC - O que acontece em clubes de futebol, e não é por má intenção, é que as pessoas não dão continuidade a um planejamento. Uma das coisas que quero implementar é um plano diretor de cada área. O marketing vai ter um plano diretor para dez anos. O meu mandato é de três, e ao próximo presidente é recomendável que ele siga esse planejamento. O São Paulo, na minha gestão, fez um licenciamento com a Warner, tinha produtos bem distribuídos, o Pernalonga vestiu a nossa camisa, era uma mudança de princípios. Esse contrato não foi renovado e voltamos à estaca zero, que é a relação do licenciado, é a idade da pedra. Não deu continuidade e por razões que eu também não entendo.

O Carlos Miguel Aidar dizia na eleição de 2014 que temia que o Morumbi virasse um Canindé. O São Paulo ganhou a concorrência de novas arenas, que passaram a ter shows, especialmente o Allianz. Como modernizar o estádio e trazer mais receita por meio dele hoje?

JC - O Morumbi vai fazer 60 anos agora em outubro. O metrô chegou há pouco tempo. Temos uma pressão pelo estacionamento, mas o metrô já é um bom caminho. Quando chegamos no marketing, vi aquele anel térreo, que era um setor marginal, e transformamos em um setor premium. Trouxe mais receita, trouxe a família para aquela região. O Morumbi, no Concept Hall, teve uma nova oxigenação. O que nós temos que fazer? Reagir. O São Paulo parou no tempo na questão do estádio. Eu quero colocar um gerente com uma visão de shopping center. E uma outra coisa: o São Paulo tem um estádio particular, quitado e muito grande. Os demais estádios, que são modernos e construídos com a afeição de arena, têm uma dívida a cumprir. Um tem um modelo, o outro tem uma dívida no setor público.

O senhor não se coloca como situação e nem como oposição, mas houve um rompimento com a figura do Leco. O que o senhor acha que pode ser aproveitado da atual administração, que vai embora sem títulos e com aumento da dívida?

JC - Eu sempre olho política para frente. Essa gestão, por tudo isso que você colocou, não foi exitosa. Por isso nós teremos uma gestão com mudanças claras de atitude. Isso eu falo sem nenhum julgamento de valor a pessoalmente ninguém. É preciso virar a cultura, ter um choque de gestão, austeridade financeira, realinhamento da dívida. É talvez o momento pós-construção do estádio mais desafiador. Porque quando o São Paulo construiu o estádio, ele abdicou de títulos, de grandes investimentos, e fez essa casa maravilhosa. Este momento também é desafiador. E é por isso que estamos nos oferecendo para ajudar.

Faltou explicar situação e oposição. Realmente não existe mais. Existe uma nova geografia política. O meu coordenador de campanha é o ex-presidente, multicampeão, José Eduardo Mesquita Pimenta, que concorreu contra o Leco. Portanto eu tenho o Olten Ayres [de Abreu], para o Conselho Deliberativo, que é de uma oposição raiz, e eu mais alinhado à situação desde a época do Marcelo Portugal Gouvêa. Nós temos diretores que estão com o presidente Leco e estão apoiando a chapa do lado de lá. Então não dá para falar de oposição ou situação. E isso é bom, porque o torcedor quer hoje alguém que resolva.

Como fazer esse choque de gestão com dois ídolos do São Paulo como Raí e Lugano?

JC - Eu respeito muito os profissionais que lá estão, desde a comissão técnica até seus dirigentes. Entretanto, nós temos uma filosofia. Se eles puderem observar essa filosofia e em dezembro, no momento oportuno, olharem esse plano e estiverem nesse espírito, eu não anulo ninguém. Entretanto, a expectativa é que haja uma mudança.

O senhor conta com o Daniel Alves? Acha possível explorar comercialmente a sua figura para que a conta seja menos custosa?

JC - Conto com o Daniel Alves sim. É um líder, um exemplo. Um cara campeão do mundo, veste a nossa camisa. O que nós precisamos rever para dentro do São Paulo é uma expectativa da atuação do marketing, primeiro das peças que aqui estão, e das futuras peças que poderão chegar. Você vai olhar as redes sociais dos ídolos, eles têm milhões e milhões de seguidores. Se você transformar isso, essa rede pessoal, com a rede do São Paulo e juntar essas forças, você pode ter produtos importantes de receita onde todos ganham. Queremos contar com o Daniel liderando esse movimento, esse trabalho e a nova filosofia que será implementada.

Fernando Diniz: te agrada o trabalho?

JC - Ele é um técnico de convicções, um técnico trabalhador. O São Paulo está muito bem pontuado [no Campeonato Brasileiro]. É cedo ainda, por isso eu não dou opinião sobre jogador, técnico ou dirigente, porque eu seria injusto. Os caras estão trabalhando. Eu defendo sempre a permanência e a longevidade de um sistema. Gosto muito da filosofia dele, mas claro, vai depender muito do que vai acontecer. É um técnico honesto, correto, trabalhador, e isso já é um bom indício de que ele pode continuar trabalhando no São Paulo.

Você já comentou o seu desejo de trazer o Muricy de volta ao clube...

JC - Depois da vitória [na eleição], eu vou ligar primeiro para o Muricy. Nunca conversei com ele, hoje o Muricy é uma pessoa que tem seus compromissos familiares e profissionais, mas sempre enxerguei ele como um coordenador de futebol, uma pessoa muito próxima do técnico, da comissão técnica e da diretoria. Isso vai ser conversado no tempo adequado até porque tenho que respeitar as pessoas que lá estão. O que nós queremos é trazer a mentalidade vencedora. O Muricy espelha muito isso.

O streaming pode ser uma ferramenta para você formar uma carteira de clientes?

JC - A carteira de clientes é formada por um novo formato de sócio-torcedor, por inovação. Nós vamos ter uma equipe de eSports.É um mercado que tem dinheiro, tem uma militância de fãs e de jovens muito grande. Acima de tudo, o São Paulo precisa estar aberto a novas plataformas. O streaming é uma realidade, mas também é inegável o poder e a força da TV aberta. Primeiro, o São Paulo vai honrar os contratos que tem dentro desses canais de transmissão, e também olhar que seu conteúdo seja valorizado através do streaming. ​

O São Paulo terá o sócio-investidor. Hoje, pela lei, a pessoa física ou jurídica pode investir em modelos de apoio ao esporte e o que ela fosse pagar do imposto de renda, desde que o governo autorize cada demanda de apoio ao esporte em que você se inscrever. Com isso, ela coloca o dinheiro no clube de futebol, para que ele possa formar jovens, trabalhar na cultura, na educação, e também ter [outras] modalidades. Isso vai desafogar bastante.

Você fez parte das duas últimas gestões do São Paulo Futebol Clube e em ambas houve ruptura. O Aidar foi o pior presidente da história do São Paulo?

JC - A gestão do Aidar foi uma gestão muito ruim. Ele foi campeão brasileiro em 1986 como presidente. A perspectiva era de que pudesse ser outra vez um bom presidente. Mas, infelizmente, foi uma gestão turbulenta, que não chegou ao seu final. É até difícil avaliá-la. Eu não sei julgar qual a pior. Eu não posso julgar ninguém, não tenho esse dever comigo mesmo. Acho que a avaliação fica para a história. O Juvenal deixou grandes conquistas, o Marcelo Portugal também. O Leco não teve a mesma sorte na área no futebol, é uma pena, porque ele é um são-paulino que queria muito esse resultado.