Em meu último artigo no início dessa semana, mostrei a fadiga dos que tentam se perpetuar no poder, mas não expressei minha opinião sobre tempo para políticos, síndicos e quem exerce poder por voto, é simples, é só acabar com reeleição, aumentar o mandato dos ocupantes, e votar consciente. Relembro um filme francês antigo, dirigido por André Cayatte, tem como título “Noas Somes Tous des Assassins” (Somos Todos Assassinos). É um filme de tese, como na época era nomeado e busca mostrar o perigo das injustiças que rondam a adoção da pena de morte. Porém, vai mais longe e defende a tese de que toda a sociedade é responsável pelos comportamentos desviantes de seus membros. Pensando na sociedade brasileira atual, baseando-nos na observação dos fatos expostos na mídia, concluímos que, como dizia Cayatte, se não somos todos assassinos, somos todos cúmplices. O crime de corrupção, sobretudo o da corrupção nas altas esferas, e quando se fala de altas esferas é nos píncaros da administração pública e da sociedade civil, virou endêmico. Empresários, magistrados, legisladores, administradores estão envolvidos nas denúncias que, em vão, a mídia oferece.
O escândalo de hoje serve de borracha para apagar o de ontem. E, levianamente, esquecemos os que ficaram para trás, que canalizaram o dinheiro suado dos impostos pagos pela classe média para o bolso de alguns abonados. O valor que escorre no ralo da corrupção é estimado em 30 bilhões. E a sociedade brasileira mesmo com todas essas manifestações que aconteceram e acontecem, continua omissa, apática e por isso mesmo conivente. Em todas as cidades, lembrando aqui especialmente a nossa, aumenta a taxa de mortalidade em assaltos, apesar do programa Ronda nos Bairros. A discussão política que domina e chega aos jornais não leva em conta as necessidades da comunidade, sendo apenas: quem será o candidato para os cargos majoritários nas eleições vindouras? Qual o índice de aumento de salário do Poder Executivo e Legislativo? Só interessa a cada um o próprio destino político, nem sequer o de seu partido, pois mudam de lado a cada eleição. São de um individualismo feroz e o de um descaso evidente com os interesses sociais.
O ensino básico público no Brasil foi reprovado, e a informação passa ao largo das preocupações da sociedade. Mas é essa educação, atabalhoada, mal ministrada, mal remunerada e mal digerida, que vai gerar já no futuro e já está gerando no presente, os trombadinhas, os aviões do tráfico, os meninos de rua que, sem condições e preparo, não encontram como se encaixar no mundo do trabalho. Muitos, enquanto alunos da escola pública, já estão no mundo do crime, em assaltos à mão armada, fato testemunhado por professores do Centro e da periferia. Assim, a geração dos bandidos atuais, será substituída por outra mais jovem, mais preparada e mais aguerrida, pelos que sobreviveram à guerrilha urbana.
Somos todos cúmplices e coniventes, porque nos omitimos. Nunca estivemos tão indignados, mas, sempre estivemos sendo roubados, surrupiados em nossos direitos mais básicos de viver dignamente. E aqui finalmente relembro uma frase de Victor Hugo em os Miseráveis: “Os grandes são grandes porque talvez os seus súditos estejam de joelhos”.
Espaço Crítico
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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