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AS IDENTIDADES DOS POLÍTICOS


Por Flávio Lauria

09/01/2024 23h12 — em
Espaço Crítico



Vendo novamente a prisão do prefeito de Borba, e sabedor de que é no Executivo onde ocorrem as maracutaias, porque no Legislativo elas são feitas abertamente através de emendas partidárias, comecei a me perguntar! Seriam os problemas brasileiros marcados pela ausência de caráter, de firmeza nas decisões e de descompromisso com os recursos públicos? Apesar de se encontrar quem assim pense, em razão dos grosseiros escândalos denunciados todos os dias, há quem discorde.

Os executivos – públicos ou privados – não são diferentes daqueles que habitam outras latitudes. Temos, simplesmente, uma organização política defeituosa, com tendência de proteger os que erram, de providenciar brechas por onde se infiltram aqueles que, surpreendidos na indelicadeza da corrupção, conseguem se livrar das penalidades. É assim que, geridos por um governo tolerante e fraco, não se diz ao povo o que precisa ouvir e imagens retóricas são construídas com a singeleza com que se assina um cheque. Isso me lembra perigosíssimo escritor latino-americano.

Conta ele que num lugarejo perdido num canto da memória do mundo vivia um homem velho, com o rosto e o corpo marcados por profundas cicatrizes, silencioso e triste como quem não conhece as amenidades do amor. Responsável por um pomar, fazia seu trabalho de proteger as frutas contra a fome alheia. Um desses famintos, de 12 anos, atravessou a cerca e subiu numa macieira procurando nos frutos do outono aquele que lhe matasse a fome.

Ocorre que caiu, ferindo-se no joelho. O velho, encarquilhado e temido, aproximou-se e passou uma pomada em seus ferimentos. Silencioso, levou-o ao portão sem uma queixa, uma reprimenda. Sem entender os mistérios da vida, o menino continuou a pelejar pela existência e viu-se, um dia, em meio a uma floresta onde brilhava, entre as folhas secas, uma pedra verde como os raios da esperança com a frase: “Quebre-me e recupere sua mocidade”.

Conduzido pelo raro sentimento de gratidão, o menino se lembrou do velho. Correu ao pomar, insistindo com o homem para que fosse ver a descoberta. O velho tocou a pedra e duas lágrimas tombaram como cascatas de sonho. “Vamos, quebre-a, recupere seus dentes, seus cabelos, sua força”, insistiu o menino. O homem resistiu. E com a coragem dos que conhecem o sofrimento, contou-lhe que havia lutado pela liberdade de seu país.

As cicatrizes eram seus documentos, sua identidade com o mundo, sua ligação com a memória. “Ainda agora há quem esteja lutando pela liberdade. Se quebrar essa pedra, estarei traindo minha gente, minha memória e minha terra. Essas marcas me mostram o que fui e o que consegui fazer”. E cobrindo a pedra retomaram a caminhada.

Essa pedra pode estar em qualquer lugar. Fáceis de encontrar são aqueles que, sem coragem para enfrentar a própria identidade, usam de marretas para destruí-la, construindo nova imagem. É inútil. Assim como não se abandona uma saudade, não se adormece a consciência. Como será que dormem alguns dos homens públicos deste País? 

 

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