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Às favas com os escrúpulos


Por Flávio Lauria

05/08/2022 17h45 — em
Espaço Crítico



Faço o presente artigo em homenagem a uma das figuras mais inteligentes que conheci, e que nos deixou nesse 05 de agosto. JÔ Soares, a quem tive o prazer de conhecer quando em 2007 assisti uma peça sob sua direção em São Paulo, e ele sentou ao meu lado em uma das últimas fileiras do Teatro Raul Cortez, antiga Fecomércio. 

A peça sugere um lado cômico como sempre era, não só a direção de teatro, mas a televisão, a literatura de JÔ Soares. A frase foi extraída de um discurso de Jarbas Passarinho em dezembro de 1968, na reunião do Conselho de Segurança Nacional que resultou no Ato Institucional número 5, decreto que restringiu as liberdades individuais e fechou o Congresso Nacional. Pactuando com o governo militar de Costa e Silva, presidente da época, Passarinho mandou “às favas os escrúpulos de consciência”. Peça com Bibi Ferreira e Juca de Oliveira. 

Jô como sempre muito inteligente, fez dessa frase uma comédia, descortinando-se no final da peça, um anti-herói patético, por isso mesmo, hilário. O compartilhamento da indignação com a falta de escrúpulos de nossos políticos e governantes, é o retrato de nosso país. O vil metal ainda se constitui na mais constante ameaça à integridade moral dos que se deixam vencer pelas coisas fáceis, sem sequer se preocuparem com sua dignidade, porque, em verdade, quem se acostuma com o vício, pouco ou nenhum valor dá a sua consciência. 

O crime vem tomando dimensões alarmantes e a sociedade está impotente e desprotegida, não pelo despreparo da máquina policial, mas pela falta – e cada vez maior – de recursos para o combate a criminalidade, sem se considerar os aviltantes salários dos agentes da lei, que no entanto não deixam de cumprir seu dever para com a sociedade, vejam o caso dos policiais que ajudaram uma família quando um garoto de onze anos em Belo Horizonte, ligou para o 190 e disse que estavam sem comer a quatro semanas. 

A falta de escrúpulos, é o maior responsável pela catastrófica situação da juventude, outra vítima da irresponsabilidade dos pais e dos poderes, ensejando que a indiferença e o desamor concorram para a deformação do sentimento da humanidade. E a sede do poder ou do enriquecimento fácil é talvez a mais constante ameaça a dignidade humana pois o vil metal comprando consciências torna as coisas bem mais fáceis, ocasionando ainda a corrupção, as fraudes e o tráfico, sistematicamente praticados por maus brasileiros inescrupulosos. 

Na verdade, deveríamos mandar às favas os escrúpulos em um País em que o Presidente não tem escrúpulos, onde parte do Judiciário não tem escrúpulos, parte do Legislativo e do Executivo, também não tem escrúpulos. Mas faço o presente artigo em memória a Jô Soares a quem li os livros, O Homem que matou Getúlio Vargas, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, Amanhã você vai entender e o Xangô de Baker Street.


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