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Solidão de mulheres diminuiu, diz pioneira no comando do setor de hotelaria no século passado

Por Folha de São Paulo

13/04/2024 12h30 — em
Economia



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Minha história já foi contada milhões de vezes", afirma a empresária Chieko Aoki, quando a reportagem da Folha lhe pede para apontar o que mudou na participação feminina em cargos de liderança desde os tempos em que ela deslanchou no negócio de hotelaria.

Ainda no fim do século passado, ela se tornou conhecida como uma das raras mulheres no comando de grandes negócios no Brasil ainda no fim do século passado.

A empresária Chieko Aoki, vice-presidente do grupo Mulheres do Brasil e presidente do Blue Tree Hotels, no hotel localizado na avenida Faria Lima, em São Paulo Mathilde Missioneiro/Folhapress A empresária aparece sorrindo, olhando para uma janela que tem uma cortina branca. Japonesa naturalizada brasileira, Aoki veio para o país quando era criança.

Estudou direito na USP, administração no Japão, hotelaria nos Estados Unidos e chegou ao comando dos hotéis Caesar Park. Na rede, instalou seu próprio estilo de hospedagem de luxo, que misturava o atendimento clássico europeu com a precisão oriental e a tecnologia norte-americana da época.

Hoje, Chieko avalia que a população feminina na liderança empresarial não sente mais a solidão do passado: já não é tão difícil encontrar outras mulheres em cadeiras de diretoria, embora ela ainda considere baixa a presença nos cargos de CEO.

Na visão de Chieko, o perfil mudou. Se no passado as poucas mulheres à frente dos negócios no Brasil costumavam ser as próprias fundadoras ou familiares de um fundador, hoje é mais comum ver mulheres que cresceram como executivas.

Da sua geração, alguns dos nomes mais famosos tinham laços familiares com seus negócios, como Liliana Aufiero (Lupo), Sônia Hess (Dudalina) e Luiza Trajano (Magalu), com quem Chieko construiu uma forte amizade.

"Muitas eram filhas de donos ou tinham começado o próprio negócio. Havia mulheres brilhantes fazendo acontecer e isso foi se tornando uma luz. Quando tinha uma referência, muita gente seguia", afirma.

Ela própria diz ter recebido incentivo e reconhecimento do marido, segundo a empresária, um feminista para os padrões da sociedade japonesa masculina na qual começou sua carreira. "A empresa dele foi uma das primeiras a colocar mulher na diretoria. Ele era diferente, abria porta para as mulheres. No Japão, você sabe, o homem passava e a mulher ficava para trás", afirma.

Nos anos 1970, Chieko ingressou na Aoki Corporation, grupo japonês que também atuava no ramo da construção.

Mais tarde, casou-se com o chairman, John Aoki, e impulsionou a expansão das operações da companhia, com faturamento bilionário e milhares de apartamentos em projetos hoteleiros nos continentes europeu, americano e asiático. Foi então que acumulou funções de comando da rede Caesar Park e da Westin Hotel & Resorts, adquirida pelo grupo nos anos 1980 e vendida na década seguinte.

Hoje, aos 75 anos, é presidente da Blue Tree Hotels, bandeira que criou em 1997 e tem 20 unidades.

A amizade com Luiza Trajano foi recíproca na ocasião da morte dos maridos. "Quando ela perdeu o marido dela, eu estava no Japão e viajei até a casa dela, em Franca [interior de São Paulo]. Depois, quando o meu marido faleceu, ela ofereceu uma missa para ele", afirma Chieko.

Segundo ela, o Lide, grupo de líderes empresariais de João Doria, teve papel relevante no esforço de promover encontros entre lideranças femininas no passado.

Em 2006, quando foi criado o chamado Lidem, braço do Lide formado por mulheres, a variedade de nomes femininos no comando de multinacionais na época -como Amalia Sina (Philip Morris), Regina Nunes (Standard & Poor's), Nadir Moreno (UPS) e Sylvia Coutinho (HSBC)- sinalizava um avanço das empresas estrangeiras em relação ao tema.

Chieko, que foi a primeira presidente do Lidem, seguiu no ativismo pelo protagonismo feminino, ajudando a fundar, em 2013, com Luiza Trajano e outras 40 participantes, o grupo Mulheres do Brasil, do qual é vice-presidente atualmente.

O foco de seu trabalho no Mulheres do Brasil, hoje, está no combate à violência doméstica com ações de conscientização, suporte e inclusão financeira de vítimas para fomentar projetos e políticas públicas na área.

A empresária, que também pratica mentorias com jovens profissionais e entrou na lista de membros do Conselhão do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), vê o debate sobre equidade salarial e licença paternidade entre os temas fundamentais.

"Vejo que muitas mulheres [quando têm filho] preferem dar uma parada. Mas não param. Fazem pesquisa, dão mentoria e continuam no mercado de alguma forma. Depois voltam. Por mais que você tenha babá, não é fácil. Eu fico pensando nas mulheres que não têm essa estrutura. Não deve ser fácil", diz Chieko, que não tem filhos.

Ela defende uma expansão da licença paternidade que não seja necessariamente continuada, ou seja, com idas e vindas, de modo a equilibrar a presença do pai e da mãe nas diferentes fases do desenvolvimento da criança.

"A sociedade é feita de homens e mulheres. Então, os dois olhares e os dois pensamentos são importantes. Enquanto não vem a inteligência artificial para pensar por nós, somos homens e mulheres quem decidimos", diz.


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