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Mulher e democracia: os valores da civilidade e a conquista da equidade


Por Flávio Lauria

18/06/2022 9h42 — em
Espaço Crítico


Foto: Reprodução/Pixabay

Dizem os médicos - e as estatísticas provam - que a saúde de uma família pode ser avaliada pela saúde da mulher. Faz tempo que os sanitaristas descobriram que em geral, mas especialmente entre os pobres, se a dona da casa estiver com o organismo em ordem, é provável que o chamado organismo familiar, a começar dos filhos menores, também esteja.

Partindo daí, pode-se apostar - e o Afeganistão e outros menos votados no noticiário não deixam ninguém mentir - que a mesma relação vale para a democracia, para o funcionamento de um sistema social como fator de bem-estar coletivo. Ou seja, quanto menor for a distância entre homens e mulheres, em matéria de direitos e oportunidades, no sentido pleno desses conceitos, no papel e na prática, tanto mais livre, justa e democrática será uma sociedade.

Dito de outro modo ainda, à parte quaisquer outros fatores que se possam imaginar, quanto mais satisfeita estiver uma população feminina com o seu papel social e com a sua participação na esfera pública - quanto melhor, portanto, for a sua "saúde cívica" - tanto mais integrada deverá estar a população do país, e menos motivos terão os seus habitantes para se hostilizarem uns aos outros.

É possível demonstrar que essa correlação existe, usando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) construído pelas Nações Unidas, considerado o mais preciso termômetro que já se inventou para medir a qualidade de vida de um povo. O índice avalia a situação de 174 países, com base em dados sobre expectativa de vida, grau de alfabetização e número de anos de estudo da população adulta, e renda por habitante.

A ONU prepara também uma versão do IDH que incorpora as diferenças entre homens e mulheres em cada um desses itens, acrescentando os dados sobre participação das populações masculina e feminina na renda nacional. Pois bem. Dos dez países que lideram o ranking mundial no IDH - Canadá, França, Noruega, Estados Unidos, Islândia, Finlândia, Holanda, Japão, Nova Zelândia e Suécia - oito também lideram o ranking do que se poderia chamar Idis (Índice de Desenvolvimento da Igualdade Sexual), embora não necessariamente na mesma ordem.

Do primeiro rol, não entram no segundo o Japão das gueixas e dos quimonos e, por motivos insondáveis para este articulista, a ultra avançada Holanda, substituídos pela Austrália e a Dinamarca. O Canadá leva o ouro também na segunda modalidade (O Brasil está no 62º lugar na categoria geral e em 56º na específica).

Levando o argumento um pouco mais longe, é o caso de dizer que a história da civilização, na acepção primeira dessa palavra - que de modo algum se confunde com as expressões materiais do engenho humano, mas tem tudo a ver com a presença dos valores da civilidade, o respeito recíproco entre os membros de uma população -, é também a história da conquista da equidade entre os sexos. (Ou de gênero, como se fala hoje em dia, desde que as feministas americanas resolveram trocar sex por gender) Isso vale para o retrospecto de cada país e para comparar a trajetória de um país com a de outro.

Pelo menos nas democracias onde o Estado fica numa ponta e as igrejas na outra, todos são livres para achar que Deus existe, não existe - ou nenhuma das anteriores. Mas uma coisa é certa: da mesma forma como aprenderam a usar as religiões que criaram como pretexto para se exterminarem reciprocamente, os homens da espécie também delas se prevaleceram para pôr as mulheres no lugar que acharam devido - o de seres de segunda classe.

A opressão sancionada pela fé atinge o auge, como se sabe, nos fundamentalismos de todos os credos. Mas, nesse departamento, ninguém parece bater os talibãs afegãos e os wahabitas da Arábia Saudita. Os cientistas sociais que perdoem a heresia, mas só mesmo Freud e sua turma para explicar essa mistura patológica de medo e ódio da mulher, que leva os seus algozes, em nome de Deus ou da tradição, a degradarem o espírito e o corpo feminino, com requintes de sadismo, como se diz. O Taleban proibia que as mulheres fossem atendidas por médicos e as impedia de estudar medicina.

Ou de estudar, ponto. A Aliança do Norte que o substituiu em Cabul não chega a tanto, mas impediu outro dia as sem-burcas e com burcas de fazerem uma passeata até o escritório da ONU para reivindicar os seus direitos elementares - o de trabalhar, por exemplo. O dia em que elas os conquistarem, o Afeganistão, parafraseando Millôr Fernandes, correrá o sério risco de cair numa democracia.


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