Recentemente, porém, essa percepção mudou. Embora não saibam precisamente qual é esse timing, os especialistas observam que a velocidade desse repasse tem sido maior quanto mais rápido é o ritmo do ajuste do câmbio e mais alto se torna o preço da moeda americana. Os motivos que sustentam a arrancada das cotações agora também são outros, afirmam. Eles citam sobretudo as perspectivas de mudanças na política monetária dos EUA e de desaceleração do crescimento da China, além das variações das commodities em menor escala.
Por enquanto, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, parecem minimizar o impacto do repasse do câmbio para os preços na economia. Contudo, na terça-feira, o próprio presidente do BC admitiu, em audiência em comissão do Senado, que está ocorrendo no mercado de moedas um período de transição que poderá ser muito longo.
O economista Rafael Costa Lima, coordenador do IPC da Fipe, afirma que a política monetária e cambial está confusa e dificulta uma previsão sobre o momento de repasse para a inflação. Mas ele tem certeza de que as intervenções recentes do BC no câmbio podem amplificar o efeito desse repasse para a inflação. "Isso depende do que o governo vai fazer, se continuará tentando segurar o dólar, se vai responder com alta mais forte do juro", comentou.
Segundo Lima, quando o dólar variou do patamar de R$ 1,60 para o de R$ 1,80, entre agosto de 2011 e março de 2012, o repasse foi mais lento e com menor peso sobre a inflação do que quando a moeda americana passou de R$ 1,80 para R$ 2,00, o que ocorreu entre março e maio de 2012. "A caminhada rápida do câmbio de R$ 2,10 para R$ 2,20 tende a ter impacto sobre a inflação, porque as commodities estão em alta e os preços de bens manufaturados no exterior também, como vários eletrônicos", afirmou.
Na segunda-feira, 17, a Fundação Getulio Vargas anunciou que o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) subiu 0,74% na segunda prévia de junho, bem acima da taxa de 0,01% registrada em igual leitura do mesmo indicador em maio. Ao ser perguntado sobre os efeitos da valorização do dólar sobre esse resultado, o superintendente adjunto de inflação do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), Salomão Quadros, explicou que algum impacto já pode estar ocorrendo, por exemplo, nos preços da soja.
O gerente da coordenação de Serviços e Comércio do IBGE, Reinaldo Pereira, alertou na semana passada que, "caso a valorização do dólar continue, o quadro inflacionário no País vai piorar e terá repercussão no comércio varejista". Ele constatou que a alta dos preços já está influenciando o desempenho das vendas em alguns setores. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



