Supermercados e farmácias dos EUA também barram acesso a produtos nas prateleiras

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

27/11/2021 11h35 — em Economia

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Produtos em prateleiras lacradas não são exclusividade de supermercados em bairros de menor poder aquisitivo de São Paulo. A prática também é comum nos Estados Unidos, principalmente em regiões mais pobres e de maior presença de negros e latinos.

Lá como cá, as redes afirmam que a medida visa reduzir furto, que vêm registrando alta.

Em uma farmácia da rede Walgreens, de Washington, mesmo produtos grandes, como garrafas de quatro litros de sabão para lavar roupas, ficam trancadas. No país, as farmácias vendem de quase tudo, e colocam barreiras para o acesso a sabonetes líquidos, desodorantes, fórmulas para bebês e cabos de celular.

Em um supermercado Walmart, o lava-roupas tem acesso livre, mas há mais de 30 armários em meio as prateleiras, para itens como analgésicos (os mercados também vendem remédios), desodorantes, sabonetes, odorizadores de carro, adesivos de nicotina, pacotes de cuecas e meias e até solução para limpar lentes de contato.

Monitores nos corredores exibem, em tempo real, imagens das câmeras de segurança, para dissuadir furtos.

Em regiões mais centrais -e de mais moradores brancos-, esses armários são menos usados ou nem estão presentes. É o caso de um supermercado Safeway, que dispõe remédios e desodorantes em uma área perto dos caixas de maior visibilidade, mas de livre acesso aos consumidores.

Em nenhuma loja visitada pela reportagem, tanto na região central quanto em bairros periféricos, no entanto, havia restrições a alimentos comuns. No Brasil, redes passaram a restringir o acesso a carnes em algumas lojas.

A relação entre as restrições a produtos e o racismo passou a ser mais debatida nos últimos anos nos EUA. Em 2018, Essie Grundy, moradora da Califórnia, processou o Walmart por dificultar o acesso a produtos para negros. Xampus e cremes para cabelos crespos, por exemplo, ficavam lacrados em armários, enquanto os mesmos itens para quem tem cabelo liso eram acessados sem restrição.

Um funcionário teria de levar ao caixa o produto, que só era entregue aos clientes após o pagamento. Um dos itens com proteção extra era um pente, que custava US$ 0,48 (cerca de R$ 3,25).

Na ação, Grundy afirma que os demais clientes ficavam olhando para ela enquanto esperava por ajuda para abrir o armário. "Ela se sentiu envergonhada e humilhada, como se as pessoas a vissem como criminosa", diz a defesa.

A consumidora desistiu do processo em 2018, mas o caso jogou luz sobre o problema e mais queixas surgiram nos meses seguintes. Mudanças reais, no entanto, só vieram após o assassinato de George Floyd, um homem negro suspeito de apresentar uma nota falsa de US$ 20 em uma loja de conveniência, por policiais em 2020.

Semanas depois, a rede de farmácias CVS, o Walmart e a Walgreens anunciaram que deixariam de colocar produtos de beleza para negros em áreas protegidas, e que a medida era uma forma de deixar práticas racistas para trás. Na época, o Walmart disse que entendeu as queixas e que produtos comoeletrônicos, itens automotivos, cosméticos ficam trancados por segurança.

Também à época, a CVS disse que a tranca era um "último recurso" e que a decisão sobre o que proteger era tomada com base nas estatísticas de furtos em cada loja.

Não houve outras alterações de políticas desde então. Procuradas pela Folha, as redes não se pronunciaram.

O roubo de produtos vem aumentando no país. Segundo a Clear, coalizão americana de lojistas e forças de segurança, o comércio perde em torno de US$ 45 bilhões por ano nos EUA em roubos. Na década passada, eram US$ 30 bilhões.

A pandemia também agravou o problema. Estudo da NRF (Federação Nacional de Lojistas) apontou que 65% dos comerciantes têm notado ações mais agressivas dos assaltantes desde o ano passado. Os principais alvos são roupas, lava-roupas, bolsas, remédios para alergia e lâminas de barbear.

Em Nova York, houve 26.385 casos registrados até meados de setembro, maior número desde 1995, e alta de 32% em relação a 2020. Dermot Shea, chefe da policia de NY, tem relacionado a alta com uma mudança na lei estadual, que facilitou o acesso ao pagamento de fiança, com o objetivo de reduzir o encarceramento por crimes menores. Assim, quem for pego roubando produtos de baixo valor geralmente consegue ser solto no mesmo dia.

"Insanidade, nao há outro modo de descrever os crimes que resultaram da desastrosa reforma da lei de fiança", postou Shea no Twitter, em outubro, ao comentar uma reportagem local sobre um ladrão de 22 anos que já foi detido, e solto, 46 vezes só em 2021. Metade dos casos ocorreram em uma mesma unidade da Walgreens.

Muitas vezes os funcionários são orientados a chamar a polícia e não interpelar criminosos, mas nem sempre os agentes chegam a tempo. Os grandes varejistas apontam ser comum que produtos roubados sejam revendidos pela internet e que muitos ladrões fazem parte de quadrilhas especializadas.

"Apesar do perigo crescente do crime organizado nas lojas, nenhuma lei federal previne este tipo de atividade. Isso deixa as investigações, quando são feitas, espalhadas em uma colcha de retalhos de jurisdições locais, mesmo que os crimes tipicamente envolvam vários estados", disse a NRF em um relatório sobre os furtos.

"As empresas estão investindo em tecnologia e em contratar mais funcionários. Mas uma coisa é clara: o ambiente de risco no varejo está mais complexo e mais custoso do que nunca".


O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

+ Economia