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Taxa real de juros no Brasil ainda está entre as mais elevadas do mundo

BRASÍLIA - Os investidores que apostam no mercado brasileiro continuam a se beneficiar de uma taxa real de juros que está entre as mais elevadas do mundo. Se no passado o país apresentava um juro real elevado devido a uma combinação perversa entre inflação e Selic altas, agora o que houve foi uma desaceleração rápida dos índices de preços que o Banco Central demorou a acompanhar: a inflação caiu mais rápido do que a Selic. O resultado final, no entanto, acabou sendo o mesmo. A taxa de juro real efetiva (que considera os juros pagos nos últimos 12 meses descontando a inflação no mesmo período) está hoje próxima de 9% ao ano, patamar próximo do registrado em 2007.

Segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, os ganhos com as taxas pagas no Brasil e uma farta liquidez no mercado internacional estão entre os motivos pelos quais o agravamento da crise política - com a apresentação de mais uma denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer - e o enfraquecimento da agenda de reformas não afetam o humor dos investidores. Esses especialistas apontam que o cenário só mudaria a partir do momento em que a deterioração do quadro econômico, com o comprometimento das reformas e um cenário eleitoral muito adverso começassem a impactar as expectativas sobre o câmbio. Isso porque uma eventual depreciação do real (fator que também faz os aplicadores ganharem nas apostas no Brasil) pode anular os ganhos com os juros internos, tornando o país menos atraente.

- Para o investidor estrangeiro, o que importa é a variação cambial. E o câmbio tem ajudado. Em 2015, por exemplo, os juros estavam elevados, mas a gente viu o estrangeiro menos interessado, porque o câmbio estava explodindo e o que importa é o ganho quando é descontada a variação cambial. Se o investidor tem perda cambial, aí não vale a pena porque o hedge (operação feita pelos investidores para se protegerem de variações cambiais) é caro - explica a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.

Para se ter uma ideia do tamanho dos ganhos dos investidores no Brasil no período recente, considerando a taxa Selic acumulada em 12 meses menos a variação cambial no período, ele chegou a 36,6% em 2016. Em 2017, está em 16,4%. Já em 2015, durante o governo Dilma Rousseff, quando houve uma forte depreciação do câmbio, o resultado foi negativo em 23%. Durante os governos Lula e Fernando Henrique, houve períodos em que o ganho chegou a quase 75,7% em 1994 e a 50,8% em 2003.

Zeina destaca, no entanto, que os juros estão longe de ser o único fator para os investidores decidirem colocar seu dinheiro no país. Até mesmo porque a expectativa de pagamento de juros futuros aponta para uma queda. Ela está hoje em 3% ao ano. Segundo a economista-chefe da XP, os investidores estão de olho na variação de commodities, que sofrem a influência do câmbio, mas também os indicadores de confiança. Zeina lembra que o mercado decidiu dar um voto de confiança ao governo na execução das reformas apesar das turbulências políticas e isso faz com que eles permaneçam no país.

O chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, José Júlio Senna, acredita que os investidores continuarão apostando no mercado brasileiro mesmo com os juros futuros apontando para baixo. Isso porque o importante para o mercado é a chamada taxa de juros real de equilíbrio (aquela que deixa a inflação estável com a economia em pleno emprego) que ainda é elevada no Brasil.

- Durante muito tempo, a gente ainda terá o Brasil como um polo de atração de capitais de natureza financeira porque o que importa é a taxa de juros real de equilíbrio e ela ainda é alta.

Segundo Senna, três fatores são responsáveis pelo fato de o juro de equilíbrio ser elevado no país: a baixa taxa de poupança, as distorções no mercado de crédito (como boa parte do crédito no país ainda é subsidiada, o Banco Central precisa aumentar mais os juros para segurar a inflação) e a percepção de risco fiscal. E como esses três problemas não possuem solução de curto prazo, a tendência é que as taxas de juros ainda fiquem elevadas.

Ele lembra que o governo já fez avanços em alguns campos, como a aprovação de um teto para os gastos públicos (o que ajuda no reequilíbrio fiscal) e da Taxa de Longo Prazo (TLP), que vai reduzir os empréstimos subsidiados no país.

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