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Open finance completa três anos com desafio de expansão no país

Por Folha de São Paulo

29/02/2024 8h30 — em
Economia



BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O open finance, que permite a clientes compartilharem informações de suas contas com diferentes bancos, completa três anos neste mês ainda com o desafio de difundir seu uso no país --principalmente entre as empresas. Uma das principais estratégias do Banco Central para este ano é fazer a população entender o sistema.

Até agora, só 1,1% (ou 211 mil) das companhias com conta bancária no país aderiram ao instrumento. Otávio Damaso, diretor de Regulação do Sistema Financeiro do BC, afirma à Folha de S.Paulo que o open finance está apenas no começo e que o potencial de expansão mais rápido está justamente entre as pessoas jurídicas.

"É o que a experiência internacional mostra. Qual é o grande desafio de uma empresa hoje? Fazer a conciliação de todas as suas contas", explica.

Já entre a população, a adesão dobrou ao fim de 2023 --alcançando 14% (ou 28 milhões) das pessoas com conta bancária no Brasil. Damaso considera o número satisfatório diante do período em vigor do sistema.

O BC vê como fundamental para a expansão mostrar à população as vantagens do mecanismo, que tem entre suas diretrizes a maior competição entre os bancos e o consequente barateamento no crédito --embora não tenha elementos suficientes para medir os resultados.

Também no varejo a promessa é de expansão. Damaso prevê que ainda neste ano esteja disponível para a população em geral a opção de pagar, via lojas virtuais de um banco A, produtos com recursos depositados no banco B.

"É uma jornada", afirma. "A gente não pode olhar para um único prisma para falar se o open finance valeu a pena ou não. Ele vai valer a pena e está valendo muito a pena", diz.

Cenário atual

Várias instituições estão usando o open finance para fazer negócio, ampliar a oferta de crédito e conceder crédito em melhores condições. Outro dia eu estava em um evento com uma instituição financeira e ela falou que 70% das ofertas de crédito que concedia para os clientes já tinham como um dos pilares o open finance.

São 42,9 milhões de consentimentos [autorizações de compartilhamento de dados, sendo que um cliente pode dar mais de um consentimento aos bancos]. São 28,1 milhões de clientes únicos de pessoas físicas e 209 mil CNPJs.

Desempenho até agora

Acho um número bem satisfatório: 28 milhões de pessoas já darem consentimento é muita coisa, e esse processo vai crescer. Vai continuar. Tem pessoas que até hoje não usam Pix [por exemplo].

Tem muitas pessoas cujo único tipo de relacionamento com a instituição financeira, seja porque não demandam ou porque às vezes não têm condições, é uma conta de pagamento. Então uma parcela talvez nunca entre no open finance. Mas a grande maioria com certeza ao longo do tempo vai entrando.

Resultado no custo de crédito

É uma métrica difícil [para verificar]. A gente não consegue compilar ainda. Qual o desafio de você fazer essa mensuração? Em três anos, um trilhão de coisas aconteceram na economia. Como esse efeito no crédito é explicado pelo fator A, pelo fator B, pelo fator C, pelo fator D?

Concentração bancária

Acho válido a gente, em algum momento, ter as mensurações dos resultados. Mas nos últimos dez anos há uma redução significativa do nível de concentração bancária no Brasil.

A gente não pode olhar para um único prisma para falar se o open finance valeu a pena ou não. Ele vai valer a pena e está valendo muito a pena, e isso faz parte do processo da troca de informação. Agora o ponto importante é que depende do cidadão. Ele precisa conhecer essas ferramentas.

Ritmo nas empresas

[Está mais lento porque] o número de empresas é menor também [que o de pessoas]. Mas é onde, até a experiência internacional aponta, se desenvolve mais rápido o open finance. Porque a empresa tem conta necessariamente em três, quatro, cinco bancos. Porque ela faz negócio, ela precisa ter capital de giro, recebimento, pagamento.

O desafio da empresa é fazer a conciliação de todas essas contas. Com o open finance, você agrega isso tudo em um único lugar.

Superapp

Um ponto importante é que o superapp não é uma iniciativa do Banco Central. Cada instituição financeira está fazendo de tudo para desenvolver seu aplicativo e transformá-lo em superapp. Porque hoje a principal interface de uma instituição financeira é o aplicativo.

Isso vale muitíssimo para os entrantes, para as fintechs, para os bancos digitais, porque eles não têm agência física, mas vale também muitíssimo para os grandes bancos, os incumbentes.

Varejo

Alguns bancos têm o seu próprio shopping [no app], em que você compra eletrodomésticos e pacotes de viagens [por exemplo]. Mas tem outros que têm associações com outros marketplaces para você acessar via ele e comprar produtos e serviços em outros aplicativos ganhando cashback ou pontuação.

Ele [banco] quer que você tenha o app dele como portal de entrada no seu mundo financeiro e no seu ecommerce, porque o que fizer ali dentro tem uma pegada daquele banco em termos de uma oferta de produtos ou serviços.

Expansão no ecommerce

Estou lá no site do marketplace, quero comprar uma camisa, tem lá uma opção de cartão de crédito, boleto, ou iniciador de pagamento. Aí falo ‘quero já debitar da conta do meu banco B’, eu clico aqui, ele automaticamente joga para o meu banco B e eu pago aquela camisa na conta do meu banco B [usando o app do] meu banco A.

A nossa expectativa é que em breve ele vai colocar para todo o público. A gente acha que neste ano isso já vai ocorrer de forma mais [difundida].

Fase atual

Na quarta fase, de [troca de informações sobre] aplicação financeira. Posso [como banco] tanto oferecer um pacote de tarifas melhor para ele [cliente] como posso oferecer operações de crédito em melhores condições, inclusive fazer uma portabilidade, um financiamento imobiliário que você tem no banco A.

Eu posso falar ‘você está pagando TR mais 8% no teu financiamento no banco A, vem para cá que eu te dou TR mais 7,5%’. Ele [banco] passa a te conhecer e a te namorar, para você fazer mais relacionamento com ele.

Desafio tecnológico

O processo de implementação do open finance não ocorre da noite para o dia. Que nem ocorreu no Pix, que no dia 16 de novembro de 2020 começou a funcionar e você já podia fazer pagamento. Uma vez implementada a plataforma, que hoje já está funcionando, as instituições financeiras começam a desenvolver produtos e serviços a partir dela.

De regulação é muito pouca coisa agora. As coisas agora já estão se desenvolvendo. [Mas] o desafio é melhorar a performance e tirar fricções, que acontecem quando começo uma jornada [processo de consentimento e compartilhamento de informações] e ela não se conclui, porque deu algum problema no app. Não pode, porque você tenta a primeira, a segunda, a terceira vez e você desiste.

Hoje isso já está com um nível de aderência muito bom, mas precisa melhorar, porque a jornada do cliente precisa estar fluida.

RAIO-X | OTÁVIO RIBEIRO DAMASO, 52

É diretor de Regulação do Banco Central, com mandato até 31 de dezembro de 2024. Foi coordenador-geral de Reformas Institucionais no Ministério da Fazenda entre 2008 e 2009 e secretário-adjunto de Política Econômica na pasta de 2003 a 2008. Possui graduação em economia e especialização em matemática para economia e administração pela UnB (Universidade de Brasília)


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O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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