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Ao contrário da Europa, clubes no Brasil têm dificuldade de reduzir salários

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Os vilões da pátria amada


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ceará, Fortaleza, Grêmio e Atlético-MG decidiram reduzir os salários dos elencos durante a pandemia de coronavírus que paralisou o futebol brasileiro. Os clubes nordestinos e o gaúcho entraram em acordo com jogadores e o sindicato da categoria. O time mineiro, por sua vez, tomou decisão unilateral.

A maioria dos demais times da Série A do Campeonato Brasileiro, consultados pela reportagem, considera a possibilidade ou têm estudos em andamento para seguirem o mesmo caminho.

Das 20 equipes da elite nacional, apenas Coritiba e Red Bull Bragantino descartam, por ora, diminuir salários.

Ceará e Fortaleza vão pagar 75% do valor da carteira de trabalho referente a março no próximo dia 20 de abril. Os 75% de direitos de imagem, no último dia do mês. Os 25% restantes dos dois contratos serão parcelados a partir de julho.

O CEO do Grêmio, Carlos Amodeo, não revela o percentual, mas afirma que o clube já chegou a um acordo com o elenco para diminuir a folha salarial durante a paralisação. Ele afirma que o acordo é parte de um plano financeiro emergencial que estima prejuízo de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões se o futebol não retornar até 30 de junho. Se a paralisação durar mais, seriam de R$ 8 milhões a R$ 10 milhões por mês.

O Atlético-MG decidiu reduzir em 25% os salários dos atletas profissionais, diretores e integrantes da comissão técnica.

"Se alguém estiver insatisfeito, a gente faz o desligamento", disse o presidente do clube, Sérgio Sette Câmara.

A decisão aconteceu depois de o lateral Guilherme Arana, contratado este ano pelo clube, ter se mostrado contrário à medida.

"Acho que não justifica. Eu acho que a gente, jogador, não tem nada a ver com isso. Temos que seguir as coisas que o pessoal vem passando na TV, o que os doutores falam. Essa redução de salário, na minha opinião, não convém, porque é o mundo que está paralisando", disse ele, na última quinta (26), à Fox Sports.

A Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais), entidade nacional dos jogadores, rejeitou a proposta da CNC (Comissão Nacional dos Clubes) de diminuir em 25% os salários de todos os jogadores. Houve equipes que partiram para acordos com sindicatos estaduais ou com os próprios integrantes dos elencos.

Em acordo com a CBF, os times deram 20 dias de férias coletivas para os jogadores, válidas a partir desta quarta (1º) e prorrogáveis por mais 10 dias. Se o futebol não tiver voltado no início de maio, os demais clubes da Série A estudam praticar as reduções salariais, enquanto a CBF se comprometeu a buscar com o governo federal um acordo quanto ao pagamento das prestações do Profut, o programa de parcelamento das dívidas das agremiações.

"Este mês de março vamos ter de negociar. Depois veremos o que será feito. [Negociar a redução de salários] É uma possibilidade. Ficou acertado que os clubes estão liberados para ter essa conversa com os jogadores individualmente. Não estamos com essa grana toda em caixa e vivemos no aperto, mas pagando em dia, com exceção do direito de imagem, que atrasou dois meses", afirma José Carlos Peres, presidente do Santos.

Clubes com as maiores folhas de pagamentos do futebol nacional, Palmeiras e Flamengo afirmam que vão pagar os salários de março normalmente, mas que, se a situação não mudar, há estudos sobre o impacto financeiro da ausência de receitas a partir de maio. Um dos caminhos possíveis é negociar uma redução temporária.

Segundo a assessoria de imprensa do São Paulo, "todos os caminhos são possíveis", mas o assunto está em análise. O mesmo vale para Botafogo e Fluminense -de acordo com o clube tricolor, diretores e gerentes reduziram seus salários em 15%.

O Bahia afirma que uma decisão será tomada nos próximos dias, enquanto o Corinthians diz apenas que o departamento de futebol profissional estará de férias até o dia 20. O Internacional diz que está analisando a situação para os próximos meses e que, por enquanto, a única definição foi dar férias aos atletas.

Atlético-GO e Goiás enviaram uma proposta conjunta ao sindicato dos atletas no estado de corte de 50% nos vencimentos, mas a oferta foi rejeitada e os clubes devem partir para negociações individuais. O Sport deseja que o assunto seja consenso do CNC (Conselho Nacional dos Clubes), mas pretende falar com o elenco.

"Sem comentários! Aguardamos pacientes [o fim da pandemia]", disse o presidente do Athletico-PR, Mario Celso Petraglia.

O Vasco não respondeu à consulta da reportagem.

"Para a redução, tem de haver um acordo. Se o Atlético-MG fizer isso individualmente, eles estão perdidos e sabem disso. A CBF tinha de abrir o cofre e ajudar os clubes. Ela é milionária", afirma a advogada Gislaine Nunes, especialista em legislação trabalhista e esportiva.

Segundo a Constituição, salários só podem ser reduzidos por meio de acordo com entidades sindicais. O governo federal planeja uma Medida Provisória autorizando redução de jornada de trabalho e salários em até 50% durante a pandemia. Esta entraria em vigor imediatamente, mas teria de ser aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para virar lei.

"Não dá para ser goela abaixo, só com acordo coletivo. Imposição a gente não topa. Se os clubes insistirem nisso, entraremos com ação e pode ficar mais caro para o clube por causa de multa. Tem de sentar para resolver", afirma Rinaldo Martorelli, presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo.

Na Europa, alguns dos principais clubes do continente já colocaram medidas em prática. A Juventus, por exemplo, cortou os salários de seus jogadores e do técnico Maurizio Sarri pelos próximos quatro meses. Com a medida, a equipe de Turim espera economizar 90 milhões de euros (R$ 514 milhões).

O Barcelona, após dias de negociação, conseguiu chegar a um acordo com os atletas para a redução dos salários em 70%, incluindo o de Lionel Messi.

Jogadores de Bayern de Munique e Borussia Dortmund também reduziram seus ganhos em trato com a diretoria. No caso do Dortmund, os atletas doaram parte dos salários para ajudarem a manter os empregos dos cerca de 850 funcionários do clube.

Há casos europeus, porém, em que a decisão foi vertical. Na Espanha, as diretorias de Atlético de Madrid e Espanyol colocarão em prática um instrumento legal chamado Erte (Expediente de Regulação de Emprego Temporal), que permite a uma empresa, diante de causas de força maior (como uma pandemia, que afeta o trabalho), reduzir ou suspender a jornada de funcionários e, consequentemente, seus salários.

O Tottenham também anunciou redução de 20% dos salários de 550 funcionários entre abril e maio, não incluindo jogadores e comissão técnica.

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