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PIB da vassoura: ‘É uma medida precisa do que a sociedade produz’, diz pesquisadora

Para María Nieves Rico, antropóloga social e diretora da Divisão de Assuntos de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), medir o peso do trabalho doméstico não pago no PIB fornecerá uma noção mais clara do tamanho do economia. Leia os principais trechos da entrevista com a especialista.

Porque permite obter uma medida mais precisa do que produz a sociedade, dando visibilidade a uma parte da economia, da produção de bens e serviços, que até então permaneceria oculta. Além disso, permite incorporar o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado às análises macroeconômicas, ao desenvolvimento de políticas públicas e na tomada de decisões. Da mesma forma, esta valorização serve para compreender melhor as dinâmicas econômicas no interior dos lares e de seus membros, assim como dos lares segundo sua inserção na estrutura socioeconômica e entre os lares e o resto da economia. Isso é fundamental para incorporar essa análise da economia do cuidado ao funcionamento do sistema econômico. Nesse contexto, esta avaliação é de especial importância devido à visibilidade que dá à contribuição das mulheres à economia, expressada em linguagem e moeda. Essa informação é importantíssima para a criação de políticas públicas que criem condições necessárias para que as responsabilidades e benefícios associados ao trabalho não remunerado sejam divididos entre homens e mulheres de maneira igualitária, mudando a atual divisão sexual do trabalho, com a participação da comunidade e do estado como co-responsáveis pelo bem-estar de todos os membros da sociedade.

O México foi o primeiro país da região da Cepal a construir uma conta-satélite do trabalho não remunerado doméstico para dar visibilidade econômica à contribuição das famílias ao bem-estar individual e à economia. Colômbia e Equador, Guatemala e Peru também estabeleceram contas satélites sobre o tema. El Salvador está em processo de criação e Costa Rica e Uruguai têm feito grandes avanços no estudo de metodologias e exercícios de valorização do trabalho doméstico não remunerado, a partir dos dados de suas respectivas pesquisas sobre o uso do tempo. Esta informação fornece evidências de que a contribuição econômica das mulheres ao valor econômico total do trabalho não remunerado está entre 70% e 87%.

A Divisão de Assuntos de Gênero da Cepal tem acompanhado os governos da América Latina e Caribe durante 40 anos a refletir e debater ações necessárias para superar os nós estruturais da desigualdade de gênero entre os quais o de divisão sexual do trabalho e da organização social injusta de cuidados. Neste sentido, enfatiza a necessidade de visibilidade estatística deste fenômeno e tem sublinhado a importância da criação de contas satélites de trabalho não remunerado nos países da região e auxiliado no desenvolvimento de metodologias para esse cálculo.

O Brasil tem feito esforços para medir o tempo dedicado ao trabalho não remunerado, mas infelizmente, eles não têm sido suficientes. Em 2009 foi feita uma pesquisa piloto mas em apenas cinco estados, e falhou a níveis de respostas. No Brasil, há uma pergunta sobre o tempo empregado no trabalho não remunerado em uma de suas pesquisas, mas não permite estimativas do valor total. Seria muito interessante que um país poderoso em termos de produção estatística como o Brasil conseguisse orçamento e iniciasse uma pesquisa nacional de uso do tempo que fornecesse informações para essa avaliação econômica do trabalho não pago. Levantamentos sobre o uso do tempo também podem fornecer informações sobre as demandas em relação a cuidados das pessoas o tempo que gastam para ir ao trabalho, em estudo ou atividades de cuidado para as suas famílias. São informações fundamentais para projetar políticas de mobilidade, programas educacionais e melhorias em serviços de saúde em todas as esferas brasileiras.

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