Início Economia Troca de comando no BNDES ‘não resolve nem 10% dos problemas’
Economia

Troca de comando no BNDES ‘não resolve nem 10% dos problemas’

BRASÍLIA - Integrantes da equipe econômica admitiram ao GLOBO que a escolha de Paulo Rabello de Castro para o comando do BNDES no lugar de Maria Silvia Bastos não vai conseguir resolver o problema da oferta de crédito para o setor produtivo. Eles afirmam que apesar de a ex-presidente ter sido acusada pelo empresariado de dificultar a liberação de recursos, a menor quantidade de empréstimos concedidos no último ano não tem apenas um responsável.

— A troca (na presidência) não resolve nem 10% dos problemas — afirmou um interlocutor do governo.

Ele lembrou que há uma série de entraves às operações. Além da burocracia interna do banco, que já torna o processo lento, há questões políticas. Uma delas, por exemplo, é que há quase 40 funcionários do banco com bens indisponíveis em função de contratos concedidos ainda na gestão de Luciano Coutinho. São pessoas que participaram de decisões sobre a concessão de crédito para operações que são investigadas no âmbito da Lava-Jato.

— Isso gerou uma inação no banco — disse essa fonte, lembrando que essa era uma reclamação não apenas dos empresários, mas da própria Maria Silvia.

Para esses interlocutores, o que Paulo Rabello de Castro tem margem para fazer nesse momento é reativar linhas de crédito já aprovadas e que estavam paradas por decisão da ex-presidente. Ela havia bloqueado, por exemplo, linhas elevadas para a concessão de capital de giro para empresas argumentando que os recursos para o BNDES devem ser destinados a operações de longo prazo.

Paulo Rabello poderia “abrir essas torneiras”. No entanto, isso poderia ser um problema para a atuação do Banco Central, que tem se posicionado sistematicamente contra o aumento do crédito direcionado, que enfraquece o poder de atuação da instituição contra a inflação. Atualmente o BC só tem poder de fogo para influenciar diretamente menos da metade do crédito no país.

— BC está de cabelo em pé porque isso também gera distorções disse esse interlocutor.

Atualmente, há R$ 3,1 trilhões em contratos de crédito na praça. Mais da metade desse dinheiro é de crédito direcionado, ou seja, que tem subsídios dados pelo governo e que não é controlado diretamente pelo Banco Central. Quando o BC aumenta ou diminui a taxa básica de juros para controlar a inflação, isso não afeta diretamente R$1,546 trilhão de crédito direcionado, que segue outras regras, definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Outro agravante está no efeito que a operação Bullish (que investiga a relação entre a JBS e o BNDES) pode ter sobre o corpo técnico do banco. Segundo fontes da PF ouvidas pelo GLOBO, os investigadores pedirão a quebra de sigilo fiscal e bancário dos funcionários envolvidos na aprovação de financiamentos para a empresa.

Os investigadores já identificaram indícios de vínculos de técnicos do BNDES com o esquema de corrupção. Agora, estão atrás de provas de que algum deles teria recebido vantagem indevida. Todo o material recolhido na operação Bullish já está na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Deve começar a ser analisado pelos peritos nos próximos dias.

Siga-nos no

Google News

Receba o Boletim do Dia direto no seu e-mail, todo dia.

Comentários (0)

Deixe seu comentário

Resolva a operação matemática acima
Seja o primeiro a comentar!