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Márcio Appel: um novo ‘inquilino’ de R$ 12,5 bi no Leblon

RIO - Para um menino do Leblon nos anos 1980, um dos poucos caminhos que podiam levar ao sonho de trabalhar na Nasa passava por São José dos Campos (SP). Era esse o plano quando Márcio Appel entrou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1990. O que seus cálculos não previam era que o mundo real falaria mais alto e o mercado financeiro se tornaria um destino muito mais provável do que Houston, Texas. Em dois anos, trocou o curso de engenharia aeronáutica pelo de eletrônica e, logo depois, os foguetes pelos cifrões. Do primeiro emprego como trainee no extinto banco Bozano,Simonsen, em 1995, Appel seguiu em frente e hoje é dono de uma das dez maiores gestoras de recursos independentes do país. A Adam Capital tem apenas um ano de vida e já tem sob sua administração R$ 12,5 bilhões, uma ascensão rápida, com um estilo de gestão polêmico.

— Em 1994, li no jornal que um executivo de banco tinha ganhado US$ 20 milhões e comprado uma casa em Angra. Pensei: se eu conseguir 10% disso já é excelente. Até então não tinha a menor ideia do que queria fazer — lembra Appel, de 44 anos, que fez questão de abrir a Adam em seu bairro natal.

Há exatos 12 meses, Appel abriu para captação seus primeiros fundos multimercado. O Adam Advanced II acumula ganho de 58,7% no período, sendo 22,09% apenas este ano, segundo dados da Bloomberg. O Adam Macro II rende 28,73% e 10,51% respectivamente. Para efeito de comparação, o Verde Multimercado, do gestor-estrela Luis Stuhlberger, entregou 18,12% no período; e, entre os fundos da rival carioca SPX, o Nimitz Multimercado bateu 20,89% em 12 meses. Já o CDI — juros que são referência do mercado — acumula 13,41% em 12 meses.

Com os ganhos expressivos, o mercado cresceu o olho: a procura de investidores foi tão alta que o Advanced teve de ser fechado a novas aplicações já em agosto e o Macro, em janeiro. No último dia, o fundo recebeu R$ 1,2 bilhão, de um total de R$ 3,5 bilhões naquele mês.

— A magnitude do resultado me surpreendeu, mesmo conhecendo bem o Appel. Ele se destacou desde o início, era um garoto prodígio — conta Wilson Barcellos, de 47 anos, sócio-fundador da Unifinance Consultoria, que trabalhou com Appel no Bozano, Simonsen. — Ele teve ganhos muito diversificados, o que suavizou as perdas quando elas ocorreram. Ele gosta de tomar risco, mas nunca em nível que coloque o patrimônio do fundo em perigo.

Appel estava no Bozano em 2000, quando o banco foi comprado pelo Santander. Foi, então, liderar a construção da asset do banco:

— Vi que era o caminho a seguir, que o risco ia sair da tesouraria dos bancos para as assets. E eu queria correr risco.

Ficou lá até 2008, quando foi convidado para o Safra. Appel consolidou seu nome, mas ainda num círculo fechado. O principal fundo sob sua gestão, o Galileo Multimercado, figurava entre os mais disputados do segmento de altíssima renda. Nos últimos 12 meses, porém, vem apresentando desempenho mais modesto, com rendimento de 14,27%.

— O Appel ficou muito mais famoso quando saiu do Safra. Tanto que nossa primeira reação não foi correr para botar o dinheiro com ele. Só que, quando os fundos começaram a dar muito resultado em pouco tempo, todo mundo correu, como em um efeito manada — disse um executivo de private banking. — Ele também teve a sorte de pegar uma janela de mercado muito positiva para os multimercados.

Appel deixou o Safra em outubro de 2015. Da Adam, nome que escolheu para homenagear o avô, detém 70%. Os demais 30% ficam com sete sócios, segundo ele, parceiros há pelo menos 15 anos.

— O Safra é um bom lugar para trabalhar, mas é diferente de ter seu próprio negócio, em que a alavancagem é muito maior, o foco é muito maior. Você perde menos tempo com coisas que impactam pouco o resultado — diz Appel, lembrando que a Adam tem estrutura enxuta: 19 funcionários em um escritório que dá destaque a grandes fotografias, sua paixão.

A decisão final das estratégias é dele. Appel, aliás, não esconde que liga pouco para o que o resto do mercado pensa. Ele avalia, por exemplo, que o dólar “pode ir fácil abaixo de R$ 3”, enquanto a expectativa média dos analistas é de R$ 3,23 no fim do ano. Para a taxa básica Selic, espera que encerre o ciclo de cortes a 6% ao ano no ano que vem, enquanto os analistas apostam em 8,5% no fim de 2018.

— O consenso não serve para nada — sustenta. — Nossa preocupação é ter o portfólio equilibrado para sobreviver a movimentos de curto prazo. A gente só atua em mercados muito líquidos e tudo deriva de uma leitura de longo prazo do cenário macroeconômico global.

Mas o sócio de uma outra asset do Leblon acredita que, dado o alto retorno da Adam, a fixação no longo prazo é muito mais uma aspiração do que um dogma no cotidiano das operações:

— Tenho acompanhado as posições do fundo dele e ainda não consegui ver motivo para essa performance. Por isso, duvido que seja factível esse papo de foco total no longo prazo. Tem que ter muito trade de curto prazo para gerar essa rentabilidade — alfineta. — O desempenho chama a atenção do investidor, mas também da indústria de investimento. Será que há ali um risco mais relevante ou uma alavancagem que poderia representar problema? Mas, até agora, não há indicação que isso esteja ocorrendo.

Entre seus pares, a avaliação é que Appel tem personalidade forte e difícil. Para alguns, arrogante. Um gestor que trabalhou com ele no Santander lembra que era sistemático em excesso:

— Muitos o achavam até chato, convencido demais. Ele se comunicava apenas com sua equipe direta, não era de muitos amigos. Mas sempre foi muito bem conceituado — contou.

— O Márcio argumenta de maneira muito incisiva. Isso exige da equipe uma grande capacidade para debater. Não é qualquer pessoa que tem estômago para isso. Muita gente confunde isso com prepotência ou arrogância. Discordo porque, embora as discussões fossem sempre duras, ele ouvia as pessoas — disse um executivo que trabalhou com Appel por anos. — Ele tem uma autoconfiança grande e sempre foi extremamente dedicado.

A Adam tem 18 mil CPFs, número alto para assets independentes, obtido principalmente pela decisão de colocar os fundos em plataformas de varejo, como Órama e XP, com aplicação mínima de R$ 50 mil. Muitos fundos deste nível têm ingresso inicial de R$ 500 mil. São 70 distribuidores, entre eles Itaú, BNY Mellon e Safra. Hoje, só o fundo de previdência tem captação aberta. Em junho, Appel lançará o Macro Strategy, que vai ter forte posição em câmbio, com nível de volatilidade maior.

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