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O Ano Novo


Por Flávio Lauria

26/12/2023 9h58 — em
Espaço Crítico



2023 já era, virou passado, daqui a uma semana não vale mais nada. Afinal, quem se importa com um ano cujo último mês lhe flagra os estertores? Pior ainda, por essa altura do calendário ninguém faz mais nada. É tudo pretexto para festejar. É a loucura das ruas! Chuva, gente trançando por todos os lados, um empurrão aqui, uma peitada ali, a trombada lá, envolveu três, quatro carros, o tráfego que mal andava parou de vez, o Chuva, gente trançando por todos os lados, um empurrão aqui, uma peitada ali, a trombada lá, envolveu três, quatro carros, o tráfego que mal andava parou de vez, o pivete levou a bolsa da mulher desprevenida,  pivete levou a bolsa da mulher desprevenida, de quebra deu de encontro com o aposentado, que foi lançado ao chão, com os indultados de Natal das penitenciarias, soltos e cometendo as maiores atrocidades, e eis que todos, de repente, se dão conta de que deixaram de fazer alguma coisa e, excitados, se põem a campo para colocar a situação em dia. É a vez do Ano Novo, é preciso celebrá-lo, ceias, bebidas e presentes, uma azáfama extenuante. O ano moribundo, coitado, antes de morrer ficou sepultado, entre lembranças de alegrias e de momentos desditosos essa trama toda que constitui a rotina do viver. Agora é esperar que a afobação sossegue, que se assente a poeira para se pensar sobre o que virá. O ano vindouro, que sempre começa tarde, como todos os seus antepassados nunca antes do carnaval, também vai acabar mais cedo, com as eleições de outubro. É hora de  aliviar a tristeza, dar trégua à amargura, tolerar o erro, conviver com a fraqueza, sepultar o ressentimento e, especialmente, avivar expectativas por mais tênues que sejam. Instante de aceitar, aproximar, perdoar, esquecer os agravos, renovar as esperanças. Somente quando é chegado o tempo de amar o seu amor, o Homem então pode encontrar-se com a sua eternidade. Aquele ser humano que vivenciou uma existência amorosa, alcançou a plenitude nos seus momentos... Felizes foram aqueles que provaram do sabor do amor. É um novo tempo, como dizem os poetas, mas existiria mesmo o novo dia, um novo tempo? O que nos traz a sensação do (re)começo, se não a correnteza da existência, e de que momentos foram vividos com angústia ou gostosamente – no mais ou menos das vezes? Acredito que as emoções negativas fazem mal ao espírito e sombreiam a vida. Se impossível esquecê-las de todo, tento, ao menos, não lhes conceder importância devastadora. Há muito de bom e de positivo para ser absorvido durante a nossa caminhada e ainda neste fim de ano, início de outro. Cito, como exemplo, a empatia pelos problemas e frustrações de outras pessoas, sejam elas próximas ou afastadas de nós. O destino, essa coisa imponderável, que só pode ser entendida retrospectivamente, não passa de um oceano de presságios, descaminhos e sonhos pela vida afora, pois navegar é preciso. Que o Ano Novo cumpra esta profecia, ontologicamente, para todos os mortais. Assim seja. Feliz 2024.

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