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Tema do Enem, educação para surdos deve perder espaço em Curitiba com fechamento de escola

CURITIBA (PR) - Quando bateu os olhos no tema da redação do Enem, neste domingo, a estudante curitibana Raphaella Fornazari, de 17 anos, não teve dúvidas: citou a luta da mãe, Bernadete, ex-professora da Escola Epheta, e de outros pais e alunos, para impedir o fechamento da instituição de mais de 60 anos que atende cerca de cem alunos e deve deixar de funcionar esse ano. Com o título “Óculos Rosa”, referência à ignorância sobre as dificuldades da sociedade, Raphaella tratou dos desafios enfrentados pelos deficientes auditivos no âmbito educacional e de trabalho, valorizando o trabalho da Epheta.

A instituição, fundada em 1950 em Curitiba, atua no contra-turno e possui uma metodologia exclusiva, criada pela irmã Nídia Garcez Moreira. A Epheta recebe crianças e jovens, de até 21 anos, com deficiência auditiva, mas que, pelo uso de aparelhos ou implantes, conseguem desenvolver a fala e a alfabetização. O trabalho, porém, está prestes a acabar – conforme previsão da instituição, a Epheta deve encerrar suas atividades em janeiro do ano que vem.

A Associação de Educação Familiar e Social do Paraná (AEFSPR), entidade sem fins lucrativos mantenedora da escola, alega falta de verbas para manter o projeto. Segundo ela, não houve novas parceiras públicas e privadas no último ano para ajudar na continuidade das aulas. Hoje, a escola é mantida pela associação, com “auxílio financeiro parcial” do poder público, que fornece verbas e disponibiliza servidores para atuar na instituição. Com o fechamento, os alunos serão encaminhados para o ensino fornecido pelo estado e município. Atualmente, atende 102 alunos.

– Eu gostei muito do tema (da redação), contudo o Enem tem tendência a não ser tão específico. O público é bem mais amplo. Existem surdos que utilizam da linguagem de sinais e outros que desfrutam da modalidade oral – afirma a jovem Raphaella.

A metodologia desenvolvida pela Epheta, que facilita a comunicação dos deficientes auditivos para além do uso da Libras (linguagem brasileira de sinais), atraiu famílias de outros lugares, como Claudia Moreira, avó de Enzo, de 8 anos, que usa implante e aparelho auditivo. Ela, a filha e os dois netos saíram do Rio de Janeiro quando Enzo tinha 2 anos e foram para Bauru (SP), onde o método também é trabalhado. No ano passado, mudaram-se para Curitiba. A avó representa a associação de pais de alunos que, com uma ação judicial, tenta manter a escola aberta.

– Vão acabar com todo um trabalho, colocando as crianças e adolescentes na escola normal com intérprete de Libras, sendo que é de direito dos deficientes e das famílias que se mantenha a oralidade dessas pessoas – lamenta Claudia.

O processo está em fase de conversas entre entes públicos e AEFSPR. Apesar de manter a posição pelo fechamento, a associação liberou os direitos de uso do método desenvolvido na escola. Por meio de nota, alega que “deixará como legado a metodologia de incentivo à oralidade para uso livre e gratuito por qualquer escola pública ou privada na melhor forma que assim entenderem”.

A Secretaria de Educação do Paraná afirma que não pode intervir na decisão de interromper as atividades da Epheta, já que ela é mantida por uma instituição privada. Sobre a possibilidade de incorporar a metodologia na rede pública, a secretaria diz que o ensino “ocorre por meio da sala de recursos multifuncional, que segue a Legislação Nacional que estabelece o uso de Libras”, e não cita a possibilidade de oralização dos alunos com deficiência auditiva e/ou surdos. Ainda conforme o estado, os alunos que deixarem a Epheta continuarão a ser atendidos nas escolas em que já estão matriculados.

Também em nota, a Secretaria de Educação de Curitiba explicou que o município não tem condições de, sozinho, manter a escola. A instituição diz estar disposta a analisar a metodologia da Epheta, mas alega que ainda não houve, pela AEFSPR, o compartilhamento do material necessário. As crianças que deixarão a escola, conforme a Secretaria, “serão atendidas nos moldes do que já é ofertado” pelo município na área auditiva.

Mais do que lamentar o fechamento da Escola Epheta, onde seu neto estuda, Claudia Moreira sinaliza outro problema: a desassistência sobre os deficientes auditivos que possuem alguma capacidade de audição e oralidade, recursos que, segundo ela, não são reconhecidos pelo MEC.

- O decreto da Libras menciona a língua na forma oral, mas a oralização não é reconhecida. Isso é uma discriminação, uma afronta à dignidade. Eles falam de inclusão, mas excluem. Os surdos que ouvem e falam precisam ser reconhecidos – desabafa.

Ela explica que, por ser limitada, a linguagem de Libras, além de desestimular a oralidade, não ajuda na alfabetização dos deficientes auditivos, o que atrapalha os estudos e a consequente inclusão pelo mercado de trabalho.

- Libras é quase um código, não tem antônimo, sinônimo. O que nós lutamos é para que a língua portuguesa se torne a língua deles – diz.

Claudia montou uma página no Facebook (Não Deixe Calar Nossas Crianças Surdas Implantadas) para estimular o debate, além de atuar contra o fechamento da Epheta.

- Para a banca examinadora do MEC, todo surdo é mudo. Mudez não existe. A gente precisa de língua portuguesa oral – critica ela sobre a “restrição” imposta pela redação do Enem, que trouxe textos-base falando da linguagem de Libras.

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