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Recessão faz saldo de crédito às famílias superar o às empresas pela primeira vez

RIO - A crise não só levou o saldo total das operações de crédito no Brasil a cair 11% entre 2014 e 2017, como gerou uma situação inédita. Segundo o estudo realizado pelo Dieese, pela primeira vez, a partir de 2016 a participação relativa do crédito às famílias tornou-se maior do que a do financiamento às empresas. Esse resultado se deve, principalmente, à redução dos financiamentos para as empresas, que apresentaram queda real de 22,8% no período, enquanto o crédito para as famílias teve uma leve alta real de 2,1%.

A economista do Dieese e uma das autoras do estudo, Catia Uehara, explica que essa inversão ocorreu porque durante a recessão, enquanto a oferta e demanda por crédito por parte das empresas caiu - em razão do corte de investimentos por parte delas e de uma maior cautela por parte dos bancos, temendo calotes - os créditos imobiliário e consignado, que têm juros mais baixos e por isso taxas menores de inadimplência, teve maior resistência.

- Os bancos brasileiros são muito conservadores. Eles deixam de emprestar ao sinal de qualquer risco - diz Catia.

Em dezembro de 2017, o saldo total das operações de crédito no Brasil foi de R$ 3,086 trilhões - R$ 1,649 trilhão (53,4% do total) destinado às pessoas físicas e R$ 1,437 trilhão (46,6%) às jurídicas.

Ao contrário do período de recessão, o anterior, entre 2008 e 2013, o crédito teve forte elevação real acumulada, de 105% no período, com aumento quase idêntico para pessoa física (alta de 104,4%) e jurídica (alta de 105,5%). Naquele período, o crédito foi parte da engrenagem que garantiu a rápida retomada da economia brasileira após o início da crise econômica internacional e um nível relativamente elevado de crescimento do PIB até 2013.

- A Operação Lava Jato afetou significativamente grandes empresas brasileiras, principalmente nos setores de construção e petróleo, e contribuiu para a queda na concessão de crédito, pois investimentos paralisaram - explica Catia.

Pelo lado da pessoa física, a alta no desemprego e a queda do rendimento médio real dos trabalhadores, juntamente com altos níveis inflacionários em 2015 e 2016, reduziram o consumo das famílias e, consequentemente, a procura por empréstimos no setor financeiro.

Segundo a economista do Dieese, também contribuiu significativamente para a queda no salto total de operações de crédito uma redução da concessão de empréstimos pelos bancos públicos:

- Os dados do Banco Central mostram que os bancos públicos também acabaram por reduzir a concessão de empréstimos nos últimos anos, principalmente a partir de 2015, acompanhando a diminuição, muito mais acentuada, no crédito concedido pelos bancos privados, nacionais e estrangeiros. Dá para afirmar que os bancos públicos cumpriram papel pró-cíclico desde então, reforçando a baixa da atividade, o que se materializou em queda generalizada do saldo do crédito no Brasil.

Isso ocorreu, na visão da economista, devido a uma condução de política econômica que determinou o “fechamento das torneiras” e da redução de servidores de bancos públicos como Caixa e Banco do Brasil, que implementaram planos de demissão voluntária desde 2016.

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