SÃO PAULO e RIO - A crise política pode fazer o Brasil ter sua nota de crédito cortada, avisou a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P). A entidade alterou ontem a perspectiva do rating brasileiro para observação negativa, o que significa a possibilidade de redução nos próximos meses. A decisão da S&P é mais um desdobramento da turbulência causada pelas denúncias contra o presidente Michel Temer, que abalaram o governo e já fazem analistas reverem suas projeções para a trajetória dos juros.
A nota da S&P destaca a instabilidade política: “Caso essas denúncias contra o presidente Temer sejam confirmadas, a capacidade do presidente de permanecer no cargo e governar de forma eficiente provavelmente se tornaria insustentável. Isso poderia iniciar um processo de transição que ainda não foi testado”.
Em comunicado, o Ministério da Fazenda comentou a decisão da agência e destacou que a recuperação da economia brasileira será alcançada por meio de reformas estruturais, que permitirão “o equilíbrio das contas públicas, a sustentabilidade da dívida pública e a construção de novas bases para o crescimento sustentado”. A pasta também destacou que a agência reconhece a importância de reformas como a criação de um teto para os gastos primários.
Com o aumento das incertezas no cenário político, os agentes financeiros voltaram a ficar mais conservadores em relação à trajetória dos juros, ou seja, estão esperando um processo de corte mais gradual para a taxa básica Selic.
A SulAmérica Investimentos já fez essa alteração em suas projeções. A instituição reduziu de 1,25 ponto percentual para 1 ponto a projeção de corte na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que ocorre nos dias 30 e 31 de maio. Até o final do ano, a projeção é de que a Selic chegue a 9,25% — ante 8% previstos anteriormente. A Selic está em 11,25% ao ano.
— Adotamos uma postura mais cautelosa em função da incerteza no ambiente político. O avanço das reformas justificava uma aposta de aceleração no ritmo de corte da Selic. Com as incertezas políticas, que afetam o andamento das reformas, o BC pode ser mais cauteloso — avaliou Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos.
O último Boletim Focus do BC, relatório que consolida as projeções de analistas, divulgado ontem, aponta para uma Selic de 8,5% ao ano em dezembro, sem alteração em relação ao levantamento anterior. Para Gustavo Rangel, economista-chefe para América Latina do ING Financial Markets, ainda não houve tempo para o Focus captar essas mudanças de mercado.
— Muito provavelmente os juros não vão terminar o ano perto de 8%, como se previa. Certamente, ficarão acima de 9%. É possível que, na próxima reunião, o BC faça ainda um corte de 1 ponto percentual, mas sinalize uma reavaliação para os próximos encontros. Muito vai depender do câmbio, que impacta diretamente as perspectivas para a inflação — disse.
Já algumas agentes preferem esperar antes de fazer alguma revisão. A MB Associados também decidiu não revisar sua projeção de Selic a 8,25% ao ano em dezembro. Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria, disse que o atual cenário vai impactar na atividade econômica e o câmbio, e, se houver alguma necessidade de revisão, será para baixo:
— O BC só terá problema de redução de juros quando ficar claro que não tem mais nenhuma reforma, o que não é o caso agora. Assim, o ponto de inflexão segue sendo a reforma da Previdência, agora dificultada pela crise política.



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